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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O negacionismo e o charlatanismo geram fortunas

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista de VivaBem

16/05/2022 04h00

Nos últimos anos, passamos por situações muito difíceis devido à pandemia de covid-19. Além da doença, tivemos de enfrentar a falta de ações corretas dos governantes e de parte da população para combatê-la (o que contribuiu para a maior disseminação do vírus), a lentidão na aquisição de vacinas, os movimentos antivax, o número elevado de mortes e todo o impacto no sistema econômico e social.

Mas, apesar de a economia ter sido muito afetada com a pandemia, há grupos organizados que lucraram bastante com a covid-19. Entre eles estão os "médicos" que seguiram uma linha negacionista para ganhar dinheiro em cima da miséria social e da falta de informação.

Vale ressaltar que isso não é novidade, pois já escrevi, aqui em VivaBem, que uma das maiores fake news da história das vacinas foi dizer que elas eram a causa do autismo, informação falsa propagada por uma equipe de "pesquisadores" que era liderada por um médico inglês, que desenvolveu um trabalho tendencioso para favorecer advogados que defendiam pais em ações judiciais contra fabricantes de vacinas. Esses advogados financiavam muitos trabalhos desse mesmo médico para usar os resultados de suas pesquisas como prova em processos contra fabricantes de vacinas e receber indenizações. Então, essa relação do negacionismo com faturamento pessoal feita por médicos vem de longa data.

O que isso tem a ver com a pandemia? Recentemente, um amigo jornalista recebeu um email de um "médico", que oferecia cursos de "desintoxicação" dos nossos corpos, pois, segundo afirmação mentirosa do "médico", isso é necessário pois existem substâncias tóxicas nas vacinas (repito, uma informação falsa e sem sentido).

email fake news - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O email que meu amigo recebeu e traz informações falsas sobre vacinas
Imagem: Arquivo pessoal

O valor cobrado pelo curso é de R$ 500 e o médico diz que já tem mais de 1.200 alunos. Ou seja, se esse número de alunos for verdadeiro, ele ganhou R$ 600 mil com um treinamento que propaga informações falsas. Antes do curso, esse mesmo "médico" oferecia "mentoria de covid", como forma de propagar o medo contras as vacinas. O comércio lucrativo do negacionista não fica apenas nisso. Meu amigo jornalista foi checar o valor da consulta com o médico do email e descobrimos que ela custa R$ 1600.

Consegue entender agora por que alguns especialistas espalham tantas informações falsas por aí? É uma forma de aparecer, gerar dúvida e medo na cabeça das pessoas e tirar dinheiro da população. E não pense que é um caso isolado.

Ainda em 2020, o presidente da SBCM (Sociedade Brasileira de Clinica Médica) gravou um vídeo em que alertava sobre um médico que tinha ações e falas negacionistas, buscando aparecer e cobrando uma fortuna de seus pacientes para oferecer tratamentos sem comprovação científica. Professores de medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) também assinaram carta de repúdio contra esse mesmo médico antivacina, chamando a atenção para o fato de que "o diploma (de medicina) confere um poder de persuasão que, infelizmente, pode ser usado para benefícios individuais espúrios, de duvidosa postura moral".

O que quero alertar com tudo isso é que precisamos ter muito cuidado. Após mais de dois anos de pandemia, já sabemos muito o que não funciona e o que funciona contra a covid-19. E é inegável que a vacina é a arma que melhor funciona contra o coronavírus. Cuidado com promessas milagrosas e sem sentido de profissionais negacionistas e que praticam charlatanismo em prol de benefícios próprios, pois muitos estão construindo fortunas em cima do medo e do caos social.