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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para resolver a vacinação infantil, precisamos de eficiência na gestão

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista de VivaBem

02/05/2022 04h00

Infelizmente, nós, brasileiros, sofremos com a má gestão do plano de vacinação para combater a covid-19. O governo demorou para comprar vacinas e depois tentou atrasar a liberação do imunizante para crianças de 5 a 11 anos. Além disso, até o momento não iniciamos a vacinação dos pequenos com idade entre 6 meses a 4 anos, o grupo com maior risco de morte entre crianças e adolescente.

A Pfizer aguarda só a conclusão de estudos sobre a terceira dose para pedir a liberação de sua vacina para crianças menores de 5 anos nos EUA.

Assim que o imunizante for autorizado nos EUA, o Ministério da Saúde deveria entrar em contato com a Pfizer o quanto antes e "exigir" que a empresa solicite à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a aprovação do imunizante para essa faixa etária no Brasil. Seria um modo de adiantarmos todo o processo de liberação por aqui, em vez de ficarmos esperando sentados que a farmacêutica tome a iniciativa de fazer o pedido.

Com a antecipação da solicitação de licenciamento, a vacina para esse grupo deve ter caráter de urgência. O governo não deve tentar atrapalhar o processo, como foi com a vacina para crianças de 5 a 11 anos. Vale ressaltar que, de maneira hipócrita e irresponsável, o ministro da Saúde justificou que o fim da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional pela covid-19 foi, entre outros, pelo fato de termos um alto índice de vacinados, mesmo depois de tentarem de várias formas atrapalhar a vacinação da população e ainda termos mais de 100 mortes por dia.

E a CoronaVac?

Não é só de Pfizer que "a gente vive". Pensando na imunização de crianças com menos de 4 anos, temos a CoronaVac, uma vacina que usa vírus inativado ("morto"). A antiga e conhecida tecnologia é usada em vacinas para combater outras doenças, que são aplicadas em todos os grupos etários, sem qualquer restrição.

Em diversos outros países, a CoronaVac já é aplicada em crianças com 3 anos ou mais. Levando em consideração que a CoronaVac usada nessa faixa etária é a mesma que imunizamos os adolescentes e adultos, será muito mais rápido obtermos, distribuirmos e aplicarmos a vacina nas crianças.

Além disso, essa tecnologia não precisa de "temperaturas especiais" para mantermos os frascos de vacinas. Consequentemente, é muito mais fácil para a logística de distribuição para diversos lugares do Brasil, pois nem todos os locais têm as condições exigidas para manter a vacina da Pfizer —consequentemente, diminuímos gastos e não corremos risco de perder vacinas se houver o descongelamento.

Então fica a pergunta: por qual motivo essa vacina não está sendo aplicada aqui no Brasil? A razão é que ela ainda não recebeu autorização da Anvisa.

"Bom, Gustavo, mas precisamos da autorização da Anvisa, certo? Não é você que sempre levanta a bandeira da soberania da Anvisa?", pode questionar o caro leitor.

Sim, levanto essa bandeira e a vacina precisa ter autorização da Anvisa. Ao mesmo tempo, sou uma pessoa prática e vivo na busca da eficiência profissional para obtermos a excelência. Dessa forma, tem que haver uma força conjunta da Anvisa, do Butantan e do Ministério da Saúde para que tenhamos todas as informações necessárias, inclusive com dados vindo de países que têm agências reguladoras de excelência, como Chile, Argentina e Colômbia, para conseguirmos vacinar logo a criançada.

Enquanto ficarmos nesse processo da Anvisa pedir dados para o Instituto Butantan e para a Sinovac, esperar um tempo para eles responderem e depois dizer que precisa de mais dados, vamos continuar perdendo vidas e colocando a sociedade em um sofrimento evitável.

Como citei, tem que ter uma força-tarefa mais eficiente para buscarmos as vacinas, além de um olhar para a pandemia como parte de nossa vida, mas que queremos exterminá-la o mais brevemente possível. E a melhor arma para isso é a vacina. Aliás, as vacinas, pois dispensar qualquer uma dessas vacinas é um ato irracional e irresponsável.