PUBLICIDADE

Topo

Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Covid em crianças e adolescentes: taxa de morte é maior entre 0 e 4 anos

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

04/01/2022 04h00

A discussão sobre a importância de vacinar crianças contra a covid-19 ganhou força após a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizar a aplicação do imunizante da Pfizer nos pequenos com idade entre 5 e 11 anos e o governo federal adotar uma postura contrária à decisão.

Muitos defensores do governo disseram que a doença não é tão perigosa para as crianças. Mas não é bem assim e, para mostrar o quanto a vacinação é importante para proteger a vida dos pequenos, alguns colegas cientistas e eu levantamos dados do Ministério da Saúde no portal OpenDataSUS, entre o final de maio de 2020 e outubro de 2021, período antes de ocorrer o colapso dos websites da Saúde.

São dados detalhados de pacientes, que permitem extrair informações demográficas. Eles são coletados por meio de fichas preenchidas manualmente nos hospitais e, geralmente, enviadas para digitação em outro lugar. Infelizmente, isso abre a possibilidade de atrasos, perdas de dados e, consequentemente, subnotificações.

Morte de covid em crianças - Os dados foram obtidos por Marcelo Soares, diretor do estúdio de inteligência de dados Lagom Data, em São Paulo. A ilustração é de William Cabral de Miranda, mestre e doutor em geografia física pela USP e pesquisador do Instituto PENSI - Os dados foram obtidos por Marcelo Soares, diretor do estúdio de inteligência de dados Lagom Data, em São Paulo. A ilustração é de William Cabral de Miranda, mestre e doutor em geografia física pela USP e pesquisador do Instituto PENSI
O mapa mostra os estados com taxa de mortalidade de crianças e adolescentes por 100.000 habitantes, sendo que a cor mais avermelhada representa os locais com maior taxa de mortalidade. No gráfico em pizza, a mortalidade é dividida por porcentagem, em grupos de crianças de 0 a 4; 5 a 11 e 12 a 18 anos. Já a figura com barras mostra o número de óbitos por região do Brasil, onde o Nordeste se destaca, com mais óbitos
Imagem: Os dados foram obtidos por Marcelo Soares, diretor do estúdio de inteligência de dados Lagom Data, em São Paulo. A ilustração é de William Cabral de Miranda, mestre e doutor em geografia física pela USP e pesquisador do Instituto PENSI

Os dados coletados foram separados por "grupos vacinais", ou seja, pela idade de 0 a 4; 5 a 11 e 12 a 18 anos, pois os testes das vacinas para aplicação em crianças e adolescentes foram divididos por essas idades. Além disso, dividimos os dados por estado e região para obter uma visão mais precisa de onde os casos estão ocorrendo com maior ou menor intensidade.

O número total notificado de mortes de crianças e adolescentes provocadas pela covid-19 foi de 2.302 mortes. Desses, conforme pode ser visto na figura em formato de "pizza", o grupo de maior risco é o de 0 a 4 anos, pois apresenta 48% das mortes. Isso era de se esperar, pois essa fase da vida é chamada de "período das viroses infantis", momento em que o sistema imunológico está em fase de maturação, portanto, uma infecção pelo coronavírus pode levar à morte mais facilmente.

O grupo de 5 a 11 anos tem uma taxa de fatalidade de 13% e o de 12 a 18 anos, de 39%. Várias são as explicações possíveis para justificar essa diferença entre os grupos. Mas, o que não podemos dizer é que são números baixos e, portanto, não podemos deixar de proteger nossas crianças com a melhor arma contra doenças infecciosas, que é a vacina.

Dizer que o número de mortes em crianças é baixo, pois já tivemos mais de 600 mil mortes causadas pela covid-19, é uma forma de banalizar a vida.

Volta às escolas aumenta o risco

Ressalto que, na maior parte do período em que esses dados foram fornecidos, as crianças e os adolescentes não tinham aulas e creches presencialmente, portanto, podemos dizer que o risco de infecção pelo coronavírus para eles era menor.

Porém, ano passado muitas voltaram a ter aulas presenciais e, depois das férias, em fevereiro de 2022, teremos crianças com atividades 100% presenciais. Desta forma, a vacinação é de extrema importância para a proteção de nossas crianças e adolescentes.

Por fim, os dados mostram que a região que mais sofreu com mortes de crianças e adolescentes foi o Nordeste. Chamando a atenção para este problema, devemos olhar com uma perspectiva mais humanitária para áreas do Brasil que já têm sofrimentos históricos e que se intensificaram durante a pandemia.

Por lá, os danos foram além da perda de milhares de crianças e adolescentes, pois a fome aumentou dramaticamente e, consequentemente, o número de mortes causadas pelo que a fome faz nessas pessoas fragilizadas é difícil de calcular.