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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como os vírus driblam resposta imunológica e surgem novas cepas (variantes)

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

07/02/2022 03h59

Graças à pandemia de covid-19, estamos vivendo um momento histórico bem complexo e triste, mas que também nos proporciona aprendizados. Algo que muitos não sabiam —ou sabiam e não se atentavam—, por exemplo, é o surgimento de novas variantes virais. Agora, o assunto está em alta e todo mundo quer entender sobre.

No caso do novo coronavírus, para começar, vale ressaltar que já foram identificadas inúmeras variantes ao longo desses mais de dois anos. Mas, grande parte delas, ao sofrer mutações, não obtiveram vantagens que fizessem se tornar dominantes, como aconteceu com as chamadas variantes de preocupação: alfa, beta, gama, delta e, mais recentemente, a ômicron —que agora teve uma subvariante identificada, a BA.2.

A ômicron e sua subvariante já me deixavam muito irritado por sua alta capacidade de infecção e de escapar, mesmo que parcialmente, da resposta imunológica gerada pela vacinação. E, como bom baiano que sou, fico ainda mais revoltado em ver a sigla da minha querida Bahia (BA) no que até o momento é a pior variante do vírus causador da pior pandemia de nossa história.

Como os vírus driblam nossa imunidade?

Protesto feito, vamos entender a capacidade que alguns vírus (como o causador da covid-19) têm de fugir da resposta imunológica e gerar novas cepas virais.

Os vírus contam com diversas maneiras de escapar das "defesas" que nosso organismo desenvolve contra eles. Por exemplo, podem modificar seus antígenos, que são as moléculas reconhecidas por anticorpos (as tão famosas células T), para deixarem de ser identificados pelo sistema imune.

As principais mudanças para isso acontecem no genoma dos vírus. Elas ocorrem quando os vírus infectam as células de um hospedeiro (nosso corpo ou o de um animal) e passam a usar o material genético do hospedeiro como "fábricas de replicação".

O novo coronavírus, por exemplo, tem sofrido mutações nos genes que codificam a proteína spike ("S") —a chave do vírus para entrar na célula e o principal alvo das vacinas e anticorpos neutralizantes desenvolvidos pelo sistema imunológico.

Dessa forma, se há uma mudança significativa nessas proteínas "S", assim como em outras partes do vírus, isso vai favorecer que ele escape da resposta imunológica, caso a gente tenha uma reinfecção.

Como evitar que apareçam novas variantes

Está claro que o coronavírus precisa das nossas células para "criar" suas variantes. Logo, a melhor forma de evitar que isso acontece é não facilitar que o vírus tenha acesso ao nosso corpo. É por esse motivo é que pedimos para que as pessoas, mesmo vacinadas com todas as doses, sigam usando máscara e evitando aglomeração.

Desse modo, além de não ficar doente, você não oferece ao vírus a oportunidade de infectar seu corpo e utlizá-lo como uma fábrica de replicação —o que em algum momento pode fazer surgir uma nova variante, mais agressiva.

No caso do coronavírus, ele tem algumas características que o conferem a capacidade de infectar diversas partes do nosso corpo, desde as células das vias respiratórias (nariz, garganta) até as dos rins, coração, pulmões, fígado e do sistema nervoso, como o cérebro, o que torna o vírus ainda mais potente.

Influenza, um famoso mutante

Não posso falar de variantes sem citar o vírus causador da gripe, que é famoso por suas mutações —uma delas, inclusive, a H3N2, provocou um surto no Brasil no final do ano passado, em meio à pandemia de covid-19, sobrecarregando ainda mais o sistema de saúde.

Os vírus influenza habitam diversas espécies de animais, além do ser humano, e utilizam as células desses hospedeiros para fazer rearranjo de seu material genético, podendo resultar em cepas bem diferentes das anteriores, o que pode favorecer ao vírus se tornar resistente à resposta imunológica gerada por infecções e/ou vacinas.

Assim, ele nos obriga a atualizarmos anualmente as vacinas contra a gripe, pois a imunidade gerada por uma infecção e/ou pela vacinação não conseguirá nos proteger de futuras infecções.

Os vírus influenza têm causado problemas históricos devido à sua capacidade de mutação, como as pandemias de gripe em 1918, 1957, 1968 e, mais recentemente, em 2009. Vale ressaltar que essa última, provocada pelo H1N1, foi uma "obra de arte" da natureza para perpetuar a "vida" do influenza (vida entre aspas, pois o vírus não é considerado um ser vivo).

Essa cepa do H1N1 surgiu de rearranjos do material genético do vírus (RNA), que se combinou entre as cepas de suínos, aves e seres humanos. Isso é evolutivamente incrível, apesar de perigoso. Essa recombinação genética do vírus pode acontecer quando um hospedeiro, como o ser humano, o porco ou o frango, é infectado por duas ou mais cepas diferentes ao mesmo tempo.

Desse modo, a nova cepa gerada por esse rearranjo genético pode ganhar maneiras de escapar da resposta imune provocada pela infecção do vírus original, fazendo com que o vírus entre em "um mundo novo", onde não há nenhuma ou há muito pouca proteção prévia específica contra ele. Ou seja, o vírus tem todos os corpos disponíveis para explorar! O problema é que essa "exploração" pode nos levar à morte.

Dessa maneira, precisamos abrir os olhos para a necessidade da eterna vigilância científica, para pegarmos os vírus, assim como outros agentes causadores de doenças, antes de eles provocarem um caos estrutural, desde o prejuízo incalculável de mortes, aos danos financeiro, educacional etc., como o que estamos vivendo nesta pandemia.

Ou seja, a ciência não é importante apenas quando o caos já foi instalado, ela também é importante antes de um surto acontecer e pode agir de forma ainda melhor se conseguir se antecipar a ele.