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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não acredite em fake news: vacinas são seguras e não causam miocardite

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

15/11/2021 04h00

Durante a pandemia, combater fake news foi algo que exigiu (e ainda exige) muito tempo e esforço de cientistas, médicos e outros profissionais da saúde. E algo ainda mais revoltante é que muitas vezes essas informações falsas foram criadas ou espalhadas por outros médicos, de forma mal-intencionada, com o objetivo de chamar a atenção, ganhar o apoio de negacionistas e seguidores em redes sociais.

É nítido que esse médicos que propagam fake news querem só aparecer, pois muitas vezes eles pegam um trecho da minha coluna ou de outros profissionais sérios que escrevem aqui no UOL e fazem um "showzinho", dizendo que nós estamos falando mentira —quando na verdade são eles que estão fazendo isso— e nos marcam, só para gerar uma grande discussão e atrair o "público".

Mas esses médicos parecem ser ignorantes quando o assunto é ciência. Muitas vezes, chegam a fazer prints da primeira página de um artigo científico e grifarem alguns pontos para tentar dizer que estão certos, o que para o público leigo até parece plausível. Mas qualquer pessoa que sabe interpretar um artigo científico logo vê que esses médicos mal conseguiram ler todo o resumo do artigo científico e pegaram só frases soltas que interessavam a eles, sem ter a menor ideia do que a pesquisa realmente concluiu.

"Mas, Gustavo, por que você está perdendo tempo falando disso?", você pode estar se perguntando. Porque essas atitudes mal-intencionadas geram medo na população e fazem com que muitas pessoas deixem de vacinar seus filhos adolescentes, por exemplo, com medo de que eles desenvolvam miocardite (uma doença no coração).

Bom, para esclarecer a questão, vou trazer aqui estudos e explicar os riscos e benefícios das vacinas de mRNA —tecnologia usada no imunizante da Pfizer, que, inclusive, inicialmente foi associado com a transformação de pessoas em jacaré, mas depois passou a ser a "queridinha" dos sommeliers de vacinas.

Primeiramente, se a gente está chegando em uma "zona de conforto", em que pela primeira vez tivemos vários estados sem mortes provocadas pela covid-19 em 24 horas, é graças à vacinação em massa. Logo, é nítido que as vacinas funcionam e são seguras.

Vamos às pesquisas científicas... Um estudo publicado no New England Journal of Medicine (periódico científico mais bem conceituado do planeta), em dezembro de 2020, com o título "Safety and Efficacy of the BNT162b2 mRNA Covid-19 Vaccine", mostra que a segurança e a eficácia da vacina de mRNA foram estudadas nos ensaios clínicos de fases 2 e 3, que contaram com 43.448 participantes com idade igual ou maior que 16 anos.

Em relação à eficácia, como já foi bastante divulgado, essa vacina gerou uma proteção de 95%. Não houve diferenças significativas na eficácia entre as diferentes idades, sexo, raça, etnias, IMC e pessoas com hipertensão. No artigo tem muito mais informações detalhadas, mas vale ressaltar que nenhuma morte foi relacionada à vacina ou ao placebo e nenhuma morte associada à covid-19 ocorreu entre os vacinados.

E a miocardite?

Há estudos sobre esse assunto também. Inclusive, alguns espalhados pelos médicos que criam fake news, que não entenderam bem os artigos científicos e fizeram um sensacionalismo enorme.

É importante entender que algumas afirmações nesses estudos foram publicados para nós, cientistas, adentrarmos na pesquisa e darmos passos posteriores, para avançar na compreensão desse tema. Elas servem como um guia do que a ciência precisa avançar e seguir estudando —na nossa área, pesquisas e resultados publicados não conclusivos são para gerar maior interação científica e mais descobrimento, não para médicos fazerem sensacionalismo em redes sociais.

Alguns estudos muito bons que vale a pena citar foram publicados fazendo a relação da miocardite com a vacina. Um deles, feito em Israel, examinou 5.442.696 pessoas com 16 anos ou mais, que foram pelo menos parcialmente vacinados com o imunizante da Pfizer (94,2% receberam as duas doses), e as comparou com 3.847.069 pessoas não vacinadas.

Nessa análise, 283 pessoas tiveram provável miocardite, sendo 142 casos (50,2%) em voluntários que receberam a vacina da Pfizer. Quase 95% dos casos de miocardite com possível associação à vacina foram leves, mas uma pessoa morreu. No geral, os dados desse estudo sugeriram que a miocardite ocorreu em aproximadamente 1 de 26.000 homens e 1 de 218.000 mulheres após a segunda dose da vacina. A maioria dos casos se manifestou dentro de uma semana após a segunda dose em homens jovens.

Mas aqui, reparem, o percentual de pessoas vacinadas que teve miocardite não se sobrepõe ao de não vacinadas. Então, tudo indica que o número de vacinados que apresentou o problema está dentro do esperado para aquela população, não que a vacina causou o problema, pois para chegar a uma conclusão é necessário levar outros fatores em consideração, não só a vacinação. Doenças cardíacas são a principal causa de morte no mundo há 20 anos, e multifatoriais.

Mesmo assim, os cientistas alertaram sobre a ocorrência no estudo, para que outros cientistas produzam mais pesquisas para investigar a associação —como eu já expliquei que acontece.

Ou seja, não foi concluído que as vacinas causam miocardite. É só um alerta para nós, cientistas, de que isso precisa ser melhor analisado. Nesses estudos que dão um passo adiante, nós cientistas vamos levar em consideração a vacinação e outras causas de miocardite, que são diversas e vão desde infecções por vírus até o uso de medicamentos. Só assim poderá ser analisado se a pessoa teve miocardite por causa da vacina ou de um outro fator.

Mas pode ficar tranquilo. Até o momento, nenhum estudo concluiu que vacinas causam miocardite, apenas associa as duas coisas. Só para reforçar, um outro estudo, também feito em Israel e publicado no New England Journal, mostrou que ocorreram dois casos de miocardite a cada 100.000 vacinados. Nesse estudo, os pesquisadores analisaram os dados do "Clalit Health Services de Israel", que cobre cerca de 52% da população total. De mais de 2,5 milhões de pessoas vacinadas com 16 anos ou mais, somente 54 casos de miocardite associados à vacina Pfizer foram identificados, sendo 41 leves (76%), 12 intermediários (22%) e 1 relacionado ao choque cardiogênico. É muito pouco e, repito, está dentro do esperado para a população e não se pode afirmar que a vacina causou o problema no coração, pois é preciso eliminar outros fatores (uso de medicamentos, infecções etc.).

Espero que toda essa explicação não tenha sido cansativa. Foi longa, eu sei. Mas ela é importante para tirar a loucura da cabeça de algumas pessoas que acham que a vacina causa mais problemas do que solução para nossas vidas.

E, por favor, não deixe que médicos sensacionalistas, que só querem seguidores nas redes sociais, aproveitem parte da população que está de portas fechadas para ciência (os negacionistas) —ou aterrorizada com as fake news— para enganar muitas outras pessoas de bem, que buscam apenas cuidar da vida de si e de outros, para poder voltar a ter uma vida digna, sem medo de sair para buscar o pão de cada dia, com segurança, e sem perder a vida ou alguém que ama.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL