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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que vacinar crianças e adolescentes se o número de mortes é 'baixo'?

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

01/11/2021 04h00

Na semana passada, o FDA (órgão dos EUA similar à Anvisa) autorizou a aplicação da vacina da Pfizer contra a covid em crianças com 5 a 11 anos. A Pfizer, que recentemente divulgou uma pesquisa que mostra que seu imunizante oferece proteção acima de 90% e é seguro para os pequenos com essa idade, já informou que também irá solicitar à Anvisa a autorização para o uso de sua vacina em crianças aqui no Brasil.

Com isso, por incrível que pareça, volta a crescer o número de fake news e questionamentos absurdos, como "por que vacinar as crianças e adolescentes se há poucas mortes nesses grupos?".

Muitas mensagens que nós (imunologistas e vacinologistas) recebemos são agressivas e ameaçadoras. Tentam fazer parecer que estamos cometendo um crime ao apoiar a vacinação de crianças e adolescente. Querem nos acovardar de seguir lutando para controlar a pandemia. As investidas dos negacionistas e antivax chegaram ao ponto de diretores da Anvisa serem ameaçados de morte caso autorizem a vacinação de crianças.

E a melhor forma de combater os grupos antivacinas é com informação de qualidade —assim, a população não acredita nas mentiras faladas pelos negacionistas e segue buscando a vacinação em massa, algo que as pessoas do nosso país estão fazendo muito bem.

A primeira coisa a se entender é que o uso de uma vacina só é aprovado pelas agências reguladoras após a apresentação de dados (obtidos em pesquisas feitas com todos os rigores científicos) que comprovem sua segurança e eficácia. Logo, não acredite em quem diz que vacinar uma criança é mais arriscado do que a criança pegar covid. A vacinação é segura.

Poucas mortes? Todas as vidas importam!

Até agora, a covid-19 já matou cerca de 4.000 crianças e adolescentes no Brasil. Se consideramos que, ao todo, a doença provocou mais de 600 mil mortes, o percentual de óbitos em crianças e adolescentes é de 0,6%, o que para algumas pessoas é pouco.

Realmente, para quem não tem um pingo de humanidade e só vê a matemática, a taxa é baixa. Mas, para os pais, irmãos, avós, tios, amigos, vizinhos, professores ou qualquer pessoa próxima de uma criança ou um adolescente que morreu de covid, ou para qualquer pessoa que tenha um pingo de amor no coração, uma única morte já é algo terrível, causa de uma tristeza sem fim. Imagine 4.000.

O incrível nesse diálogo é que as pessoas que alegam que crianças não precisam ser vacinadas pois o número de mortes é pequeno são as mesmas que dizem que as aulas presenciais não deviam ter sido interrompidas, ou os parques e o comércio fechados.

Agora, imagine o quanto as crianças e adolescentes poderão sofrer com a volta das aulas 100% presenciais sem uma proteção adequada, como a conferida pela vacinação, que é a melhor arma de combate a qualquer doença infectocontagiosa.

Claro que, com o número de mortes caindo e o vírus circulando menos, juntamente com os devidos cuidados (uso de máscara, distanciamento, higienização das mãos, salas ventiladas etc.), as aulas presenciais podem e devem voltar, pois escolas vazias causam um prejuízo social incalculável. Mas, poder vacinar a garotada vai garantir ainda mais segurança e tranquilidade para mantermos nossas crianças na escola.

Há ainda diversos outros questionamentos esdrúxulos de negacionistas, inclusive médicos e profissionais de outras áreas da saúde. Já escutei médico dizendo que não faz sentido vacinar crianças fora da idade escolar, por exemplo. Isso é absurdo. Provavelmente, esse médico nunca viu o documento publicado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) que mostra que quase metade das crianças e adolescentes mortas pela covid-19 em 2020 tinham até 2 anos de idade.

A vacinação nessa fase da vida é importante por ser um período de maturação imunológica, que requer uma atenção especial, principalmente quando falamos de um vírus que é "novo" para o corpo humano.

Ainda afirmo que, além da Pfizer, o Butantan deve insistir em tentar junto com a Anvisa a aprovação do uso da CoronaVac em crianças, pois esse tipo de vacina que usa a tecnologia de vírus inativado ("morto") é extremamente seguro. Além disso, em jovens, a capacidade do imunizante estimular o sistema imune tende a ser muito mais eficaz do que no grupo de pessoas mais velhas.

Por isso, insisto que devemos tentar de todas as formas legais e científicas obter os dados necessários para encaminhar para a Anvisa e obter a liberação da CoronaVac para crianças e adolescentes.

Seja Pfizer, seja CoronaVac, se a vacina for autorizada, por favor, vamos levar nossa garotada para ser imunizada, pois vacinas salvam vidas de pessoas em todas as faixas etárias. Argumentos bizarros não podem tirar nosso foco em evitar que o número de mortes volte a crescer e controlar a pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL