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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ter 50% da população completamente vacinada traz grande dose de esperança

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

18/10/2021 04h01

O Brasil tem uma capacidade de imunização em massa que poucos países no mundo têm. Eu sempre brinquei com amigos que fiz quando morava no exterior dizendo que, em termo de vacinação, nós somos imbatíveis.

Ter praticamente 50% da população completamente vacinada contra a covid (com duas doses do imunizante, ou uma em caso da Janssen) e quase 73% com uma dose comprova o quanto somos bons nisso, apesar de tantos obstáculos quer surgiram.

Demoramos para adquirir as vacinas, temos uma CPI para investigar as possíveis condutas criminosas no combate à pandemia e o presidente da república foi negligente em várias questões —como ainda não ter se vacinado, questionar a eficácia da vacinação, entre outras ações que geraram um verdadeiro programa de desorientação social. Mas, mesmo assim, conseguimos vacinar tantas pessoas que estamos ultrapassando os chamados países de primeiro mundo —que, acertadamente, buscaram obter as vacinas contra a covid o mais cedo possível.

Por que somos tão bons assim?

Nossa tradição em vacinação vem desde a década de 1980 e, no início do século 21, tivemos um grande ganho com a criação de um enorme número de postos de saúde e pontos de vacinação. Temos aproximadamente 37 mil postos de saúde distribuídos pelo Brasil e, quando fazemos campanhas, alcançamos facilmente 50 mil postos de vacinação, pois usamos escolas, estádios etc. Quando gerimos bem o PNI (Programa Nacional de Imunização), tranquilamente podemos aplicar 3 milhões de doses diariamente.

Ainda temos os agentes comunitários de saúde, que ficam alocados em cada posto de saúde distribuído por esse "Brasilzão" e vão às casas de muitos brasileiros pelo menos uma vez ao mês, mesmo nos lugares de mais difícil acesso. Dessa forma, quando bem geridos, esses agentes conseguem orientar a população a buscar a vacinação —seja a primeira, seja a segunda dose.

Unindo toda essa estrutura com a força da mídia, que em sua grande maioria tem ajudado muito no combate à pandemia, a informação do quão importante é a vacinação foi capaz de chegar na população com muito mais clareza, estimulando que grande parte buscasse a vacinação em massa. E assim devemos continuar!

Falando em busca pela vacinação em massa, esse é um importante ponto para citar aqui, pois muitos podem perguntar como é que um país como os Estados Unidos, que tem tanta vacina e, inclusive, oferece recompensa para as pessoas se vacinarem, estagnou na vacinação?

Lá eles não têm algumas coisas que temos aqui. Uma das principais é o nosso PNI, que tem como regra a busca pela equidade, ou seja, nenhum estado, por mais rico que seja, pode percentualmente receber mais vacinas do que qualquer outro.

Claro que há alguma diferença, mas sempre mantemos a proximidade de vacinados entre os estados, diferentemente dos Estados Unidos, onde vemos um alto percentual de vacinados em alguns estados, enquanto em outros, em especial os mais conservadores e que têm uma enorme influência dos movimentos anti-vax, o percentual de vacinados é muito baixo.

Isso explica, por exemplo, porque os Estados Unidos conseguiram chegar a poucas centenas de mortes provocadas pela covid-19 diariamente, mas por terem esses estados com pouca vacinação, a variante delta do coronavírus se espalhou de forma espantosa e conduziu o país a voltar a ter milhares de mortes diárias.

Sim, por causa desses malditos movimentos anti-Vax e a irresponsabilidade de vontades individuais sobreporem o interesse público, os Estados Unidos têm passado maus bocados.

Em nosso caso, por sorte, a maioria da população quer se vacinar! Aqui, muitos bolsonaristas fazem barulho, dizem que a vacina é ruim, causa isso ou aquilo —ou seja, disparam uma multiplicidade de fake news. Mas, no final, graças a Deus, não conseguem influenciar a população e são uns baitas covardes, pois, em sua grande maioria, correm para se vacinar, já que têm medo da morte. Ou seja, defendem a política da "cloroquina pros outros e vacinas pra nós".

Taxa de transmissão em queda

Outro ponto muito importante é a taxa de transmissão (Rt) do vírus, que está diminuindo. De acordo com dados do Imperial College (Reino Unido), atualmente, o Rt do coronavírus no Brasil é o menor visto desde quando começou a pandemia —embora a medição tenha começado só em abril de 2020. Pela primeira vez, o índice chegou ao 0,60, conforme últimos dados divulgados no dia 11.

Basicamente, isso quer dizer que a cada 10 pessoas que foram infectadas, 4 não transmitiram o vírus para outras pessoas. Para alguns, pode parecer muito, mas quando começamos a escalonar esses números, quanto mais o tempo passa e as pessoas transmitem menos, a tendência é chegarmos ao controle da transmissão do vírus.

Estamos perto de controlar a pandemia?

Bom, podemos dizer que estamos em um momento confortável para administrar melhor a pandemia e conseguirmos controlar as mortes provocadas pela covid-19, algo maravilhoso.

No entanto, como estamos falando de pandemia, o problema acontece de forma mundial. Por isso, não podemos pensar apenas de forma local, ou seja, quando "controlarmos" a pandemia aqui no Brasil, precisaremos ter lideranças que possam buscar interações internacionalmente, para ajudar a combater o vírus em todo o mundo.

Isso porque, mesmo que tenhamos controle aqui, caso em países sem controle do vírus surjam variantes que consigam escapar da vacinação, isso pode gerar um enorme desequilíbrio no mundo e provocar novas ondas da doença. Ou seja, sempre estaremos numa corda bamba se não pensarmos e agirmos de maneira local e global.

Dessa forma, vamos deixar essa dose de esperança que a alta taxa de vacinação trouxe nos contagiar, mas mantendo a responsabilidade com as ações de prevenção e dispersão do vírus. Por exemplo: a máscara não poderá ser dispensada tão cedo. E usar máscara não mata ninguém, pelo contrário, salva muitas vidas. Portanto, vamos seguir com vacina no braço e máscara na cara!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL