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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que a vacina da Pfizer tende a gerar reação mais forte na segunda dose

Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Imagem: Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

06/10/2021 04h00

Em geral, o mais comum é que a primeira dose de uma vacina provoque reações adversas mais intensas do que a segunda dose —é importante deixar claro que essas reações são esperadas e leves, como dor no braço, dor de cabeça, dor no corpo, coriza e mal-estar, ou seja, nada que seja motivo para alguém deixar de receber a primeira ou a segunda dose.

Porém, tenho recebido mensagens nas redes sociais e até escutado relatos de alguns conhecidos de que o desconforto gerado pela vacina da Pfizer foi muito maior na segunda dose do que na primeira —inclusive, isso ocorreu também em quem recebeu a primeira dose da AstraZeneca e a segunda da Pfizer. Realmente, é algo que tende a acontecer nos dois esquemas vacinais e totalmente explicável.

Vou começar explicando os casos de intercambialidade da vacina (quem recebeu a primeira dose de uma marca e a segunda de outra). Nessa situação, é muito comum que o corpo reaja como se cada vacina aplicada fosse a primeira vacinação, pois os componentes da formulação vacinal são diferentes.

Embora o conteúdo (ou material) do coronavírus nas duas vacinas seja o mesmo —a proteína Spike, aquela coroa que recobre o vírus e é a chave para ele entrar em nossas células—, o carregador desse pedaço do coronavírus é diferente. Imagine que a proteína Spike é um passageiro, que em cada vacina é carregado em um carro diferente. Então, nosso organismo só reconhece esse passageiro quando abre a porta do carro e "olha" o que tem lá dentro.

Dessa forma, a primeira impressão do sistema imune que recebe duas vacinas diferentes é que o "carro" de cada uma é algo novo. Sendo assim, a primeira resposta do sistema imune pode gerar uma sensação de mal-estar, como se todas as aplicações fossem a primeira dose —mas isso não afeta em nada a proteção contra o coronavírus gerada por esse esquema vacinal, como eu já expliquei.

No que se refere as duas doses com a vacina da Pfizer, a reação tende a ser maior na segunda dose por causa do que chamamos de tolerabilidade e reatogenicidade. Para que as vacinas de mRNA (como a Pfizer) funcionem, elas precisam de um carreador chamado de LNPs (sigla para lipid nanoparticles), que simplificadamente podemos chamar de partículas de gordura.

Para ter estabilidade e entregar devidamente o mRNA para nossas células, os LNPs precisam de múltiplos componentes que foram desenvolvidos pelos fabricantes de vacinas —ou seja, são algo desconhecido para o organismo. Quanto mais aplicamos essas nanopartículas, mais o corpo tende a gerar uma certa tolerância a elas e, consequentemente, há uma maior reatogenicidade —isto é: a vacina gera uma reação adversa maior.

Vale lembrar que, além da reação aos LPNs, a vacina ainda tem o mRNA, que produz uma grande quantidade de proteína Spike, fazendo com que o sistema imune reaja potentemente à partícula do coronavírus e, consequentemente, nosso corpo sinta um certo desconforto.

Portanto, não estranhe se na segunda dose da vacina da Pfizer você sentir um mal-estar maior que na primeira, pois isso é esperado devido aos componentes contidos nessa vacina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL