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Gustavo Cabral

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vacina para todos profissionais: só assim é possível volta às aulas segura

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

13/04/2021 04h00

No último sábado (10) começou a tão esperada vacinação dos profissionais da educação em São Paulo. Com isso, é natural as pessoas começarem a se questionar quando é que as aulas presenciais de fato vão voltar.

Falando como alguém que tem licenciatura —ou seja, formação para dar aula— e experiência com sala de aula e como cientista que sou de formação e atuação, não tenho dúvidas que em breve será possível retomar a educação semipresencial com segurança, para que os estudantes possam ter uma melhor formação. Mas nunca podemos nos esquecer do quesito segurança ao planejar qualquer retorno às aulas.

E para essa volta ser segura, nenhum profissional da educação deve voltar ao trabalho presencial com os estudantes sem estar com a vacinação completa —ou seja, ter recebido as duas doses, no caso das imunizações que exigem isso, e aguardar o tempo para que ocorra a resposta imunológica e a vacina proteja contra a covid-19. Só assim essas pessoas não vão correr risco de ter uma doença grave nem serão vetor do coronavírus para os alunos, que podem levar o vírus para casa e infectar seus familiares.

Com a pandemia fora de controle, não podemos considerar que o simples fato de a vacinação de profissionais de educação ter sido iniciada já seja suficiente para a volta às aulas

O incrível que sempre escuto pessoas citando que vários países, como Dinamarca, Noruega, França, Holanda, Austrália e Grécia, retornaram às aulas "muito rapidamente". Mas essas mesmas pessoas se esquecem que esses, entre outros países, reagiram rapidamente no combate à covid-19 e/ou não repetiram erros que levaram a uma segunda onda tão desastrosa quanto a nossa.

Esses países conseguiram isso porque seguiram as recomendações técnicas cientificas, ao contrário de nós, que para abafarmos as nossas ações desastrosas temos tentado conduzir a população a atividades pessoais e profissionais sem os devidos cuidados de proteção.

Não quero dizer que não podemos ou não devemos reabrir as escolas, mas sim que devemos considerar qualquer hipótese de exposição que possa levar ao acometimento da doença nessas pessoas que tanto anseiam por uma educação de qualidade e, com isso, preservam a vida acima de tudo.

Portanto, com certeza só podemos voltar às aulas semipresenciais quando tivermos a certeza de que todos e todas as envolvidas no processo educacional, desde os profissionais da portaria e de limpeza até os educadores possam levar educação formal aos estudantes, sem causar morte, pois covid-19 é sinônimo de morte.

Como arquitetar um retorno seguro às aulas

1. Como falei, primeiramente temos que vacinar todos os profissionais da educação com duas doses e depois esperar mais duas semanas após a segunda dose, para o imunizante fazer o efeito esperado.

2. Após isso, devemos dividir as turmas em pequenos grupos e, a cada semana, uma parte dos estudantes assiste as aulas presenciais enquanto a outra parte obtém os conteúdos online.

3. Nunca devemos abrir mão dos cuidados já conhecidos para conter a covid-19: usar máscaras e álcool em gel; manter um distanciamento de pelo menos 2 metros; averiguar a temperatura dos profissionais e dos estudantes antes de entrarem em sala de aula; deixar janelas abertas e o local bem ventilado.

Precisamos entender que a comunidade escolar está apavorada e os familiares devem estar também. Quando eu falo isso, não é para gerar mais pavor, e, sim, para gerar responsabilidade de quem toma as decisões de levar os profissionais e estudantes para a sala de aula num momento tão complexo que estamos passando —em que está crescendo o número de jovens internados com covid-19.

Essa pandemia não será controlada até entendermos que qualquer ação deve ser pensada de forma coletiva. Uma pessoa vacinada não pode simplesmente pensar que não precisa mais se preocupar com a doença. Nunca podemos nos esquecer que qualquer um, vacinado ou não, mesmo que não desenvolva sintomas graves pode passar o vírus para outras pessoas. E isso, muitas vezes, volto a repetir, pode ser a passagem da morte para alguém que esteja imunodeprimido, tenha comorbidades ou não foi vacinado.

Conclusão: não adianta tentar pressionar para as aulas voltarem logo, para o shopping e academias reabrirem e os bares e restaurantes voltarem a receber público. Nesse momento, temos de evitar qualquer tipo de atividade que exponha qualquer classe profissional e cidadão de modo geral.

Você não quer o isolamento social nem lockdown no futuro? Então, mantenha o distanciamento social seguro, use máscara, higienize as mãos e incentive e lute pela vacinação de toda a população. Caso contrário, pode ser necessário um lockdown (com restrições que nunca ocorreram no Brasil) contermos uma maior proliferação do vírus e evitarmos ainda mais mortes —além de oferecermos nosso corpo para o vírus infectar e gerar mutações, possibilitando, assim, o surgimento de novas variantes que consigam escapar das vacinas, mesmo que parcialmente, ou se tornem ainda mais letais para a sociedade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL