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Gustavo Cabral

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ministério muda recomendação de PCR e isso pode mascarar números da covid

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

23/03/2021 13h04

Estamos no pior momento da pandemia e ainda assim ouvimos o discurso negacionista de algumas pessoas, que dizem que "mortes por outras causas estão sendo contadas como por covid-19". Isso não é verdade, mas uma coisa é fato: só após a pandemia (sim, ela vai acabar um dia) é que saberemos os números reais da doença, que provavelmente serão mais elevados do que os números mostrados atualmente.

Isso porque sempre ao fim de uma pandemia —ou de uma guerra, ou de uma tragédia— a recontagem de fatalidades mostra números maiores do que os que são notificados no período em que os fatos estão em andamento. Um dos motivos na diferença dos dados é que durante a pandemia muitas pessoas buscam esconder os números —para camuflar sua incompetência e culpa. E o que não faltam são maneiras de "maquiar" dados.

No caso de pandemias, uma delas é direcionar os profissionais da saúde a caminhos que levem à realização de diagnósticos falso negativos —ou seja, o paciente pode estar infectado, mas vai receber um resultado de que não está doente. E aqui é importante dizer que, além de alterar as estatísticas da doença, isso prejudica o controle da pandemia e pode trazer prejuízos incalculáveis, especialmente no caso da covid-19.

Imagine só uma pessoa infectada pelo coronavírus que recebe um diagnóstico falso negativo. Ela vai voltar para casa e retomar sua vida normal. Assim, em pouco tempo, pode espalhar o vírus para pessoas próximas, pois não tomará o cuidado de se isolar. Além disso, essa pessoa pode demorar a procurar ajuda médica novamente caso seu problema se agrave, por imaginar que seus sintomas não têm relação com a covid-19. Aí, pode ir ao hospital somente quando a doença estiver em estágio muito avançado, o que complica a recuperação.

Bom, mas por que estou falando disso agora?

Recentemente, conversando com alguns amigos médicos, achamos muito estranha a atualização do "Guia de Vigilância Epidemiológica" do Ministério da Saúde, que ocorreu na versão 3, em 15 de março de 2021. Nela, é recomendado que o método laboratorial RT-qPCR para detectar o RNA do vírus SARS- CoV-2 (novo coronavírus) em pacientes com síndrome gripal (SG) seja realizado entre o primeiro e o oitavo dia de sintomas. Ou, em pacientes internados com SRAG (Síndrome respiratória aguda grave), seja realizado entre o primeiro e o 14° dia de sintomas.

Os testes de PCR são os únicos capazes de identificar com precisão se estamos com o coronavírus no momento em que o exame é realizado —os demais testes identificam anticorpos, ou seja, a pessoa pode ter contraído o vírus recentemente ou há tempos, mas não estar mais com ele no corpo.

Dessa forma, a recomendação de aplicação do PCR tem que ser precisa e muito bem orientada. A orientação estabelecida para evitar falsos negativos é que o teste seja realizado preferencialmente entre o 3º e 4º dia após o início dos sintomas, estendendo-se no máximo até o 10° dia de sintomas —as evidências demonstram que até o sétimo dia o exame tem maior precisão.

Se realizarmos os testes de PCR antes do terceiro dia de sintomas, como agora determina o Ministério da Saúde, ou além do décimo dia, aumenta bastante o risco de acontecer os falsos negativos, ou seja, de paciente estar infectado com o coronavírus mas ele não ser detectado no exame

Por isso achei muito estranha a atualização do "Guia de Vigilância Epidemiológica" quanto ao período para execução dos testes RT-qPCR. Antecipar a realização do exame do terceiro para o primeiro dia ou postergá-lo para além do décimo pode gerar uma taxa considerável de falsos negativos, pois no momento da coleta de material para realizar o teste a concentração de RNA viral pode ser muito baixa na amostra. Isso pode levar a uma verdadeira desorientação no combate da pandemia.

O teste RT-qPCR é uma técnica padrão ouro para o diagnóstico da covid-19, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), em que todos nós, profissionais da área, confiamos. Mas as condições para sua realização devem ser ideais para que os resultados sejam precisos. Só assim pessoas com sintomas respiratórios associados à covid-19 serão avaliadas e orientadas corretamente quanto aos cuidados que devem tomar para evitar a dispersão do vírus e o acontecimento de mais mortes.

Com tantos absurdos cometidos pelo Ministério da Saúde ao longo de um ano de pandemia, situações como essa devem nos deixar sempre com uma pulga atrás da orelha. Precisamos sempre estar atentos a detalhes, pois isso pode ser uma maneira de camuflar dados, o que pode gerar um grande prejuízo social. Nesse momento, nunca é demais lembra que, quando falamos em prejuízo, podemos estar falando de vidas perdidas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL