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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Programa Federal de Desorientação" pode tornar essa pandemia incontrolável

Atitudes do presidente Jair Bolsonaro, como não usar máscara e gerar aglomerações, desorientam a população e atrapalham o combate à pandemia - Dieter Gross/Ishoot/Estadão Conteúdo
Atitudes do presidente Jair Bolsonaro, como não usar máscara e gerar aglomerações, desorientam a população e atrapalham o combate à pandemia Imagem: Dieter Gross/Ishoot/Estadão Conteúdo
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

01/03/2021 15h45

Há aproximadamente um ano, mais especificamente em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil registrou o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2). Desde aquele dia o problema cresceu incontrolavelmente ao ponto de chegarmos a mais de 10 milhões de infectados pelo Sars-Cov-2 e mais de 250 mil vidas ceifadas pela covid-19.

Esses números poderiam ter sido diferentes se a postura do Governo Federal fosse outra e, desde o começo da pandemia, nossos políticos chamassem a responsabilidade para si e dedicassem grandes esforços para unir o Brasil contra o grande inimigo que surgia. Porém, reunir todos os esforços para combater a dispersão indiscriminada do coronavírus sempre ficou em segundo plano na gestão do governo federal.

Pode parecer desnecessário repetir a toda hora falas e atitudes "indevidas" do presidente Jair Bolsonaro que prejudicam o combate à covid-19. Mas não é. A força das palavras de um presidente é gigantesca e influencia parte da população. Por isso, temos que questionar e desmentir tudo que o presidente disser e pode prejudicar ainda mais o controle da pandemia —que já está totalmente descontrolada no Brasil.

Foi esse descontrole que permitiu a ampla dispersão do coronavírus e o surgimento de novas variantes, que são ainda mais infecciosas do que as "antigas" (mas ainda são as dominantes). Infelizmente, ações entre a população que comprovadamente poderiam evitar isso, como o distanciamento social e o uso de máscara, são desmontadas pelo presidente da república quando ele faz passeatas ou programa encontro com seus seguidores, além de falar abertamente que máscaras são "ficção" ou que provocam efeitos colaterais em crianças.

Além disso, ele ainda insiste no uso de medicamentos que, comprovadamente, não têm nenhum efeito contra a covid-19. Suas falas parecem sempre buscar formas de desorientar a sociedade e dividir o país de uma forma que a pandemia sempre fica em segundo plano.

O governo federal joga contra até mesmo quando em tempo recorde surge uma grande esperança para combater a covid-19: as vacinas. Como nosso PNI (Programa Nacional de Imunização) sempre foi excelente e uma referência no mundo, pensamos que iriamos imunizar logo boa parte da população e controlar rapidamente a pandemia. Triste ilusão!

Embora o Programa Nacional de Imunização seja fantástico, está sendo coordenado por pessoas amadoras ou mal-intencionadas. E, claro, o presidente tem culpa nisso e desestimula o uso da vacina quando vem a público e diz que não vai assumir a culpa se alguém virar jacaré após receber

Não só isso. Faltou uma estratégia inteligente por parte do governo para obter vacinas suficientes para imunizar a população rapidamente e agora estamos patinando para conseguir mais vacinas, em um momento em que as novas variantes aparecem e o segundo pico da pandemia está em seu auge.

Apesar de esperarmos mais de 200 milhões de doses para o segundo semestre de 2021, isso pode ser um grande risco ou inútil para controlar a pandemia. Motivo: com o surgimento das mutações (até então mais infecciosas) e a dispersão do vírus descontrola, podem aparecer novas variantes capazes de escapar da vacina, ou que sejam mais letais.

Se as mutações tornarem a eficiência das vacinas disponíveis até aqui muito baixa, a pandemia tende a se tornar incontrolável por tempo indeterminado. Claro que as novas variantes não tornam o desenvolvimento de novas vacinas algo demorado, pois "bastaria" repor as sequências mutadas nas estratégias das vacinas que estão sendo utilizadas.

O problema é a logística de produção dessas vacinas em escala global, pois se as vacinas já produzidas não funcionarem muito bem, será trágico vacinar bilhões de pessoas com essas vacinas com uma eficácia muito baixa —assim, como será trágico ter que esperar a produção em larga escala de novas formulações.

É triste dizer isso, mas o atraso na vacinação (e no controle da pandemia) pode gerar uma tragédia ainda maior do que a que já ocorrem em nosso país.

Tudo isso se torna ainda mais triste se pensarmos que, apesar de todo o suporte da ciência para controlar o coronavírus, o Programa Nacional de Desorientação Social está anulando as contribuições da ciência até aqui

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL