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Gustavo Cabral

Quem já teve covid-19 não precisa ser vacinado, como disse Bolsonaro?

Não sabemos ainda se a pessoa que já teve covid-19 vai precisar tomar vacina e quantas doses serão necessárias para proteger de uma reinfecção - iStock
Não sabemos ainda se a pessoa que já teve covid-19 vai precisar tomar vacina e quantas doses serão necessárias para proteger de uma reinfecção Imagem: iStock
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

03/12/2020 04h00

O nosso ilustre "Seu Dotôr" —expressão que usamos no sertão da Bahia para apelidar alguém que acha que sabe de tudo e pode inclusive receitar tratamentos, como o presidente Jair Bolsonaro—, afirmou recentemente em algumas lives que quem já teve covid-19 não precisa mais tomar vacinas. Essa é mais umas das receitas do "Dotôr Presidente" que vale a pena discorrer sobre o assunto... Não apenas porque o "Seu Dôtor Presidente" falou sobre isso, mas porque é uma questão de saúde publica e que as pessoas têm questionado frequentemente.

Geralmente, Bolsonaro fala bobagens sobre questões de saúde pública. E não poderia ser diferente dessa vez. Embora possa ter razões e pensamentos lógicos nessa afirmativa —sim, o presidente também consegue ter pensamentos lógicos, pelo menos estou quase acreditando.

Mas vamos lá, porque uma pessoa que já foi infectada com o novo coronavírus (Sars-CoV-2), causador da covid-19, precisaria ou não ser vacinada?

Primeiramente, em teoria o "Seu Dotôr" tem razão, pois uma pessoa que já teve contato com o vírus foi naturalmente vacinada. E, consequentemente, já ativou o sistema imunológico a desenvolver uma proteção e uma memória imunológica para que, quando tiver contato novamente com o Sars-CoV-2, o corpo possa se proteger da doença. Isso em teoria, pois, como o "Seu Dotôr" não é muito adepto de ciência, consequentemente, não olha para um lado mais experimental para poder fazer uma afirmativa desse nível.

Nesse caso, tem que ter a questão experimental para poder afirmar se alguém que "pegou" o coronavírus precisa ou não se vacinar, e, caso precise, como seria a forma de imunização. Seria apenas uma vacinação? Como um reforço para estimular o sistema imune a gerar uma memória imunológica mais eficiente? Ou precisaria de duas doses? Como a maioria das vacinas precisam.

Como supra citado, precisa experimentar. Pois surgiram trabalhos científicos publicados em revistas especializadas mostrando que pessoas que tiveram contato com o vírus e foram assintomáticos não desenvolveram uma memória imunologia duradoura. Dessa forma, pode ficar suscetível a uma segunda infecção. A famosa reinfecção que tem surgido! Sim, essa é uma situação a levarmos em consideração. Se há reinfecção, quer dizer que a imunização natural —ou seja, as pessoas que "pegaram" o coronavírus— de alguma forma não desenvolveu proteção para proteger de um segundo contato com o vírus.

Então como saberemos se quem foi infectado precisa ou não se vacinar? Um dos caminhos é vacinar um grupo seleto de pessoas que já foram infectadas com o coronavírus e acompanhar o padrão de resposta imunológica que essas pessoas desenvolvem. Saber se, com apenas mais uma vacinação ou com doses diferentes de imunização, conseguiram proteger o corpo de uma possível reinfecção. É testar maneiras diferentes de buscar essa resposta, saber da necessidade ou não de vacinar pessoas que já foram infectadas. Mas, com certeza, não é pela afirmação sem fundamento científico que contribuem para o delineamento do controle da pandemia.

Surge nessa discussão mais uma questão. Quem teve ou não contato com o coronavírus?

Tem a questão das pessoas que foram infectadas, não desenvolveram sintomas, nunca fizeram testes e acreditam que não foram infectadas. Sendo assim, como impedir essas pessoas de tomarem a vacina? Teremos que fazer testes sorológicos em larga escala. Desta forma, acho que o melhor caminho a seguir é parar de falar besteiras e tentar resolver o problema dos quase 7 milhões de testes rtPCR que estão passando do prazo de validade e, assim, contribuir de verdade para o combate ao coronavírus e controle desta pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.