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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por mais quanto tempo continuaremos com a pandemia? Impossível prever

Getty Images
Imagem: Getty Images
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

21/02/2021 04h00

Todos sabem que vivemos um momento singular na história e como disse a chanceler alemã Angela Merkel, considerada pela revista Forbes a mulher mais poderosa do mundo, este é o maior desafio global desde a Segunda Guerra Mundial.

Óbvio que se nos basearmos nas previsões anteriores sobre a pandemia, não teremos nenhuma credibilidade para afirmações, mas falemos em probabilidades e possibilidades.

Pandemias anteriores servem-nos pouco de exemplo. Cada uma com suas particularidades e peculiaridades, inserção em seu tempo e sociedade com condições de higiene e momentos distintos da ciência que sequer permitiam no passado o conhecimento da etiologia.

Conversando com médicos infectologistas, virologistas, biólogos, epidemiologistas e outros especialistas entenderemos mais do assunto, mas previsões terão poucas possibilidades de acerto.

No século 14, a peste negra (peste bubônica), teve seu primeiro e o maior surto entre 1348 e 1350, mas outros surtos aconteceram ao longo de todo o século. A peste foi uma doença que esteve presente na vida dos europeus até 1720, gerou um pânico na população, pois desconhecia-se que era provocada por uma bactéria chamada Yersinia pestis, transmitida ao ser humano por meio de pulgas que infestavam roedores.

Com as condições de higiene precárias da época, estima-se que tenha matado quase um terço da população mundial. Sem tratamento, a doença causou a morte de 30% a 90% das pessoas infetadas. Apenas em 1894, Alexandre Yersin descobre o bacilo da peste bubônica.

Considerada mãe das pandemias, a gripe espanhola, que não começou na Espanha (suspeita-se que tenha se iniciado em quartéis americanos), teve duração aproximada de 3 anos, contaminou mais de 500 milhões de pessoas e acabou provocando entre 20 e 50 milhões de mortes. Ao menos um quarto de toda a população do planeta se infectou com essa doença.

No Brasil, estima-se que essa gripe tenha matado ao menos 35 mil pessoas, incluindo o presidente reeleito Rodrigues Alves, que morre antes da posse do segundo mandato.

Estamos completando o primeiro ano da pandemia de coronavírus sem perspectivas de término.

Comparações parecem inadequadas, como disse.

A ciência pode e deverá nos redimir com vacinas, que apesar da política haverão de ser acessíveis cedo ou tarde, o que não foi possível no exemplo da gripe espanhola.

No caso da peste, a bactéria tratada com antibióticos era desconhecida.

Entretanto, hoje este vírus se locomove com a velocidade dos tempos atuais e apesar dos imunizantes, um indivíduo contaminado no metrô inicia a transmissão para centenas de outros.

Há de se considerar as dificuldades estratégicas de se imunizar bilhões de pessoas sem considerar as crendices e preconceitos injustificados que esse procedimento infelizmente traz consigo.

A demora na vacinação permite maior circulação do vírus e com isso mais variantes surgirão.

Deste modo, o provável cenário é o de convivência com ele por anos a seguir e campanhas de vacinação anuais sendo implementadas. Essas campanhas são fundamentais e a vacinação a única forma de abreviarmos e enfraquecermos a epidemia e não repetirmos a história.

Mesmo assim, chega a 22%, segundo pesquisa do Instituto Datafolha, o número de pessoas que recusam o imunizante, já contaminados pelo ambiente político sob a alegação de que nunca houve vacinas desenvolvidas em tão pouco tempo.

A sabedoria, o desenvolvimento e a evolução da ciência nos trouxeram esse conhecimento fundamental para abreviar esse difícil momento da humanidade. Deixar de se vacinar é ignorar o tratamento.

A recusa de se vacinar fará novas variantes surgirem e, portanto, a escolha pela vacina já não é mais um direito individual.

O português José Saramago, prêmio Nobel de literatura em 1998, disse certa vez que todos falam de direitos e ninguém em deveres humanos. Talvez fosse o caso de tornar os dias de vacinação os dias dos deveres humanos.

Shakespeare lembrava que "a sabedoria e a ignorância se transmitem como doenças; daí a necessidade de se saber escolher as companhias".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL