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Dante Senra

O inabalável egoísmo da raça humana que a pandemia nos fez lembrar

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

27/12/2020 04h00

Falei por toda a pandemia que sairíamos desse momento engrandecidos. Magoados, agredidos, com sequelas físicas e emocionais, mas seres humanos melhores e com uma sociedade também mais justa, empática e solidária. Isso por dois motivos.

Primeiro porque se assim não for, de nada terá valido tamanho sacrifício, e segundo porque historicamente é o que acontece.

A peste negra ou peste bubônica por exemplo, doença que assolou a Ásia e a Europa, no século 14, teve duração de 16 anos, de 1347 até 1353. Logo após surge na Itália um movimento cultural, econômico e político conhecido como Renascimento que se estendeu até o século 17 por toda a Europa com grande valorização das artes e da ciência.

No século 18, que ficou conhecido como o Século das Luzes, as ideias iluministas promovidas na Europa por filósofos se espalharam pelo mundo e inspiraram revoluções, sendo talvez a Revolução Francesa em 1789 a mais importante delas.

Logo a seguir, surge em 1796 a primeira vacina de que se tem registro criada pelo inglês Edward Jenner. Em 1798, ele divulgou seu trabalho "Um Inquérito sobre as Causas e os Efeitos da Vacina da Varíola", mudando, a partir daí, completamente a ideia de prevenção contra doenças.

Em 1799, foi criado o primeiro instituto vacínico em Londres e a primeira vacina chegou ao Brasil em 1804, trazida pelo Marquês de Barbacena.

A grande guerra e a chamada "gripe espanhola", que coincidem em seu final, foram dois trágicos eventos responsáveis por forte mudança no comportamento da sociedade. A consciência de que o mundo não acabou e a valorização da vida tornaram a todos mais hedonistas, como diz Wagner Barreira em seu livro sobre a gripe de 1918.

Na sétima arte, surge o cinema falado em 1927, com o filme "O Cantor de Jazz" (The Jazz Singer), de Alan Crosland. A partir da trilha sonora do longa da Warner, os filmes mudos passaram a ser totalmente substituídos pelos falados.

Em seguida, em 1928, surge a penicilina, uma das mais importantes descobertas da humanidade, pelo médico e bacteriologista escocês Alexander Fleming.

No Brasil, depois da gripe espanhola é evidente a participação das classes médias urbanas com o movimento tenentista seguida pela revolução de 1932.

Nessa época, fica mais clara a necessidade da participação do estado na saúde e educação, assim, na chamada era Vargas surge o Ministério da Educação e Saúde Pública (Mesp) —que passou a ser Ministério da Educação e Saúde (MES) em 1937.

Na Segunda Guerra Mundial, em 1945, a penicilina, que sofria forte onda de desconfiança quanto à sua eficácia, comprova seu valor salvando varias vidas combatendo infecções por ferimentos.

No período pós-guerra, as condições de extrema pobreza, miséria e fome por toda a Europa trouxeram de volta inúmeras doenças infecciosas como cólera, tuberculose, tifo, dentre outras, fazendo com que os estados assumissem a saúde pública de forma integral, criando planos de vacinação e outros programas de saúde pública.

Inúmeros são os exemplos de mudanças depois de pandemias, guerras e calamidades com benefícios para o progresso da humanidade.

Agora, por exemplo, vacinas foram desenvolvidas em tempo recorde, comprovando o avanço da ciência pós-estímulo ou demanda da sociedade.

Mas e do ponto de vista pessoal? Nos tornamos pessoas melhores? Seres humanos mais solidários ou empáticos?

Difícil admitir, mas como diz a música de Mick Jagger "Old Habits Die Hard" (Velhos Hábitos São Difíceis de Morrer) continuaremos sem desenvolver a capacidade de nos indignarmos com o sofrimento alheio.

Assim, continuaremos com nossas mazelas sociais e desigualdades encarando tudo como normal e parte da vida. Não há mostra de mudanças em nosso comportamento social. Não há sinais no sentido de redução das desigualdades que possam nos dar expectativa de mudança.

Desse modo, continuaremos sendo o maior país católico do mundo (o Brasil representando sozinho cerca de 10% dos católicos de todo o globo), o maior país espírita do mundo (a Federação Espírita Brasileira —entidade de âmbito nacional do movimento espírita— congrega aproximadamente dez mil instituições espíritas, espalhadas por todas as regiões do país) e um dos países com maior desigualdade no mundo (ficamos atrás apenas de nações do continente africano, como África do Sul, Namíbia, Zâmbia, República Centro-Africana, Lesoto e Moçambique).

Continuamos assistindo aglomerações em época de pandemia que são, além de irresponsáveis, manifestação de falta de respeito. Notícias de pessoas contaminadas que não respeitam o isolamento assumindo atitudes criminosas são frequentes e assustadoras.

Soube de indivíduos que, mesmo com seus testes positivos para esse malfadado vírus, pegaram voos, não dispensaram seus funcionários e até saíram para jantar. Talvez o coronavírus demonstre mais escrúpulos.
A saúde deixou de ser este ano apenas nosso direito, mas também nosso dever.

E agora, como se já não estivéssemos bastante agredidos, sob a visão míope da OMS (Organização Mundial de Saúde) que não demonstra nenhuma reação, temos notícias de que os países ricos, que representam 14% da população mundial, compraram o equivalente a 53% das vacinas contra a covid-19.

O Canadá, por exemplo, encomendou número de doses o bastante para imunizar seus cidadãos cinco vezes. Uma coalizão entre organizações chamada People's Vaccine Alliance estima que quase 70 países de baixa renda só conseguirão vacinar 1 em cada 10 de seus cidadãos por conta disso. Uma indignidade.

Tive a ingenuidade de acreditar que tínhamos feito um pacto universal e silencioso de que o mundo seria melhor depois dessa pandemia.

O filósofo alemão do século 19 Friedrich Nietzsche disse certa vez que "a vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez".

Mas a desvantagem é chatear-se várias vezes com o que nunca muda... a perversa natureza humana.