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Dante Senra

Não estamos preparados para uma segunda onda de covid-19

Muita gente deixou a preocupação de lado com a pandemia na hora das compras - Renato S. Cerqueira/Estadão Conteúdo
Muita gente deixou a preocupação de lado com a pandemia na hora das compras Imagem: Renato S. Cerqueira/Estadão Conteúdo
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

29/11/2020 04h00

Apesar do fato de termos subestimado a primeira onda com certa arrogância, negacionismo de alguns e a despeito do desconhecimento do comportamento do vírus, estávamos mais estruturados indiscutivelmente do que agora.

Essa certa arrogância chamada pelo poeta brasileiro Carpinejar de "síndrome de dobermann" fez com que acreditássemos que a pandemia conosco seria diferente, pois o brasileiro é forte e resistente, já que os intemperismos excessivos que nos lapidam diariamente nos protegeriam.

Eles podem até nos tornar mais resilientes, mas não mais resistentes.

Acreditamos também que o clima nos protegeria.

Resultado: 6 milhões de contaminados, mais de 170 mil mortes, enorme sofrimento e desgaste da nossa sociedade. Esta foi a primeira onda.

A segunda se aproxima. Alguns especialistas dizem que é uma retomada da primeira, já que não tivemos queda dos números suficiente para dizer que ela se foi. Semântica, sem a menor importância.

Houve, nas últimas semanas, um aumento considerável da média móvel de casos e de mortes. Números esperados se olharmos novamente a Europa, a história de outras epidemias e, principalmente, o comportamento de nossa sociedade, sobretudo das classes mais favorecidas economicamente e dos jovens.

Aglomerados, festas, viagens. A adesão ao uso da máscara caiu, praias lotadas, bares, restaurantes e um completo descaso pelas recomendações sanitárias que o momento pede.

Por que menos preparados?

A despeito de um melhor conhecimento do comportamento da doença pela classe médica, as estruturas de hospitais de campanha foram desativadas precocemente. Achei muito precoce.

Além disso, sem contar o desgaste físico e emocional dos profissionais de saúde, os hospitais encontram-se lotados pela demanda que foi reprimida na pandemia. Isso pelas cirurgias eletivas postergadas, tratamentos interrompidos e medo do eventual contágio.

De acordo com a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), houve uma redução de 33% na utilização dos serviços pelos beneficiários de planos de saúde somente nos quatro primeiros meses do ano.

Os leitos já estão lotados por pacientes não-covid.

Somente no sistema público de saúde do município de São Paulo estima-se que 82 mil ainda aguardam a retomada de seus tratamentos, consultas e cirurgias.

Em outubro, essa demanda reprimida chegava a 124 mil pacientes. Graças a queda dos casos de covid, essas pessoas começaram a ser atendidas e houve uma queda de 34%. Como parar tudo novamente? E é assim em todos os cantos do país.

O que podemos fazer?

O que deveríamos ter feito desde o começo da pandemia.

Organizar melhor a detecção de casos, com aumento da testagem e do rastreamento de contatos, a fim de romper as cadeias de transmissão do vírus seria o ideal. Em um país que perde quase 7 milhões de testes sem usá-los num momento como este fica difícil acreditar nisso.

Resta-nos a proteção individual com rigor em medidas sanitárias e afastamento social. Não é chegado o momento de festas e aglomerações.

Festas de fim de ano, somente com familiares próximos se quisermos ter outras.

Acreditar que o vírus está menos agressivo é subestimá-lo sem fundamento sólido. A mortalidade hoje é menor porque os médicos têm melhor conhecimento da doença e por que agora temos muito mais jovens infectados do que idosos. Mas como será em poucos dias?

Apesar de a ocupação hospitalar estar mais alta nas últimas semanas, ainda há vagas em hospitais, mas nem por isso você pode contaminar-se. Assim, a ocupação baixa é um critério ruim para flexibilização.

Acredita-se que a chamada segunda onda (ou retomada da primeira, se preferir) será um pouco mais leve não porque o vírus está menos agressivo, mas pelo fato de já termos tido um número muito alto de contaminados.

Não vamos confundir análise com desejo. O vírus está aí e pessoas continuam morrendo.

Por outro lado, estamos muito próximos das vacinas que têm demonstrado alta eficácia. A ciência nos surpreendeu com sua eficiência e velocidade. Não é hora (nunca foi) de nos contaminarmos.

Ignorar estes fatos somente nos expõe, pois como dizia Hipócrates: "Há verdadeiramente duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber; em crer que se sabe reside a ignorância".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL