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O eterno retorno do mesmo: qual será o legado desta pandemia?

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

01/08/2020 04h00

Segundo o franciscano capuchinho Frei Warley Tomáz, filósofo natural de Coroaci, pequeno município situado na região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais: "O que deixamos nessa vida são apenas sentimentos. O amor manifestado ou a dor e as feridas que causamos".

Será que nenhum ensinamento? Nenhum aprendizado transmitido? De que vale a dor e o sofrimento se não deixa nenhum proveito? Como as sociedades evoluirão se nada aprenderem com os erros do passado?

A travessia por esta pandemia é solitária e dolorosa e precisa ter algum legado além de um estúpido número de mortes. Vive-se agora dor e sacrifício e não haverá nenhum retorno? Nosso objetivo é apenas sair vivo disso?

Dizem que o ser humano tem comportamento pendular e que, por mais que deseje, a inércia sempre prevalece. Se assim for, voltaremos a nossa ignorância pensando exclusivamente em nossa sobrevivência ou em acumular bens materiais.

Voltaremos para a vida que sempre reclamamos. O normal ruim.

Essa visão romantizada de que o mundo terá grandes mudanças de costumes e atitudes parece querer procurar um sentido para tudo isso.

Por mais que isso nos decepcione, o vírus não é um agente de mudança, uma enzima catalisadora que vai transformar a humanidade no paraíso solidário. Mas esse agente de mudança existe e, por mais que tentemos nos eximir de responsabilidade, a solução está em cada um de nós. Você e eu somos o vírus da mudança.

O que pode ser modificado do ponto de vista pessoal? A primeira coisa é acreditar que quem precisa mudar somos nós e não exclusivamente os outros. O mundo somos nós.

Quando somos chamados a pagar a conta e assumir responsabilidades, substituímos o eu da frase e nos excluímos. O mundo não tem jeito, o brasileiro não sabe votar, a sociedade brasileira não gosta dos pobres, o brasileiro é racista, etc.

Vivemos o tempo futuro e não o agora, em que a felicidade será após o trabalho, no próximo final de semana, no próximo feriado, na próxima viagem e no próximo bem material. Isso o vírus nos mostrou, o amanhã pode não existir.

Vivemos o mundo do cada um por si (no máximo das pessoas que amo) e, somente por estes, vale lutar porque somente esses têm valor. Vida digna somente para mim.

Crises expõem caráter e assim assistimos estupefatos a idiotização tomando forma humana em carteiradas.
O tempo do não tenho nada com isso.

Dizem que a passagem por esta crise e quarentena são solitárias, mas precisam ser solidárias. Só que ações de solidariedade motivadas por medo, e não por compaixão, não valem.

Em um romance de 1940 do escritor norte-americano Ernest Hemingway, considerado pela crítica uma das suas melhores obras, em que os personagens desempenhando os papéis bizarros que se viram forçados a assumir durante a guerra fraquejam ao ver nos inimigos seres humanos que poderiam estar de qualquer um dos lados da guerra.

Na obra, ouvir os sinos da igreja tocando significava que alguém que vivia ali perto havia morrido, e as pessoas se perguntavam: por quem os sinos dobram? "A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti". Com esta resposta, oriunda de uma citação, tirada de um poema de John Donne, poeta inglês do século 17, que Ernest Hemingway marcou o começo de uma de suas obras mais importantes.

Rico, nobel de literatura, famoso, reconhecido mundialmente, em 2 de julho de 1961, o escritor norte-americano Ernest Hemingway matou-se com um tiro na cabeça, segundo dizem por não encontrar um sentido na vida.

Os objetivos pelo qual lutou toda sua vida não puderam preencher o profundo vazio existencial em que se encontrava. Talvez o sentido não seja mesmo o acúmulo de futilidades pelos quais não vale mesmo a pena viver.

Outro legado que espero do ponto de vista pessoal é o da valorização do cuidado da saúde.

Que tenhamos percebido que as pessoas que tiveram mais dificuldades no enfrentamento do vírus foram as portadoras das chamadas comorbidades como hipertensão arterial e diabetes descompensadas, tabagistas e obesos. Essas situações precisam estar equilibradas considerando que aumentam nossa fragilidade física e que outras pandemias virão.

O que pode ser modificado do ponto de vista de sociedade?

Alguém pode imaginar que alguma sociedade possa progredir, ou pior, sequer subsistir com 12 milhões de pessoas vivendo em absoluta exclusão social?

Sociedade com apenas 50% de saneamento básico, condição fundamental para higiene, saúde e dignidade humana (considere que vários senadores foram contrários a aprovação do novo marco legal do saneamento básico).

Sem coleta de lixo, se aglomerando em transporte publico precário, sem emprego, e nas intermináveis filas do serviço público de saúde se humilhando para conseguir uma consulta médica ruim.

Sociedade com 70 milhões de pobres, 11,3 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais de idade e, três em cada dez jovens e adultos de 15 a 64 anos no país (cerca de 38 milhões de pessoas) são considerados analfabetos funcionais (indivíduos que, embora saibam reconhecer letras e números, são incapazes de compreender textos simples e realizar operações matemáticas mais elaboradas).

No Brasil, 20,3% das crianças e dos adolescentes de 4 a 17 anos têm o direito à educação violado (relatório 'Pobreza na Infância e na Adolescência', elaborado pelo UNICEF), colocando 2,8 milhões delas fora da escola.
Tudo isso coloca o Brasil no ranking de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) em 79º lugar entre 189 países.

Esperamos no pós-pandemia uma sociedade mais justa, mas isso não é algo para se esperar, mas para se conquistar.

Uma sociedade em que o progresso não seja medido pelo seu PIB (Produto Interno Bruto) e, sim, pela qualidade de vida de seu povo. Uma sociedade onde se possa reagir às desigualdades nativas, pela educação e perseverança.

Visão romântica novamente? Pode ser. Mas é chegada a hora.

Esperar que governos mudem a sociedade é utopia. Governos mudam de governantes apenas. Dizem que somos o que fazemos para mudar quem somos.

A cumplicidade do ser humano está à prova ou Nietzsche, com seu "amor fati" ou com seu pré-determinismo que dá o título a este texto, estará certo.