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Dante Senra


Intolerância à lactose é mais comum do que se imagina, saiba mais

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

30/11/2019 04h00

Imagine uma doença que possa atingir 70% da população mundial em algum grau e que, mais de 80% dos seus portadores jamais receberam um diagnóstico médico.

Isso mesmo, estima-se que no mundo, 60% a 70% da população apresente algum nível de dificuldade de digestão da lactose que é um açúcar abundante no leite de mamíferos (e em outros laticínios) e essencial para a nutrição dos recém-nascidos. Está dificuldade se dá pela deficiência em algum grau da enzima lactase, substância presente na parede do intestino delgado.

A atividade desta enzima é mais alta no recém-nascido e decresce com o passar dos anos.

Embora possa ser genética ou chamada primária (se manifesta desde o nascimento com diarreia importante), a deficiência desta enzima pode aparecer após patologias que provoquem lesões no intestino, como infecções intestinais, ou doenças como a de Crohn ou doença celíaca. Outras causas como o uso prolongado de antibióticos e até mesmo a desnutrição podem produzir a redução da lactase. A doença tem geralmente início no fim da infância ou no início da idade adulta.

No Brasil, acredita-se que 40% da população apresente deficiência desta enzima (a maior taxa de indivíduos intolerantes à lactose encontra-se entre as populações asiáticas, e africanas). Segundo pesquisa Datafolha, no Brasil, somente 4% dos entrevistados que apresentam sintomas procuraram auxílio médico e, dentre esses, apenas 1% foram diagnosticados com intolerância à lactose.

Esta baixa procura por ajuda, talvez se deva a baixa incidência (em torno de 2%) de manifestações clínicas importantes de intolerância a lactose.

Como desconfiar de que algo está errado?

O desconforto abdominal com cólicas, a diarreia e a flatulência são as manifestações mais comuns, mas a intensidade varia de pessoa para pessoa.

Isto porque depende da quantidade de lactose presente na dieta e do grau de insuficiência da enzima lactase de cada indivíduo. Pequenas quantidades de lactose podem causar um enorme desconforto para quem tem grande deficiência de lactase, ou nenhum sintoma em pessoas com deficiência leve dessa enzima.

Esses sintomas geralmente começam entre 30 minutos a 2 horas após ingerir alimentos que contenham lactose. Quanto maior e mais frequente o consumo de lactose piores são os sintomas.

E como ter certeza?

O diagnóstico pode ser confirmado quando os sintomas desaparecem depois de eliminar a lactose da dieta e geralmente é feito pela própria pessoa. É preciso lembrar que estes sintomas podem perdurar ainda por dias ou semanas.

O diagnóstico pode ainda ser confirmado através de exames laboratoriais (teste respiratório, teste de tolerância a lactose ou teste genético).

A realização de endoscopia para a dosagem de lactase pode ser realizada após se colher um fragmento do intestino. É um exame com alta sensibilidade, mas fica reservado quando a dúvida permanece após realização de outros exames já que se trata de um exame invasivo.

Fui diagnosticado, e agora?

O tratamento óbvio seria a retirada do leite de vaca, entretanto é preciso atentar para uma ingesta adequada de cálcio para evitar doenças ósseas (osteopenia ou osteoporose), principalmente para crianças e recém-nascidos. A suplementação costuma ser necessária.

Uma boa pratica é inicialmente retirar todo o leite para controle dos sintomas, com sua reintrodução gradual só após a melhora do quadro, até a quantidade que o paciente tolere. Isto porque a maioria dos pacientes toleram doses menores de leite (cerca de 12 a 15 gramas de lactose ou 300 ml de leite), divididos em duas tomadas.

A opção de substituir o leite por produtos que tenham um teor reduzido de lactose deve ser considerada (encontra-se leite e outros produtos com redução de 80% a 90% da lactose). Alguns derivados do leite como iogurtes costumam ser bem aceitos e ainda acrescentar achocolatado ao leite é um teste que pode ser feito pois, em grande número de pacientes está atitude costuma amenizar bastante os sintomas.

Como alternativa viável, já existe comercialmente no Brasil a enzima lactase que deve ser ingerida 15 minutos antes das refeições que contenha derivados do leite.

Assim amigos, existem meios de se lidar com esse desconforto, mas se requer um aprendizado e mudança de comportamento. Pesquisas para estender o tempo de ação do medicamento que contém a enzima lactase (que hoje não passa de 2 horas) estão bastante adiantadas e logo poderemos sonhar com com um mundo que até a lactose será tolerada por todos.

Dante Senra