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Dante Senra


Hipertensão do avental branco existe sim: o que fazer quando ela aparece

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

07/09/2019 04h00

Sabidamente a pressão arterial esta sujeita a pequenas alterações frequentemente condicionadas a várias situações tais como o estresse mental e físico. Ela ainda sofre interferência de inúmeros fatores como noites mal dormidas, alimentações com sobrecarga de sal (ainda que no mesmo dia da aferição), pequenas alterações no humor e até da posição que a pressão é aferida (sentado, deitado ou em pé). Assim, no indivíduo considerado normotenso, essas variações são pequenas e consideradas fisiológicas, ou seja, normais.

Mas o que ocorre com grande frequência no consultório médico é a aferição de pressão arterial maior ou igual a 140 x 90 mmHg (elevação que não é suficiente para colocá-lo na categoria de um paciente hipertenso) em pacientes que informam apresentar valores menores em outros ambientes, ou seja, na ausência do médico. Assim deve-se pensar na possibilidade de hipertensão do avental ou jaleco branco.

Que fique claro, esta aferição no consultório não pode alcançar valores muito elevados (pressão sistólica até 159 mmHg e/ou diastólica até 99 mmHg) e não deve haver repercussão nos chamados órgãos-alvo (coração, cérebro, rins) e nas artérias.

Então existe e é preciso cuidado...

É uma situação que de fato existe, mas parece sugerir no mínimo uma tendência a pressão alta, visto que estudos recentes demonstraram que uma considerável população de pacientes com diagnóstico de hipertensão do avental branco se torna definitivamente hipertensa.

A prevalência da hipertensão do avental branco é de aproximadamente 20%, sendo mais frequente no sexo feminino e na população com idade mais avançada.

A elevação da pressão arterial no consultório médico causa, muitas vezes, superestimação da situação e do diagnóstico e isso tem sido responsável pelo excesso de medicação prescrita em considerável número de pacientes. Por isso a avaliação nestes pacientes precisa ser mais criteriosa.

Ainda para efeito didático, é importante não confundir hipertensão do jaleco branco (onde o paciente não é considerado hipertenso) com efeito do jaleco branco, onde o paciente é hipertenso, mas suas medidas no consultório são ainda mais altas do que as que apresenta em casa.

O que fazer?

Quando se afere a pressão arterial elevada no consultório médico e se recebe a informação que esta situação não se repete fora desse ambiente, durante a consulta, essa aferição deve ser feita pelo menos três vezes com 5 a 10 minutos de intervalo, utilizando-se a médias das duas últimas medidas como referência.

Mesmo assim, quando persiste este impasse (Informação x aferição) prevalece a informação, mas com ressalvas. Costumo dizer a esses pacientes que a consulta medica é apenas uma das inúmeras situações de estresse das muitas a que somos submetidos em nosso dia a dia e portanto é necessária uma melhor avaliação durante a sua rotina semanal. Até porque, ainda que o médico esteja convencido da necessidade de tratamento medicamentoso, se o mesmo não ocorrer com o paciente, certamente não haverá adesão a esse tratamento.

Para isso hoje dispomos de uma ferramenta para o diagnóstico de certeza dessa condição clínica, chamado monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA), onde um dispositivo de aferição da pressão arterial é instalado no paciente por 24h (ou mais horas consecutivas) com um mínimo de desconforto, obtendo inúmeras medidas (cerca de 80). Obviamente, deve ser instalado durante a rotina de trabalho (e não no dia de sua folga). Obtêm-se assim uma curva representativa das variações da pressão arterial, inclusive durante o sono, estabelecendo-se ainda correlação com eventuais eventos ocorridos.

Por que é importante esse diagnóstico?

O diagnostico de hipertensão arterial deve obedecer a critérios rigorosos, porque pode tratar-se de uma doença silenciosa e pelo desenvolvimento de possíveis ou mais que isso, prováveis complicações.

Dado arsenal terapêutico vasto e com posologia cômoda atualmente (na maioria das vezes toma-se um comprimido ao dia) e ainda quase sempre sem efeitos colaterais, ninguém mais precisa conviver com o descontrole da pressão arterial.

Mesmo assim, segundo a SBH (Sociedade Brasileira de Hipertensão), estima-se que 25% da população brasileira sofra de hipertensão, sendo que em pessoas com mais de 60 anos a porcentagem sobe para mais de 50%. E pior, metade destas pessoas sequer sabem que são hipertensas e somente uma em cada 3 das que conhecem o diagnóstico, tem sua pressão absolutamente controlada.

Assim, ficam expostas as complicações diversas da doença. Hoje sabemos que a hipertensão arterial é responsável por 40% dos infartos, 80% dos AVC (acidentes vasculares cerebrais) e por 25% dos casos de insuficiência renal em todo o país.

Para as pessoas que recebem o diagnóstico de hipertensão do avental branco, mesmo que não existam evidências de benefícios de intervenções neste grupo, os pacientes devem ser considerados no contexto do risco cardiovascular global, devendo permanecer em seguimento clínico, com orientações de mudanças de estilo de vida, pela possibilidade de se transformarem em verdadeiros hipertensos. Hoje, há quem considere a hipertensão do avental branco uma condição intermediária entre a normotensão e a hipertensão arterial.

Assim, o diagnóstico preciso da hipertensão arterial, do avental branco ou não, é fundamental, visto que tem abordagens diferentes. No mundo moderno, vivemos expostos a pressões emocionais que podem nos alterar a pressão arterial. É preciso coragem e determinação para conviver com uma e combater a outra, pois como dizia Hemingway "a coragem é a dignidade sob pressão".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL