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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A epidemia de doenças cardiovasculares

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

19/09/2021 04h00

A primeira causa de mortalidade no mundo há 20 anos. Dezoito milhões de mortes por ano no mundo.
Quase 285 mil mortes este ano no Brasil. Estima-se que chegaremos a 400 mil tristes mortes (desculpem o pleonasmo) ainda este ano por essa causa. Esse número aumenta a cada ano mais do que o aumento da população.

Não estamos falando da covid-19, mas, sim, de doenças cardiovasculares. Ou seja, uma epidemia todo ano. A pergunta é: por que ninguém se incomoda?

São mais de 1.100 mortes por dia, cerca de 46 por hora, 1 morte a cada 1,5 minutos (90 segundos). Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, as doenças cardiovasculares causam o dobro de mortes do que todos os tipos de câncer juntos, quase 2 e meia vezes mais que todas as causas externas (acidentes e violência), 3 vezes mais que as doenças respiratórias e 6,5 vezes mais que todas as infecções, incluindo a Aids.

Há pouco mais de 2 semanas, foi publicado na respeitada revista Lancet um estudo que envolveu 184 países, e 104 milhões de participantes, realizado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelo Imperial College de Londres, que revelou que em 30 anos (1990 a 2019), o número de pessoas vivendo com hipertensão no planeta dobrou.

Passaram de 650 milhões em 1990 para cerca de 1,4 bilhão de hipertensos em 2019 —deste total, apenas 14% tem a pressão arterial controlada. Segundo a pesquisa, cerca de 580 milhões de pessoas com hipertensão desconheciam sua condição porque nunca foram diagnosticadas.

O estudo também indicou que mais da metade das pessoas com hipertensão, ou um total de 720 milhões de pessoas, não estavam recebendo o tratamento de que precisavam.

Outro fato que chamou a atenção nesse estudo é a mudança de endereço da população hipertensa. O que no passado era um fardo dos países ricos, atualmente, cerca de 82% dessa população vive em locais de renda baixa e média, como República Dominicana, Jamaica, Paraguai, Hungria, Polônia, África subsaariana e sudeste da Ásia.

Isto porque as condições econômicas guardam estreita relação com as doenças cardiovasculares. Alimentação inadequada, estresse, sedentarismo, aumento de peso, tabagismo, controle e acompanhamento inadequados das comorbidades fazem vítimas que se multiplicam mais que o vírus da covid.

Em 2020, o Brasil registrou 275.587 óbitos a mais que o previsto para o ano. Desse total, 220.469 foram vítimas da covid-19, mas outros 55.117 morreram por outras doenças. Em sua grande maioria porque deixaram de fazer seus controles ou por que não conseguiram acesso a eles.

Triste. Triste porque não precisava ser assim. Triste porque não conseguimos conter a piora da mortalidade cardiovascular. Triste porque parece que ninguém se importa.

Assim como estamos freando a covid-19, precisamos muito conter essa epidemia de doenças cardiovasculares, pois como disse Winston Churchill: "As nações que são derrotadas lutando se levantam de novo, e aquelas que se entregam mansamente estão acabadas para sempre."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL