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Taise Spolti

Efeito sanfona: a culpa é mesmo sua?

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Taise Spolti

Taise Spolti é formada em educação física e, atualmente, estuda nutrição. Já foi fisiculturista profissional e hoje tem interesse em aliar sua rotina alimentar à gastronomia. Costuma dizer que não se satisfaz com pratos pequenos ou sabores comuns. Participou do programa ?Masterchef?, da Band, onde pode mostrar em rede nacional suas receitas.

Colunista do UOL

01/08/2021 09h40

Já debatemos por aqui, e em muitos outros textos que lemos de profissionais engajados na qualidade de vida e saúde mental, que o problema da obesidade vai muito além do comer acima do normal. A 'culpa' não deve ser instalada apenas nas costas de quem sofre com o peso e as consequências em sua saúde.

A obesidade, assim como transtornos de imagem, transtorno alimentar, e isso inclui anorexia e bulimia, não são um problema com um único responsável, mas, sim, um todo, um contexto (ou vários) e pessoas, que envolvem e desenrolam esse problema junto da pessoa que sofre.

O efeito sanfona, como muitos conhecem, é aquele vai e vem de ganho e perda de peso, que são estimulados e muito bem vendidos ano após ano em toda e qualquer rede offline e online que vocês imaginam.

Corpos magros, sarados, sorridentes, felizes, dançantes, flexíveis e na moda são aqueles que estampam revistas, blogs, matérias sensacionalistas, e estimulam grande parcela da população a abraçar isso como o padrão que se estabelece. Uns se libertam do peso fazendo de tudo para emagrecer, outros se libertam do padrão fazendo de tudo para se encaixar no outro padrão: o que se aceita.

Quando ambos não são trabalhados de forma intrínseca, respeitosa e amorosa para consigo mesmo, se encaixar em um ou outro acaba sendo trabalhoso e, inclusive, uma forma de buscar abrigo. Ser livre é estar livre de encaixes. É ser livre com corpo, com alma e espírito. Seja qual for o lado que você escolher: buscar o corpo magro ou não.

Anos vão se passando e você vai percebendo que as dietas duram alguns meses e, logo após isso, o indivíduo que conseguiu perder alguns quilos para algum momento especial (seja o verão, festa, evento...) se liberta daquela pressão, que não era algo sustentável a longo prazo, e cai no que conhecemos como 'efeito sanfona', ou seja, perde peso e depois reganha imediatamente.

Além de não ser algo saudável para o corpo, já que traz na bagagem perda de tônus, fragilidade imunológica, perda de pelo e cabelo, fraqueza de unhas, flacidez, entre outros, também não é bom para a saúde mental, afinal é uma pressão contínua sobre o emocional de se encaixar e se liberar daquilo que não fazia parte.

O efeito sanfona não deve ser visto apenas como um problema físico, que traz esses sinais que mencionei e que muitos não gostam de vivenciar em seus corpos, mas, sim, um espelho daquilo que acontece dento da mente daquele indivíduo, que desencadeia mais pressão emocional sobre estar se encaixando e depois se perdendo, afinal não foi sustentável permanecer naquele peso.

Um dos maiores desafios que enfrentamos em atendimento nutricional e nas academias não é a busca pelo 'corpo perfeito', não é o ajuste de dietas, que aprendemos a calcular ou a encaixar até ficar 'perfeita', mas, sim, o emocional que deve ser flexibilizado até que o indivíduo entenda a se reconhecer e se respeitar, independente de peso.

Ao entrar em um planejamento de controle de peso, ou de comportamentos que afetam o peso, o indivíduo deve ser sempre respeitado caso percalços aconteçam no meio do trajeto, a perda de peso não é algo simples ou linear como se pensa, assim como o reganho de peso ou então o projeto de ganho de peso, onde haverão dias e semanas de adaptação do organismo e resultado nenhum será visível.

Diariamente somos atacados por propagandas, sejam onlines ou offlines, sejam por grandes mídias ou até pela vizinha, pela melhor amiga, pelo colega de trabalho, sobre como nosso corpo deve ser ou como devemos nos comportar. Isso causa a confusão que hoje vemos naquilo que chamei de efeito sanfona, não de peso, mas de pensamento e comportamento.

Chamar de culpa inclusive é algo irresponsável, não existe culpa, pois não é algo errado ter o efeito sanfona, não saber exatamente onde quer estar, peso adequado ou padrões, a única culpa é exatamente achar culpados para algo que não pode ser mensurado.

Isso não minimiza os efeitos à saúde quando falamos em obesidade, magreza excessiva ou desnutrição, pois isso já é algo afirmado e confirmado pela ciência, sabemos quais são os efeitos nocivos a saúde física que estes causam, mas devemos nos atentar aos efeitos nocivos que estes causam a saúde emocional e saúde mental dos mesmos indivíduos, que vira e mexe sofrem com o peso, com os efeitos sanfonas, com os ataques de pressão e encaixes na sociedade.

Efeito sanfona, portanto, não tem um culpado, mas toda uma sociedade que busca encaixar todo mundo em um mesmo lugar dificilmente habitável por todos, e insustentável a longo prazo, quando não trabalhado comportamental ou emocionalmente.