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Será que as plantas sentem dor?

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
André Souza

André Souza é neurocientista e pós-doutorado em psicologia cognitiva pela Universidade do Texas em Austin (EUA). Atuou como professor visitante e pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Psicologia da Universidade Concordia em Montréal (Canadá) e no Departamento de Psicologia da Universidade do Texas em Austin

Colunista do UOL

18/09/2020 04h00

Você certamente já deve ter arrancado uma flor ou cortado as folhas de alguma plantinha que você tem em casa só para dar aquela podada!

Será que na hora que você passa a tesoura na planta, ela sente dor? Para saber isso, vamos primeiro entender como é que a gente, ser humano, sente dor.

Quando alguém te dá uma espetada com uma agulha, ou quando você corta o seu dedo com a faca enquanto pica a cebola, tem umas células na sua pele, chamadas nociceptores, vão mandar imediatamente mandar um sinal pro seu cérebro falando assim: "ei, tá acontecendo alguma coisa aqui. Dá pra mandar ajuda?". O seu cérebro pega essa informação e cria lá nele essa sensação que chamamos de dor. Essa sensação vai desencadear uma outra corrente de informação que vai dizer "Aiiiii, tá doendo… Tira a mão daí, menino". E é por isso que você vai puxar a mão de uma vez, ou vai reagir à espetada de agulha. E isso tudo em menos de meio segundo. É rapidão.

As plantas (diferente da gente, dos cachorros, dos gatos e até dos peixes) não têm um sistema nervoso. Elas não têm um cérebro e não têm neurônios comunicando o tempo inteiro com esse cérebro. Logo, não tem como elas interpretarem as sensações como dor. Nesse sentido, as plantas não sentem dor como a gente sente quando se machuca, cai ou corta o dedo.

Elas não sentem dor, mas reagem!

A nossa dor nada mais é que um mecanismo que nosso corpo encontrou para se proteger de perigos. Se você coloca a mão no fogo e não sente dor, sua mão vai queimar até deixar de existir. A dor é um recado do cérebro: "ooooowwww, tira a mão daí pra não estragar".

Uma planta, apesar de não ter cérebro e não sentir dor, reage aos perigos que ela encontra pela frente. E para ela isso é ainda mais importante, por que quando o perigo chega, nem correr ela pode. Quando um inseto pousa lá na planta e começa a comer a folha dela, essa planta vai mandar sinais eletroquímicos para as outras partes dela (para as outras folhas) e isso vai desencadear um conjunto de outras reações químicas que vão proteger a planta. Ela vai soltar substâncias químicas que vão fazer com que as folhas tenham um gosto ruim e o inseto pare de comer. Ou elas podem soltar gases e substâncias venenosas que vão matar o predador que está ali a destruindo.

Um exemplo cotidiano disso é o que acontece quando cortamos uma cebola. Ela não sente dor, mas ela vai soltar uma substância (sulfóxido de tiopropanal) que vai viajar até seu olho e irritar a superfície dele, fazendo você sentir a sensação de ardência (veja essa thread no Twitter pra entender como ela age nos olhos).

No final das contas, as plantas não sentem dor como a gente, mas estão sempre reagindo a estímulos externos, principalmente aqueles que colocam a vida delas em risco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.