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André Souza

Realidade virtual e o nosso cérebro

André Souza
Imagem: André Souza
André Souza

André Souza é neurocientista e pós-doutorado em psicologia cognitiva pela Universidade do Texas em Austin (EUA). Atuou como professor visitante e pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Psicologia da Universidade Concordia em Montréal (Canadá) e no Departamento de Psicologia da Universidade do Texas em Austin

Colunista do VivaBem

02/10/2020 10h54

Parece até ficção científica, mas hoje em dia é possível visitar e passear pela Estação Espacial Internacional sem mesmo sair do conforto do seu sofá. E não. Não estou falando de ver imagens da Estação Espacial no Jornal Nacional. Visitar virtualmente o espaço é possível graças a dispositivos de realidade virtual que já são facilmente encontrados no mercado de eletrônicos.

Mas o que é essa tal de realidade virtual e como ela afeta o nosso cérebro?

Realidade Virtual não é igual a TV

A gente já está acostumado a ver pela tela da TV lugares em que não estamos presentes fisicamente. Óculos de realidade virtual, em termos bem básicos, são também "telas" que nos apresentam um lugar em que não estamos fisicamente. No entanto, essa tela fica bem perto dos olhos, praticamente impedindo que a gente consiga ver o ambiente real a nossa volta. E, para completar a ilusão, ele cria efeitos dimensionais onde você consegue ver perspectivas diferentes do espaço virtual apenas virando a sua cabeça: se você virar a cabeça para trás, você vê o que estaria atrás de você se você realmente estivesse no local.

É por isso que esses dispositivos criam a sensação real de estar em um local diferente, pois a informação visual que seu cérebro está recebendo vem 100% dessa tela que está bem pertinho dos seus olhos. Basicamente, o dispositivo não dá ao seu cérebro a chance de perceber que está fisicamente em um lugar diferente do seu corpo.

Por que às vezes sentimos enjoo com esses dispositivos?

O cérebro está o tempo todo coordenando as várias informações que ele recebe do nosso corpo. Ele recebe informação visual, informação de cheiro, informação de movimento, informação de pressão etc. Daí, ele combina todas essas informações e o resultado é a nossa percepção de estarmos em um certo lugar, num certo momento.

Quando essas informações não combinam, dá um bug no nosso cérebro e ele vai reagir a esse bug. Por exemplo, se ele recebe uma informação visual mostrando que seu corpo está girando, mas não recebe do próprio corpo nenhuma informação de movimento (já que seu corpo está parado no sofá), ele vai perceber esse desencontro de informações e uma das reações que irá causar é a sensação de enjoo. É como se ele estivesse falando que tem algo errado nas informações desconexas que está recebendo. O enjoo te tira da experiência virtual e equilibra todas as informações novamente.

E as nossas memórias?

Para o seu cérebro, o mundo virtual que você está vendo pelos óculos de realidade virtual é algo real. Ele está pegando as informações visuais e criando memórias reais como se você estivesse de fato vivendo aquela situação. É óbvio que conscientemente você sabe que está sentado na sala da sua casa, mas em termos do que está acontecendo fisiologicamente no seu cérebro, é o mesmo que estaria acontecendo se você estivesse de fato no local da sua realidade virtual.

Isso traz implicações interessantes para como as nossas memórias "virtuais" são formadas a partir das nossas experiências com esses dispositivos. Essas memórias são fundamentalmente diferentes, por exemplo, das memórias que temos de filmes e outras coisas que assistimos na TV. E, no futuro, será possível utilizar esse tipo de tecnologia para tratamentos de déficit de atenção, melhoramento de memória e aprendizado em geral.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.