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O mundo não é o mesmo para todos; saber lidar com isso evita conflitos

A vista da sede: como você a vê? - Arquivo pessoal
A vista da sede: como você a vê? Imagem: Arquivo pessoal
André Souza

André Souza é neurocientista e pós-doutorado em psicologia cognitiva pela Universidade do Texas em Austin (EUA). Atuou como professor visitante e pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Psicologia da Universidade Concordia em Montréal (Canadá) e no Departamento de Psicologia da Universidade do Texas em Austin

Colunista do UOL

16/10/2020 11h41

A sede da empresa onde eu trabalho fica no 70º andar de um dos prédios mais altos de Nova York. Do meu escritório é possível ver praticamente grande parte do Brooklyn, o rio Hudson e obviamente a Estátua da Liberdade. É uma vista linda! Mas eu já tive amigos que, ao visitar o escritório, não tinham essa mesma admiração que eu pela paisagem. Não só achavam uma vista "ok" como também não passavam muito tempo observando a beleza dela.

Como pode ser que a mesma paisagem, vista do mesmo lugar, com as mesmas coisas (rio, estátua, prédios) seja percebida de maneira tão diferente?

A resposta, como sempre, está no nosso cérebro. O mundo em que vivemos (as coisas que vemos, as comidas que comemos, as pessoas com quem interagimos) só existe porque estímulos luminosos entram em nossos olhos, chegam à retina, são transportados para o cérebro e lá são interpretados como alguma coisa. Isso faz com que o mundo que vemos seja sempre filtrado pela maquinaria do nosso corpo. E essa coisa que chamamos de interpretação está intimamente ligada à nossa experiência com o mundo e com o nosso corpo em si.

Seu corpo comanda a percepção

Um exemplo para elucidar essa ideia: imagine duas pessoas paradas no comecinho de uma subida. A rua é a mesma para ambas, assim como sua inclinação. No entanto, se você pedir para essas pessoas estimarem o grau de inclinação dessa subida, as duas vão, primeiramente, superestimá-lo (vão falar que a inclinação é maior do que realmente é) e, a depender das características do corpo delas, essas estimativas serão muito diferentes uma da outra. Uma pessoa jovem, magra e sem nada na mão vai provavelmente estimar uma inclinação menor do que outra pessoa mais velha, obesa e carregando uma mochila pesada no momento.

Isso acontece porque a forma como percebemos inclinações e distâncias tem a ver com a maneira como nos imaginamos percorrendo-as. Uma pessoa com uma mochila pesada nas costas vai imaginar que deve ser muito difícil andar por ali. Logo, ela vai estimar que a distância é, na verdade, maior do que realmente é. Já uma pessoa acostumada a percorrer distâncias muito maiores do que aquela vai subestimá-la e dizer que é menor do que realmente é. Ou seja, a nossa percepção do mundo é altamente individual e dependente das características do nosso corpo e do momento em que vivemos.

Mas e daí? Que diferença isso faz na minha vida?

Imagine a seguinte situação bem comum entre casais: seu(sua) namorado(a) chega para você e diz que está decepcionado(a) porque você não tem dado atenção suficiente para o relacionamento. Por isso, ele(ela) está se sentindo sozinho(a). Ao escutar isso você logo fala: "Como assim? Eu dou muita atenção a você e me dedico muito a esse relacionamento".

Nesse caso, o tempo real que você de fato dedica ao relacionamento é como se fosse uma subida. A maneira como você e seu(sua) namorado(a) percebem essa subida é completamente diferente. Por mais que vocês tentem chegar a um acordo, a percepção de cada um será sempre diferente. Isso é inevitável, já que são dois cérebros diferentes, com experiências diferentes, filtrando uma mesma informação.

Mas e aí? Como faz, então?

O ideal é saber e entender que as coisas serão percebidas de formas diferentes por pessoas diferentes. Ter noção e ciência disso já contribui um pouco para entender o lado da outra pessoa. Você pode até tentar se colocar no lugar dela, mas, no fundo, isso é uma tarefa muito difícil cognitivamente.

O que geralmente ajuda e é mais efetivo para evitar conflitos é entender que, mesmo a perspectiva da outra pessoa não sendo a mesma da sua, você pode, sim, fazer algo para que ela perceba a situação de uma forma mais próxima à sua. Mas isso requer conversa e uma mente aberta a escutar o outro (e não só em julgar o outro).

O mundo não é o mesmo para todo mundo. Ainda assim, é possível viver harmoniosamente compartilhando diferentes perspectivas e enriquecendo ainda mais nossa experiência nele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.