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André Souza

Por que a gente soluça?

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Imagem: iStock
André Souza

André Souza é neurocientista e pós-doutorado em psicologia cognitiva pela Universidade do Texas em Austin (EUA). Atuou como professor visitante e pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Psicologia da Universidade Concordia em Montréal (Canadá) e no Departamento de Psicologia da Universidade do Texas em Austin

Colunista do VivaBem

04/09/2020 04h00

Todo mundo já passou por isso um dia: você está rindo muito de uma piada que alguém te contou e, do nada, começa a soluçar!

Já parou para pensar por que e como isso acontece?

Para entender como o soluço funciona, a gente precisa entender como a gente respira. O nosso corpo tem uma espécie de monitor interno que está o tempo todo vigiando a quantidade de oxigênio e a quantidade de dióxido de carbônico que tem no nosso sangue. É esse monitor que sabe quando a gente precisa respirar ou não. Por exemplo, quando a quantidade de dióxido de carbono é muito alta, esse monitor interno manda um recado pro cérebro: "Ei, tamo precisando de mais oxigênio aqui".

E aí o cérebro entra em ação: "Xá comigo!"

O cérebro manda um recado (por meio de um nervo chamado nervo frênico) para um músculo que tem embaixo do nosso pulmão. Esse músculo se chama diafragma. O recado que o cérebro manda é simples: "Ei, diafragma, contrai aí por favor".

Como o diafragma está bem coladinho na parte de baixo do pulmão, quando ele se contrai, cria espaço entre ele e o pulmão. Daí o pulmão, como se fosse uma seringa, suga o ar de fora pra dentro dele. Quando o nível de oxigênio no pulmão é suficiente, o cérebro manda outro recado pro diafragma: "Então? Tá ótimo. Pode voltar ao normal". E essa interação acontece, em média, de 15 a 20 vezes por minuto. É isso que a gente chama de respiração.

E o soluço?

Por motivos que a ciência ainda não sabe muito bem, algumas vezes a comunicação entre o diafragma e o cérebro entra numa espécie de loop infinito e isso buga tudo. O cérebro envia um sinal pro diafragma mandando ele se contrair de uma vez. Como faz isso de forma repentina, o pulmão acaba deixando o ar entrar também de uma vez nos pulmões. E, nisso, um outro setor do seu cérebro, para tentar controlar a quantidade de ar que entra no seu pulmão, vai mandar um recado pra sua glote (o espaço que tem no meio das suas cordas vocais): "Fecha, fecha, fecha". E essa sensação de ar entrando de uma vez e sua glote fechando é o que chamamos de soluço. E isso vai se repetir até que esse loop infinito entre o diafragma e o cérebro seja interrompido e volte ao normal.

E por que a gente soluça?

A resposta é... Não sabemos ainda. Existem algumas hipóteses que defendem a ideia de que esse reflexo é um resquício evolutivo de quando a gente ainda vivia na água e tinha que puxar água para as guelras. Estudos mais recentes sugerem que isso seja algo específico dos mamíferos e tenha uma função regulatória: ele ajuda o seu corpo a aprender como se regular internamente. É por isso que observamos soluços em bebês de semanas ainda na barriga da mãe. Mas a função do soluço ainda continua um mistério para a ciência.

Mas e aí? Como fazer pra parar de soluçar?

Para parar de soluçar, o ideal é fazer com que o cérebro perceba níveis um pouco mais elevados de dióxido de carbono no sangue. Isso vai fazer com que o cérebro mande um sinal "normal" pro diafragma pedindo que ele contraia. Uma das formas de forçar o nosso corpo a detectar níveis altos de dióxido de carbono é fazer qualquer atividade que interrompa um pouco a respiração. Isso inclui beber água, levar um susto ou... só ficar uns segundos sem respirar. O que não funciona é colocar um pedaço de linha babado na testa. É fofo, mas não funciona.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.