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Como nosso cérebro é afetado pelas distrações constantes

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
André Souza

André Souza é neurocientista e pós-doutorado em psicologia cognitiva pela Universidade do Texas em Austin (EUA). Atuou como professor visitante e pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Psicologia da Universidade Concordia em Montréal (Canadá) e no Departamento de Psicologia da Universidade do Texas em Austin

Colunista do UOL

11/09/2020 04h00

Celular é uma tecnologia muito útil. Hoje em dia, estima-se que mais de 3,5 bilhões de pessoas têm um smartphone e o usam o tempo inteiro. Para se ter uma ideia, em média, as pessoas gastam de cinco a seis horas por dia mexendo no celular. Elas recebem uma média de 70 notificações por dia e passam grande parte do tempo checando redes sociais como Instagram, TikTok e Twitter. Isso é o equivalente a mais de 1.800 horas por ano no celular.

Será que todo esse uso afeta o nosso cérebro?

A resposta é sim. Um dos principais efeitos que o uso constante de celular traz pro nosso cérebro tem a ver com a nossa capacidade de concentração. Basicamente, toda vez que estamos fazendo alguma coisa (seja lendo, estudando, cantando, etc.) o nosso cérebro está usando energia para focar na tarefa em questão. A parte do nosso cérebro que controla essa concentração é essa bem aí onde está a sua testa e é conhecida como lobo frontal.

Toda vez que recebemos uma notificação no celular, o que acontece no nosso cérebro é que ele vai mudar o foco de atenção dele para a notificação e vai precisar de mais energia ainda para voltar ao foco que tinha antes da interrupção. A gente chama isso de custo de alternância cognitiva.

Para entender melhor como essas interrupções atrapalham o nosso cérebro, vamos imaginar a seguinte analogia:

Imagine um lago de águas calmas e paradas no meio do centro de São Paulo. As águas estão tão calmas que você consegue ver claramente o reflexo dos prédios em volta. Agora imagine que alguém te peça pra desenhar o reflexo do que você está vendo nesse lago. Até aí, tudo bem. Assim que você começa a desenhar, alguém joga uma pedrinha nesse lago. Essa pedrinha vai causar uma onda e vai distorcer um pouco o reflexo dos prédios no lago. Essa mesma pessoa vai jogar mais uma pedrinha? e mais outra? e mais outra? Depois de alguns minutos, vai ter tanta pedrinha batendo no lago que você não vai mais conseguir desenhar o que está sendo refletido no lago.

A calma do lago é a concentração que precisamos para desenvolver bem as tarefas que precisamos desenvolver no nosso dia a dia. As pedrinhas são distrações que vêm sem a gente pedir e que interferem diretamente na tarefa que estamos tentando desenvolver, deixando a coisa menos clara e mais confusa. O que o nosso lobo frontal faz o tempo todo é manter as águas do lago calmas, para que a gente possa ver as coisas com mais clareza. Quanto mais pedrinha cai nele, mais trabalho o cérebro vai ter pra acalmar novamente as águas desse lago. E obviamente, ele vai gastar mais energia para fazer isso.

Mas e aí? Qual é o segredo?

O ideal é montar barreiras que protejam nosso lago das pedrinhas que caem sem a gente pedir. Quanto menos distrações de celular tivermos, melhor será a nossa concentração e mais claras serão as informações que vamos processar. Para controlar a quantidade de distrações, coloque o seu celular no silencioso, principalmente quando estiver fazendo alguma coisa que requer concentração. Considere uma espécie de alarme que te avise quando você pode checar o celular, e-mails e redes sociais. Evite deixar que pedrinhas atrapalhem a calma, a paz e o reflexo do seu lago.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.