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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ainda ousando no mundo: viva as centenárias e os centenários!

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

10/05/2021 04h00

Nunca imaginei que alguém pudesse comemorar a redução da expectativa de vida da população brasileira, ainda mais quando decorre das centenas de milhares de mortes injustas decorrentes da covid-19, notificadas ou não.

Pois bem, começo a acreditar que um ministro da Economia de um país da América do Sul esteja com um sorriso maroto e comemorando esse retrocesso. Enquanto isso, na Inglaterra, o príncipe Philip morre aos 99 anos do jeito que tinha que ser, isto é, por causas naturais, segundo seu atestado de óbito.

Teve acompanhamento médico adequado durante toda uma vida, o que possibilitou que no seu atestado fosse dado um diagnóstico de velhice, quando o corpo não dá mais conta de manter as funções fisiológicas operantes.

"Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130... Culpa do direito à vida e dos avanços da medicina...", completa Guedes, um idoso de 71 anos e atual ministro da Economia do Brasil, na fala que ocorreu em uma reunião do dia 27 de abril de 2021 e que todas as pessoas presentes não imaginavam que estava sendo transmitida (e que bom que ainda temos um pouco de transparência nesse país para assuntos que nos interessam).

Na contagem, nas estatísticas que o ministro e sua equipe devem conhecer bem, há um campo teórico e prático no qual capitalismo, idadismo, racismo e sexismo estão sobrepostos, permitindo o acúmulo de bens e de dinheiro para algumas pessoas e, ao mesmo tempo, ampliando a desigualdade, tirando a paz, a comida do prato e a infância de muitos.

Se nossos indicadores fossem estratificados por marcadores sociais como gênero, cor da pele, classe social, idade, local onde reside e o tipo de trabalho realizado, saberíamos muito bem quem já está morrendo e quem morrerá ainda mais.

Aqueles que escaparam das estatísticas de óbito precoce e agora estão vivendo há mais de seis décadas, recebem a informação de que estão atrapalhando a economia, o bem-estar geral da nação, reduzindo o dinheiro acumulado que salva os bancos, mas não salva os CPFs.

Em se tratando dos velhos e velhas, são essas pessoas que contribuíram e ainda contribuem de tantas maneiras para o país usando suas pensões e aposentadorias com alimentos, produtos e serviços que têm diversos impostos na composição de seus preços. São centenas de municípios que têm a economia em torno do dinheiro das mais velhas e dos mais velhos.

O pensamento do gestor maior da economia do Brasil vai nesse propósito de diminuir a longevidade, gastar menos com a previdência social, com os custos indiretos dos cuidados informais, na não construção de moradias com maiores acessibilidades.

Comete também um desprestígio aos profissionais da gerontologia e da não legitimação dos atuais saberes e práticas das mais diversas culturas que vêm permitindo que nossas centenárias e centenários estejam cada vez mais entre nós.

Isso faz do SUS (Sistema Único de Saúde) um dos maiores "culpados" por essa transgressão: ajudar na construção de trajetórias centenárias.

Segundo o ministro, foi pelo avanço da medicina e o direito à vida que hoje temos uma sociedade que pode envelhecer. O ministro da economia demonstra nessa fala o desejo de tornar a saúde um produto e não mais um direito, como sempre esteve pautado na nossa Constituição.

E vale destacar que todos os ministros da Saúde desse atual governo, se não fosse a pandemia, estariam fortemente engajados nesse propósito de privatizar a saúde, um direito que temos e não um serviço que se compra. Isso seria um grande passo para a redução da longevidade e da redução de oportunidades para o envelhecer de quem hoje está com 40 ou 50 anos.

Estamos em um momento de "cancelamentos de CPF", e isso é horrível, uma das piores manifestações da necropolítica e fica pior quando é defendido pelo presidente da república do Brasil e em TV aberta, fato lamentável para a nossa nação.

Deixamos morrer quem é jovem e pobre por meios de políticas públicas ineficazes e agora queremos cancelar CPFs antigos. Talvez, para o ministro, deveriam ser centenários todos os CNPJs (Cadastros Nacionais de Pessoas Jurídicas) e não os CPFs, ou seja, as empresas, e não as pessoas, refletindo também valores de uma globalização perversa, como já dito pelo professor doutor Milton Santos.

Na gerontologia, tem sido o foco de muitos estudos as regiões do mundo onde há concentrações de pessoas longevas. No Brasil, temos o município de Veranópolis (RS) e alguns achados nos preocupam. Alguns determinantes sociais, muitos deles conectados com o dinheiro, parecem ameaçar a longevidade daqueles que vivem lá.

A longevidade de quem mora lá ainda vai bem porque pilares como o bom convívio social, familiar e a espiritualidade ainda estão presentes. Para quem sonha com o direito à vida, seria ótimo descobrir com o novo Censo as cidades povoadas de pessoas centenárias, contrariando as expectativas do ministro, da sua equipe e de outros ministros.

Tenho receio do comportamento de algumas pessoas e instituições diante dessa lógica do ministro da Economia, que fez toda uma carreira profissional e acadêmica pensando também no capitalismo. Nessa economia pensada por Guedes cabe quem envelhece bem e quem chega aos 90 anos ou mais?

É possível que, na sua visão, a longevidade deva ser motivo de tristeza, de aborrecimento, de indignação com quem "ousou" envelhecer? Não deve ele se lembrar o que é direito e dever do Estado? De que vidas valem mais que dinheiro, já que as vidas podem gerar novas formas de economia, produção, relações e significados para uma sociedade que já discrimina os mais velhos?

Nossa história enquanto nação está sendo desconstruída, perdendo sua ancestralidade, suas referências, seus mais velhos e mais velhas antes da hora. É muita tristeza e maior ausência da empatia. Como conseguimos colocar o dinheiro na frente das vidas?

Como jovens e algumas pessoas velhas, como o próprio Paulo Guedes, pensam como "sobrecarga" o aumento do percentual de idosas e idosos na população brasileira? Pode ser que o idadismo esteja se naturalizando de forma muito acentuada entre jovens e pessoas idosas, o que é muito ruim.

Não querer chegar aos 90, 100, 110, 120 ou 130 anos deveria ser uma condição das limitações do nosso corpo, mais ou igual a nossa autonomia de querer ou não viver, mas nunca uma imposição de condição de vida restritiva e punitiva pelo Estado!

Rever nossa forma de viver, de conviver e de existir, não apenas sobreviver, é urgente e precisa de muito diálogo, escuta, troca de experiências, convívio intergeracional e conhecimentos adquiridos. E com pessoas idosas dispostas a nos ajudar, essa mudança é possível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL