Por que compartilhar imagens de violência doméstica gera mais violência

Uma mulher é agredida. Na internet, o caso gera repercussão, os jornais noticiam, nos aplicativos de mensagens, imagens do caso são compartilhadas. "É como se a mulher sofresse uma segunda violência."

A fala é de Silvana Mariano, professora da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e integrante do Laboratório de Estudos de Feminicídios da universidade. Ela faz um monitoramento diário dos conteúdos midiáticos de todo o país que noticiam casos de violência contra a mulher.

E há muito a ser noticiado. Segundo o último anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, houve, em 2022, um aumento de todos os tipos de violência contra a mulher tendo em vista o último levantamento.

Os feminicídios cresceram 6,1% em 2022, resultando em 1.437 mulheres mortas. Enquanto as agressões em contexto de violência doméstica tiveram aumento de 2,9%, totalizando 245.713 casos.

Para Mariano, compartilhar imagens desses casos, ao invés de ajudar as vítimas e evitar novos crimes, pode ser ainda mais prejudicial para o combate à violência contra a mulher.

No caso das mulheres sobreviventes, isso destrói a vida delas, elas ficam acuadas e é um sofrimento extra saber que há esse tipo de compartilhamento de suas imagens sem controle algum. Silvana Mariano, professora da UEL

Não é clichê: violência gera mais violência

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Imagem: Getty Images

Noticiar um fato, no caso, um crime de violência contra a mulher, não é ilegal por si só. Quando imagens são compartilhadas com textos noticiosos sobre o caso, de acordo com a advogada Alice Bianchini, conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, isso não configura crime.

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No entanto, para ela, a excessiva exposição desse fato pode gerar ainda mais violência uma vez que causa uma naturalização desse tipo de situação.

Um estudo da Universidade Federal do Ceará mostra que mulheres que presenciaram violência do pai contra a mãe na infância têm mais risco de viver uma relação semelhante no futuro. Além disso, homens que também presenciaram o mesmo tipo de violência tendem a se tornar agressores quando adultos.

Em termos mais gerais, a exposição à violência gera mais violência. Alice Bianchini, advogada

Na mídia tradicional, ou seja, dentro do jornalismo profissional, segundo as especialistas ouvidas, outro problema na veiculação de casos de violência contra a mulher é o sensacionalismo e a abordagem machista que justifica a violência sofrida.

"É muito comum associar a violência da mulher como briga de casal e isso não é briga de casal", diz Mariano.

Bianchini reitera esse pensamento quando afirma que o verdadeiro motivo para o crime não é a briga, mas, sim, o sentimento de posse que o homem tem para com a mulher: "Existe uma forma preconceituosa de cobertura, por exemplo quando diz que a mulher estava saindo de uma festa, estava em um local de diversão, como se culpasse a mulher pela violência sofrida. Na nossa sociedade, o homem ainda acha que o homem é dono da mulher e, a partir disso, ele acredita que pode controlar e disciplinar essa mulher".

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É importante a mídia falar que existe essa violência, mas também tentar trazer o que pode ser feito para alterar esse cenário de violência porque, na mídia, o que a gente vê, no geral, é a notícia por si só e muitas vezes focada apenas na mulher. Então, é preciso que esses casos sejam veiculados, mas de um jeito que gere conscientização. Alice Bianchini, advogada

A solução é produzir conteúdos jornalísticos que não só busquem noticiar o fato, fazendo uso comedido (ou o não uso) das imagens do crime, mas que também abordem maneiras de prevenção.

"Como o feminicídio está dentro de um tipo de estrutura social que é de dominação e menosprezo à mulher, então a prevenção começa por uma visão de empoderamento e respeito às mulheres", explica Bianchini.

A questão é que esse tipo de reportagem não tem o mesmo apelo sensacionalista de você colocar no texto a imagem de uma mulher sendo espancada quase até a morte.

Munição para o extremismo

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Imagem: Getty Images/iStockphoto

Dentro dos movimentos feministas, um termo bastante usado que aborda outro problema para o compartilhamento excessivo de imagens de violência contra a mulher é pornografia da violência.

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Entre outras coisas, trata-se do quanto a divulgação desse tipo de imagem pode munir grupos masculinos de ódio contra as mulheres. Para a advogada Alice Bianchini, isso acontece porque "naturaliza a violência e reforça a ideia de que o corpo da mulher é um objeto".

As imagens mais divulgadas desses grupos não são de feminicídio e tentativa de feminicídio, mas, sim, de violência sexual.

"Em algumas subculturas online nocivas e misógino violentas, crimes de feminicídio só ganham repercussão quando a vítima é famosa ou vítimas de atentados em massa", diz Michele Prado, autora do livro "Red Pill - Radicalização e Extremismo em nome de Deus, dos Homens e da Liberdade".

Mesmo que o intuito seja sensibilizar as pessoas para os casos, o compartilhamento dessas imagens, quando caem nesses grupos extremistas, é usado como troféu para colocar a mulher ainda mais em situação degradante.

"É comum vê-los utilizar essas imagens para fabricação de memes e conteúdos de desumanização de mulheres", explica Prado.

Universa lançou em 2020 o "Manual Universa para Jornalistas: Boas Práticas na Cobertura da Violência Contra a Mulher" que pode ser consultado clicando aqui. Nele são apresentadas diversas normas de conduta para a cobertura de crimes de gênero —da conversa inicial com as vítimas às melhores palavras e nomenclaturas adequadas a serem usadas no texto. Também há informações sobre legislação, onde e como denunciar e sobre uma lista com diversas fontes especializadas no tema.

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