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Ombros e joelhos cobertos: como o Catar receberá as mulheres na Copa?

Caroline Montello, 37 anos, vive no Catar há cinco anos - Arquivo pessoal
Caroline Montello, 37 anos, vive no Catar há cinco anos Imagem: Arquivo pessoal

Anita Efraim

Colaboração para Universa, de São Paulo

24/04/2022 04h00

"Venham com o coração aberto." Esse é o conselho de Caroline Montello, brasileira de 37 anos, de Belém, que vive no Catar. Em Doha há cinco anos, ela se sente em casa no país do Orienta Médio que será sede da Copa do Mundo a partir de novembro.

"O Catar é um país lindo, é um país que tem pessoas de várias nacionalidades, e estamos de braços abertos para receber todo o mundo", diz ela, que é professora de inglês. A segurança do país também é um ponto importante para Caroline.

O Catar é um país com particularidades e diferenças relevantes em relação ao Brasil --desde a culinária, mais apimentada, até a forma como as mulheres devem se vestir. O recato, por causa das regras muçulmanas, é um ponto importante por lá, e Caroline explica que não é recomendado caminhar em locais públicos com roupas curtas.

Não há obrigatoriedade para que as mulheres usem burca (a vestimenta típica muçulmana, que cobre o corpo todo) nem mesmo o hijab (que cobre os cabelos), mas há uma preocupação com a forma de se vestir.

"Não é imposto o uso de burca para as mulheres, mas a vestimenta é, sim, algo que temos que planejar ao arrumar as malas. O ideal é cobrir os ombros e joelhos. Não vi nenhuma repressão para quem se veste mais à vontade, mas na região onde estou morando, no centro de Doha, quando uso uma roupa mais extravagante, como blusa de alça, percebo olhares desconfortáveis. Então, optei por usar roupas mais largas", relata Ana Paula Araújo, de 35 anos, que é de Londrina e se mudou para o país porque o marido, que trabalha em eventos esportivos, foi transferido para atuar na Copa do Mundo.

A paranaense diz que, no metrô, há vagões separados para mulheres e família e outros apenas para homens desacompanhados. Segundo dados da Qatar Statistics Authority de 2013, o Catar tem três homens para cada mulher. Há 9 anos, eram 2,06 milhões de habitantes, sendo 1,53 milhão de homens.

"Com tantos homens, não acho ruim essa separação no metrô. Me sinto confortável em ir em um espaço com apenas mulheres", opina.

Sobre as restrições de vestimenta, Caroline afirma que nunca se incomodou e se adaptou com facilidade.

Sempre me vesti com modéstia, então, para mim é tranquilo. Às vezes, sinto falta de usar uma camisetinha, mas isso dá para adaptar. Em Doha, por ser a capital e onde está a maior parte dos estrangeiros, é mais tranquilo. Mas não pode exagerar. Não pode ir para o shopping, para o shuk [mercado], para lugares públicos com roupas que não sejam adequadas.

Caroline diz que não há restrições sobre a forma de os homens se vestirem. Eles costumam usar calças jeans ou camisetas -além dos que optam pelos trajes tradicionais. Porém, entre os homens muçulmanos, há a obrigatoriedade de rezar as cinco orações diárias nas mesquitas. As mulheres podem rezar em casa.

Outra restrição para as mulheres é em relação aos bares. As cataris não podem frequentar esses espaços, enquanto os homens podem. No entanto, as leis muçulmanas, descritas no Corão, proíbem o consumo de álcool no geral.

Apesar de o país se pautar pela lei islâmica, isso não quer dizer que haja uma proibição em relação às outras religiões. "Aqui não é proibido que as pessoas pratiquem a sua fé. Se eu sou cristã, eu posso ler a minha Bíblia. Existe um lugar que é o centro religioso, que tem igrejas, que tem lugares para as pessoas de fés diferentes", conta Caroline.

Comida apimentada

Para Caroline, a principal diferença em relação ao Brasil é a comida. No Catar, muitos pratos são apimentados, em especial pela influência de outros estrangeiros que vivem no país. "Aqui tem muitos indianos, filipinos, muitos asiáticos, pessoal da Indonésia. Eles comem muita pimenta."

Ana Paula Araújo, 35 anos, mudou-se para o Catar com o marido, que está trabalhando na Copa - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Ana Paula Araújo, 35 anos, mudou-se para o Catar com o marido, que está trabalhando na Copa
Imagem: Arquivo Pessoal

As duas concordam ao aconselhar as brasileiras que queiram assistir a Copa do Mundo in loco: a viagem vale a pena. "Acredito que será um show à parte. Isso sem falar na experiência cultural, pois aqui tem gente do mundo todo, mesmo antes da Copa. Então é uma experiência de cultura e culinária também. Vale muito a pena", diz Ana Paula.

Há pontos de atenção para as mulheres, no entanto. "No Brasil, a gente não se preocupa muito com o que as pessoas estão pensando sobre o que vestimos ou como estamos nos comportando, porém aqui existe essa preocupação. No meu caso, que vim morar com meu marido, tivemos que oficializar nossa união, pois não é aceitável que um casal viva junto sem estar em uma união oficial", conta Ana Paula.

Clima para a Copa

Ana Paula, que é casada com uma pessoa envolvida na organização, afirma que há muito trabalho para que a Copa seja um grande evento.

Sinto as expectativas que estão por trás dos bastidores, e existe um altíssimo investimento para que essa Copa seja sensacional. Os estádios são lindos, o país está totalmente mobilizado para o evento.

Tanto Ana Paula quanto Caroline estiveram nos estádios construídos para receber os jogos do Mundial e pretendem assistir a partidas da Copa do Mundo.

Caroline ressalta que, como o país é pequeno e todos os estádios são em Doha, quem for ao Catar acompanhar a Copa poderá assistir mais de um jogo no dia com facilidade.

"Todos estão se preparando com muito carinho pra receber quem vem de fora e para fazer uma festa bem bonita. Aqui todo o mundo está muito empolgado com a Copa."