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Professora é afastada por livro de Conceição Evaristo: 'Silenciamento'

A escritora mineira Conceição Evaristo  - Arte/UOL
A escritora mineira Conceição Evaristo Imagem: Arte/UOL

Kelly Ribeiro

Colaboração para Universa

22/11/2021 13h55

Às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra, em 20 de novembro, a cidade de Salvador (BA) registrou um caso de racismo dentro do ambiente escolar. Uma professora de História do Colégio Vitória-Régia, no bairro Cabula, foi afastada de uma de suas turmas por abordar o livro de contos "Olhos D'água", da escritora mineira Conceição Evaristo.

A justificativa: parte dos alunos considerou a linguagem da obra imprópria. Os estudantes afirmaram que não gostariam de lidar com uma dor que não é deles. O caso vem se desdobrando desde setembro, mas ganhou repercussão na última sexta-feira (19), após a divulgação de uma nota de esclarecimento por parte da instituição.

Em entrevista a Universa, a professora —que optou por ter sua identidade preservada— contou como se deu a situação e disse que não esperava que a escola a culpasse pelo episódio.

Nunca imaginei que a escola iria por a culpa em mim.

Há 17 anos na instituição, a professora relata tristeza com todo o caso —especialmente com a unidade escolar— e diz que buscou ajuda profissional para cuidar da saúde física e mental.

Ela continua ministrando aulas em outras três turmas do colégio, mas se diz uma pessoa "não grata" na unidade. Relata que a maioria dos colegas não se aproximava, "enquanto os alunos das outras turmas só falavam comigo escondido".

As pessoas acham que o racismo é só a piada racista ou a agressão física. As pessoas não entendem que o silenciamento é racismo.

O sindicato manifestou repúdio pelo ato de racismo sofrido pela professora e marcou um ato de protesto em frente ao colégio, nesta segunda-feira (22).

Livro foi escolhido por concurso

Segundo a profissional, o próprio colégio inscreveu a turma em questão para o concurso "Mulheres que Transformam", na plataforma online Árvore de Livros. "O concurso era às escuras. Você fazia a inscrição e depois é que eles divulgaram como seria efetivamente. Até aquele momento, a gente só sabia que trabalharia com autoras mulheres ou histórias de mulheres", relata.

De acordo com a educadora, o livro escolhido pela plataforma para o Ensino Médio era "Olhos D'água". A atividade consistia na leitura da obra e na produção de um card manifesto no formato do Instagram, com a uma das temáticas abordadas no livro.

Ela explica ainda que decidiu em comum acordo com o outro educador da disciplina a usar a atividade para pontuação, pois considerou a proposta muito boa.

"Lá na escola, a (disciplina) História é dividida em duas frentes: História do Brasil e História geral. Então nós conversamos e achamos a atividade muito boa. Achamos as temáticas da obra muito atuais, a forma de Conceição Evaristo escrever é fantástica. Então seria uma atividade de pontuação parcial."

Durante o debate proposto, parte dos alunos questionou o estudo da obra, alegando que o livro usava uma linguagem inapropriada e isso os desconectava da história. Eles chegaram a cobrar um pedido de desculpas pela escolha do livro.

Procurada por Universa, a direção do Vitória-Régia limitou-se a enviar a mesma nota emitida na última sexta-feira. Nela, a unidade diz que oito famílias manifestaram "as suas insatisfações relativas ao vocabulário (palavrões, narrativas reais de violência, etc), o que imediatamente foi comunicado à professora da disciplina para encontrar novo viés para a abordagem da atividade".

Vale destacar que trata-se de uma turma do ensino médio e o livro, alvo da reclamação, é indicado para diversos vestibulares, inclusive para o ENEM, como destaca o próprio colégio em nota de esclarecimento.

Ainda de acordo com a direção, "a professora levou o assunto em questão ao seu perfil particular no Instagram, no qual levantou a acusação de racismo e de estar sendo silenciada pela instituição, o que jamais ocorreu". Tal compartilhamento em redes sociais teria causado constrangimento aos familiares —algo que é negado pela educadora.

Em uma reunião, a direção chegou a dizer que os pais estavam "raivosos" com a questão, e que teriam ameaçado invadir a aula da professora, fosse ela online ou presencial.

Preocupada, a educadora procurou o Sindicato dos Professores da Bahia para que a escola fosse acionada e informasse o nome dos pais para que ela prestasse queixa na polícia. Sem resposta, o sindicato acionou o Ministério Público, o qual notificou a escola, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.

A obra

"Olhos D'água" foi publicado em 2014 e reúne 15 contos da escritora mineira negra Conceição Evaristo. A coletânea retrata, sobretudo, a vida de mulheres negras em situação de vulnerabilidade no Brasil e aborda temas como extrema pobreza, violência urbana e prostituição.

A própria autora tem uma história de vida que serviu de inspiração para parte de seus escritos, no que ela mesma define como "escrevivência". Nascida em uma favela de Belo Horizonte, em 1946, Evaristo conciliou os estudos com o trabalho de empregada doméstica na juventude. Conseguiu passar no vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), formou-se em Letras e fez mestrado e doutorado. Evaristo superou a desigualdade social, sem fechar os olhos para ela.

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