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"Não tenho mais idade para isso": como deixar o próprio etarismo de lado

A atriz Andie McDowell causou alvoroço ao aparecer com os cabelos grisalhos no Festival de Cannes em julho - Getty Images
A atriz Andie McDowell causou alvoroço ao aparecer com os cabelos grisalhos no Festival de Cannes em julho Imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

31/10/2021 04h00

Não usar mais minissaia. Cabelo longo, nem pensar. Fazer tatuagens e namorar caras mais novos? Não, obrigada, já foi a época. Por que, à medida que vão envelhecendo e atingindo certos marcos de idade (como, por exemplo, 40 ou 50 anos), tantas mulheres passam a impor certas regras a si mesmas sobre o modo de agir, de se vestir e às vezes até de pensar? Delicada, a questão do etarismo tem a ver com autoestima e autoconhecimento, sim, mas também sofre influência de fatores socioculturais.

"É complicado envelhecer em um país que cultua a juventude eterna, o novo, o que acabou de lançar. As pessoas se tornam descartáveis como um objeto, um aparelho de tecnologia. Em muitos setores profissionais, alguém de 50 anos é tido como 'velho' para o mercado de trabalho. As experiências acumuladas são pouco valorizadas. Isso, especialmente para as mulheres, é muito impositivo. É como se não pudéssemos envelhecer. É o reflexo de uma sociedade que preza muito mais pela estética do que pela história", analisa a geriatra Roberta França, pós-graduada em Psiquiatria.

O ageísmo (ou etarismo) foi um termo criado em 1969 pelo gerontologista norte-americano Robert Butler. O nome surgiu para designar estereótipos, geralmente negativos, e discriminação contra pessoas baseados na idade delas. "Este é um fato interessante, pois, caso nossa vida tenha um curso natural, todos iremos envelhecer. Portanto, quais os motivos que nos levam a marginalizar o envelhecimento, se é um evento natural do curso de nossas vidas?", indaga Adiel Rios, mestre em Psiquiatria pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e pesquisador no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Etarismo dentro nós

Para a psicóloga Flávia Teixeira, mestre em Saúde Coletiva pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), quando o envelhecimento passa a ser entendido como algo natural da vida, a mulher passa a lidar melhor com todos os aspectos relacionados a essa nova etapa. "Ao aceitarmos a realidade, podemos escolher como administrar as dificuldades e usufruir dos ganhos. De modo geral, as pessoas tendem a destacar mais as perdas do que os ganhos. Esse modo de experimentar os fenômenos da vida acaba trazendo limitações, muitas vezes autoimpostas. As pessoas não acreditam que podem ter desejos e necessidades diferentes dos padrões sociais estabelecidos", comenta.

A questão é que, mesmo que as dúvidas e atitudes tenham origem em um discurso social que é machista e opressor, ele não está apenas fora de nós. "Uma coisa é o etarismo alheio, outra coisa é o etarismo que internalizamos", pontua Adriana Drulla, mestre em Psicologia Positiva pela Universidade da Pennsylvania (EUA) e pós-graduada em Terapia Focada em Compaixão pela Universidade de Derby (Inglaterra).

Muitas mulheres passam a olhar somente para fora ao pedir, por exemplo, que os outros as deixem envelhecer em paz, quando, na verdade, são elas que não aceitam o envelhecimento em primeiro lugar Adriana Drulla, mestre em Psicologia Positiva

Podemos combater o ageísmo, mas não temos como fazê-lo desaparecer. Muito provavelmente continuarão existindo os estereótipos, preconceitos e discriminação em relação às pessoas por conta da idade que têm. Continuarão existindo também os próprios preconceitos com relação à idade e o desejo de parecer jovem para ter aprovação social. O ser humano é um ser social, gostamos de ser admirados e bem-vistos aos olhos dos outros.

"Não temos como controlar o que os outros vão fazer ou pensar. Apesar de fazerem mal a si próprios e aos outros, muitos seguem julgando e depreciando o semelhante. Todos temos limitações, pontos a desenvolver e evoluir psicológica e socialmente. O ideal é que cada um se esforce em exercitar um olhar que inclua o diferente, aprendendo, acolhendo e ampliando o saber e o ser", fala a psicóloga Aline Saramago, do Rio de Janeiro.

Senso de liberdade

De acordo com os especialistas, para lidar melhor com essa questão, é necessário, primeiro, aceitar que o desconforto de envelhecer é normal. "Envelhecer é um processo que naturalmente passa pela surpresa, seguida da comparação com quem éramos e um luto por aquilo que nunca seremos. Abandonar nossos ideais aprisionadores é difícil em um primeiro momento", explica Adriana.

A psicóloga aponta que depositamos nestes ideais as nossas fantasias ingênuas de felicidade eterna e onipotência. "No entanto, quando conseguimos abandonar estas metas irrealistas, experimentamos um senso de liberdade emocional. É esta uma das razões, por exemplo, que os níveis de felicidade das pessoas passam a aumentar a partir dos 50 anos", afirma.

Na opinião de Roberta França, para se sentir bem com a própria aparência e com as próprias escolhas é importante se conhecer bem, saber o que quer para o mundo e para a própria vida e ter consciência de tudo o que construiu ao longo do caminho. "Só assim é possível ter resiliência e inteligência emocional o suficiente para não se frustrar com uma coisa que é inevitável. A única forma de ficar jovem para sempre é morrer jovem. Fora isso, vamos ter que viver muito, envelhecer e está tudo bem."

Segundo a geriatra, precisamos enxergar a velhice como uma vitória, não como uma punição social. "Esse movimento tem que ser de dentro para fora. Cada um tem que aceitar seu processo de envelhecer. Fazer mudanças, sim, mas sem imposições, com os desejos pessoais sendo prioridade."

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