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Direitos da mulher

Pobreza Menstrual: 5 projetos sociais ajudam mulheres doando absorventes

Símbolo do projeto Absorvendo Amor, que combate a pobreza menstrual no Rio de Janeiro - Reprodução Facebook
Símbolo do projeto Absorvendo Amor, que combate a pobreza menstrual no Rio de Janeiro Imagem: Reprodução Facebook

Rafaela Polo

Colaboração para Universa

16/10/2021 04h00

Todos os meses a rotina das mulheres é a mesma. Em algum momento, o ciclo menstrual se inicia e dura entre três e sete dias. Aí não tem jeito: o absorvente ou o coletor menstrual tem que acompanhar o tempo todo. Agora imagine viver essa situação sem acesso aos itens básicos para manter a dignidade sanitária. É isso o que acontece com pelo menos 28% das mulheres de baixa renda no Brasil, de acordo com uma pesquisa feita pela marca de absorvente Sempre Livre em parceria com os Institutos Kyra e Mosaiclab.

No total, o país tem 11 milhões de pessoas afetadas pela pobreza menstrual. O termo se popularizou nos últimos dias por conta do veto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à distribuição gratuita de absorventes íntimos a estudantes de escolas públicas, moradoras de rua, presidiárias e outras pessoas que menstruam em situação de vulnerabilidade social. Após a repercussão negativa do veto, o governo federal recuou e disse que "trabalhará para viabilizar a aplicação da medida".

Muitos projetos sociais trabalham para amenizar a situação que aflige boa parte das brasileiras. Universa conversou com representantes de cinco deles.

Projeto Luna (@projetolunaoficial)
Fundadora e presidente do Projeto Luna, Victoria Dezembro estava morando na Itália para estudar, mas retornou ao Brasil um pouco antes do início da pandemia. Impactada por uma reportagem que leu sobre a pobreza menstrual de mulheres encarceradas, ela já tinha o desejo de fazer algo, mas foi só quando voltou ao país -- em meio a uma crise sanitária e com outros projetos parados -- que conseguiu ajudar quem precisa.

"Começou com uma ajuda como pessoa física. Fui ao mercado com meu namorado e compramos absorvente, papel higiênico, escova e pasta de dente. Entregamos para a ONG Anjos da Cidade. Eles agradeceram e falaram que absorvente é um item que as pessoas esquecem de doar", conta. Depois de fazer isso por semanas, ela resolveu se aprofundar no assunto e transformar a vontade de ajudar em algo mais oficial. Foi assim que nasceu a ONG. "Atuamos em casas de acolhimento, ajudamos pessoas em situação de rua e que estão em ocupações de moradia popular. Pretendemos expandir para outros lugares onde há pessoas que menstruam em situação de vulnerabilidade, como penitenciárias e orfanatos", completa. O Projeto Luna já distribuiu 466 kits e 13.080 absorventes.


Absorvendo com Amor (@absorvendoamor)
O projeto nasceu dentro da Escola Eleva, no Rio de Janeiro, em 2018, com um grupo de 10 alunos dispostos a ajudar mulheres que vivem em situação de pobreza menstrual. Uma das participantes tinha lido um livro onde uma personagem não tinha absorvente, o que a tocou. "Percebemos que era uma realidade próxima da gente", diz Beatriz Kligerman, integrante do Absorvendo Amor, de 17 anos. As doações começaram com uma caixa instalada no colégio, onde as pessoas colocavam absorventes destinados a serem distribuídos em escolas públicas no bairro de Botafogo. "Às vezes, levávamos médicos para dar palestras nas escolas. Conversamos bastante com os diretores sobre a importância da conscientização", diz Beatriz.

Com a pandemia e a necessidade do distanciamento social, o movimento precisou ser repensado. Em vez de receber absorvente de forma presencial, o grupo passou a fazer uma Vakinha online para direcionar as doações a outras ONGs, como a One by One, e associações de favelas. "As instituições doavam cestas básicas, mas não existia um direcionamento para a pobreza menstrual. Então usamos a Vakinha e o Instagram para isso", conta Beatriz. Hoje o Absorvendo com Amor conta com vários parceiros, como a Carta Fabril, fabricante dos absorventes Diana, para financiar a iniciativa. "Atualmente o projeto é multifacetado. Temos um grêmio educativo, lidamos com as escolas e estamos tentando começar uma parceria com absorventes sustentáveis", diz Beatriz. Segundo estimativa do grupo, mais de 10 mil meninas foram ajudadas pelo Absorvendo com Amor.

Fluxo sem Tabu (@fluxosemtabu)
Recém-completado um ano, o projeto tem como fundadora a adolescente Luana Escamilla, de 17 anos. Após assistir ao documentário "Absorvendo o Tabu", ela percebeu que a pobreza menstrual era um problema pouco falado no Brasil. "Fiquei impactada. Como eu, que menstruo todo mês, nunca parei para pensar que existem pessoas passando por situações desumanas, sem acesso a absorventes?". Luana então decidiu que, além de doar os itens, ela faria um site para democratizar o acesso à informação sobre o assunto, assim como um perfil no Instagram que hoje conta com mais de 30 mil seguidores. "O Fluxo sem Tabu começou atendendo 700 pessoas e hoje já são mais de 6 mil."

Projeto Ciclo Novo
Nascido dentro do Espro (Ensino Social Profissionalizante) em parceria com a marca de coletores menstruais Inciclo, o projeto tem como objetivo atender anualmente cerca de 15 mil aprendizes com a distribuição de coletores menstruais gratuitamente. A meta é chegar a 8.200 distribuídos até o final do ano. "O programa começou em setembro com pesquisas feitas com os jovens da nossa base: uma foi direcionada só para as meninas, que são cerca de 60% do nosso público, e outra para os meninos. Fomos bem diretos nas perguntas. Queríamos saber se elas tinham condição de comprar absorvente ou coletor, se já perderam aula ou entrevista de emprego por conta da menstruação. Para os meninos, focamos mais em questões sobre maturidade e falta de conhecimento. Foi essa pesquisa que serviu de base para o programa de conscientização e informação sobre a menstruação feminina", diz Alessandro Saade, superintendente executivo do Espro.

A conscientização era importante porque os idealizadores entendiam que só distribuir absorvente não ajudaria a sanar o problema, seria necessário também espalhar o conhecimento sobre o tema. "Queremos que o jovem, a partir do momento que crie consciência sobre o assunto, se sinta corresponsável em continuar propagando esse conhecimento", diz Alessandro. Um segundo passo do projeto é levá-lo para dentro das empresas onde esses jovens que estão em processo de formação e trabalham como aprendizes.


Deixa Fluir com Dignidade
A Johnson & Johnson, dona da marca Sempre Livre, fez uma grande pesquisa sobre a pobreza menstrual no Brasil e descobriu pontos alarmantes. Além de apontar o grande número de mulheres que vivem em situação de vulnerabilidade menstrual, a marca também descobriu o impacto que a falta de cuidados certos durante o ciclo traz para a saúde das mulheres. Nos últimos 12 meses, 28% das entrevistadas tiveram infecção urinária ou cistite, 7% infecção vaginal por bactéria, 11% infecção vaginal por fungo e 24% tiveram candidíase.

"Após os dados dessa pesquisa, que foram muito chocantes, principalmente em relação ao desconhecimento do tema, começamos a trabalhar de forma estruturada e com pilares claros para conseguir dar voz e ajudar quem precisa. Esse é o nosso grande objetivo", diz Camila Thiago, gerente das marcas de saúde íntima e saúde bucal da Johnson & Johnson Consumer Health.

O estudo identificou que Recife (PE) e São Luiz (MA) são as regiões com mais mulheres em situação de pobreza menstrual. "Por conta disso, fizemos uma parceria com a Unicef e estamos oferecendo mais de 6 mil kits com absorventes e informação de higiene íntima para essas duas cidades", diz Camila. Além da doação, o projeto também busca divulgar outras iniciativas. Na plataforma digital da marca, o Tamo Juntas, há o Mapa da Liberdade, onde pessoas interessadas em se engajar com a causa podem se conectar com ONGs que dão apoio a quem passa pela pobreza menstrual. Para levar a mensagem ao público jovem, a rapper BIVOLT foi convidada para gravar a música #DignidadePraFluir, lembrando que a pobreza menstrual é uma realidade enfrentada por mulheres cis e homens trans em todo o país.

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