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Direitos da mulher

Ela não quer ter filhos e retirou trompas: 'seis anos até um médico topar'

Fabi Franco, 31 anos, estilista, natural de Manaus (AM) e mora em São Paulo (SP). - arquivo pessoal
Fabi Franco, 31 anos, estilista, natural de Manaus (AM) e mora em São Paulo (SP). Imagem: arquivo pessoal

Fabi Franco em depoimento a Julia Guerrero Borges

Colaboração para Universa

16/09/2021 04h00

No começo de agosto, Fabi fez um post em suas redes socias. Na cama do hospital, minutos depois de fazer uma cirurgia de esterilização, escreveu, entre outras coisas: "Demorou quase 7 anos para achar um médico que topasse, mas cá estou: sem trompas. Sem filhos. Sem autorização de homem nenhum".

Fabi tem 31 anos e nunca quis ser mãe. "Minha profissão é e sempre foi minha maior prioridade. Brinco que meus filhos são meus produtos, frutos do meu trabalho, e meus gatos", conta, em entrevista a Universa. A lei 9.263, que regula o planejamento familiar, criada em 1996, garante cirurgia de esterilização para pessoas maiores de 25 anos ou com ao menos 2 filhos vivos, mas, como Fabi adiantou em sua publicação, não foi fácil garantir esse direto. Ela passou por diversos médicos e demorou 6 até encontrar um profissional que topasse fazer a cirurgia de esterilização nela. Leia o relato dela a seguir:

"Minha médica disse que eu era muito nova"

Fabi minutos antes do procedimento: na salpingectomia, mulher tem removidas as tubas uterinas  - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Fabi minutos antes do procedimento: na salpingectomia, mulher tem removidas as tubas uterinas
Imagem: arquivo pessoal

"Desde cedo sempre deixei muito claro pra toda minha família e com quem me relacionava que não teria filhos. Conforme fui envelhecendo comecei a pesquisar as possibilidades que tinha. A mais comum delas era a laqueadura: era exatamente isso que queria. Nas minhas pesquisas descobri que a lei de planejamento familiar e assim que completei a idade necessária, 25 anos, joguei a ideia para a minha ginecologista. Na época, ela disse eu 'era muito nova e não sabia o que eu estava falando'.

A médica, então, me aconselhou a colocar o DIU, que não era algo definitivo mas poderia me proteger de uma gravidez indesejada. Até tentei colocar mas não consegui por conta da dor.

Me deu uma desanimada, mas continuei firme e forte na batalha, até porque segundo a lei o procedimento pode ser feito pelo SUS ou plano de saúde, e mesmo nenhum médico sendo obrigado a fazer, o profissional também não pode impedir nem julgar - depois me dei conta que deveria ter ido na ouvidoria com o CRM de todo mundo que fez isso comigo.

Passei por outras ginecologistas, já que sempre tive a ideia de que com médicas mulheres o processo seria melhor, mas todas ficavam chocadas com a minha escolha como se fosse uma coisa de outro mundo não querer ter filhos. Sempre me desencorajaram, dizendo que eu ainda mudaria de ideia ou que era muito nova.

Para as mulheres que não querem ter filhos, esse olhar e o julgamento já são bem conhecidos. Seja pelos médicos, pela família, amigos, conhecidos. Toda vez que a gente toca nesse assunto muita gente te olha como se você comesse criança no café da manhã, simplesmente porque você fez uma escolha diferente.

Quando me mudei para São Paulo, em 2016, cheguei a me consultar com uma médica que falou que se eu quisesse poderia continuar procurando, mas que ela não faria e ainda que nenhum outro profissional iria topar - felizmente hoje sei que ela estava enganada.

"Tinha certeza que não queria ser mãe. Por que era tão difícil conseguir isso?"

Depois de tantas recusas, sabia que não poderia desistir, afinal aquilo era minha maior vontade. Eu tinha certeza que não queria ser mãe e queria fazer a laqueadura. Mas por que era tão difícil conseguir isso?

No início do ano passado, passei por cima dos meus preconceitos e decidi consultar um médico homem. E não é que ele disse que faria? Mas antes pediu que eu colocasse um DIU para pensar a respeito durante alguns anos e na hora de trocar a gente conversava de novo - como se a minha escolha de uma vida toda fosse mudar assim.

Não era o melhor dos mundos mas foi o mais perto que cheguei. Quando fui fazer os exames para colocar o DIU (dessa vez seria com anestesia, já que antes não consegui pela dor), descobri que estava com uma lesão no colo do útero e precisaria tratar antes de realizar qualquer procedimento.

Depois de alguns meses e de curar a lesão, a pandemia começou e mais uma vez meus planos foram adiados. Foi então, praticamente após um ano, que as coisas começaram a ficar menos tensas e fui atrás do tal do médico e não é que o homem desapareceu? Simplesmente não o encontrei mais.

"Mesmo sendo direito, muitas mulheres não conseguem"

Tive que retomar as forças e tentar de novo. Em maio deste ano, fui atrás de um outro profissional mais perto de casa e ao marcar consulta me saltou aos olhos a opção cirurgião ginecologista. Agendei o horário com uma esperança que fazia tempo que não sentia. A princípio iria para refazer os exames de rotina e quem sabe tentar entender mais sobre a possibilidade da laqueadura.

Chegando lá, expliquei toda minha situação e disse que queria colocar o DIU, mas que queria mesmo era fazer uma laqueadura. De primeira, ele respondeu: "eu faço!". Na hora não acreditei. Pela minha expressão ele logo quis entender se eu tinha mais de 25 anos [risos]. Quando respondi que sim - já estava com meus 31 anos - o médico falou que era meu direito e que eu não devia explicação pra ele. Ainda segundo o médico, um procedimento como esse é muito melhor que um aborto.

Já saí de lá encaminhada para todos os exames pré-operatórios e com o termo de consentimento assinado para preencher e levar no cartório para reconhecer firma. Por lei, é preciso assinar esse papel e a partir da data que se reconhece firma esperar 60 dias até poder marcar a cirurgia. Nesse tempo o plano precisa te desencorajar. É bizarro, mas sim, eles querem fazer com que você desista de não ter filhos.

Com tanta mulher morrendo fazendo aborto ilegal, crianças abandonadas, famílias desestruturadas, eles ainda acreditam que podem te desencorajar a seguir uma vontade genuína que só diz respeito a você mesma.

Além disso, dependendo do plano é preciso um laudo de psicólogo afirmando que você está bem psicologicamente e que quer isso mesmo da vida. E aí vem mais um fato pra lá de questionável: caso a pessoa seja casada no papel o cônjuge precisa assinar também para dar autorização, o que vale pra homem e pra mulher.

Eu não tinha feito união estável ainda com meu noivo e achamos melhor deixar pra fazer depois, principalmente porque ele também já é operado e poderia dar ainda mais confusão.

Dois meses depois, fui lá finalmente para marcar a cirurgia. O médico explicou como seria o procedimento, que ele não fazia laqueadura simples e sim salpingectomia, um tipo mais definitivo porque não deixa chances do organismo regenerar, porque as trompas são retiradas. Na mesma hora, senti um alívio instantâneo e só pensava: bora!

Depois de mais de seis anos tentando, finalmente no dia 24 de agosto, fiz a salpingectomia. O procedimento, ao contrário de todo o processo pré, foi muito tranquilo e eu poderia ter voltado para casa no mesmo dia, mas por conta dos meus gatos achei melhor passar a noite no hospital para conseguir descansar mais.

Compartilhei um pouco da minha experiência nas redes sociais e percebi como não estou sozinha nessa luta. São muitas mulheres passando pela mesma coisa que passei, buscando por um direito que é nosso e que tanta gente reluta em nos dar.

O que posso dizer é: pode não parecer, mas está tudo bem não querer ter filhos, tenham paciência e não desistam. Espero que o meu relato seja uma esperança para mostrar que é possível sim seguir seus sonhos e que não devemos abaixar a cabeça". Fabi Franco, 31 anos, estilista, natural de Manaus (AM) e mora em São Paulo (SP).

Médico pode se negar a fazer cirurgia, mas deve encaminhar a outro profissional, diz lei

Desde 1996, a Lei 9.263, que regula o planejamento familiar, garante que mulher acima dos 25 anos ou com pelo menos 2 filhos vivos pode optar por laqueadura. Segundo a advogada e colunista e Universa Isabela Del Monde, o Conselho Nacional de Medicina garante a chamada "objeção de consciência", que dá liberdade ao médico de se negar a fazer o procedimento - por convicção religiosa ou porque não acreditar ser o melhor encaminhamento para determinada paciente. Mas, segundo a mesma regulamentação, o profissional deve, no entanto, a indicar outro médico que realize aquele procedimento que a paciente ou paciente está buscando. "É uma maneira de garantir que a autonomia da vontade da paciente seja respeitada", explica Isabela.

Em casos como o de Fabi, em que não houve esse encaminhamento, é possível sim, entrar com um processo para que a lei seja respeitada. "Se for uma negativa meramente moralista e controladora do corpo da mulher, eu entendo que é possível sim fazer uma representação no Conselho Federal de Medicina pois significa que aquele médico não está respeitando a autonomia e o direito daquela mulher em realizar o a esterilização voluntária", afirma a advogada.

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