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"Me senti sozinha na transição capilar e criei podcast para apoiar outras"

Bruna Sudário acredita que a retomada dos cachos fez parte da construção de sua identidade enquanto mulher negra - Acervo pessoal
Bruna Sudário acredita que a retomada dos cachos fez parte da construção de sua identidade enquanto mulher negra Imagem: Acervo pessoal

Bruna Sudário* em depoimento a Isabella Marinelli

02/06/2021 04h00

"Eu passei pela transição capilar em 2013. Era um período muito diferente do que agora. Não tinha muito conteúdo; só algumas coisas no YouTube e olhe lá. Ainda sou de uma cidade pequenininha do interior de Minas Gerais, chamada Itabirito, em que eu não via muitas referências. Então, atravessei esse processo solitário da transição com amigas me apoiando, mas não vivendo o mesmo.

Desde então, sempre senti falta de conteúdo que fosse para além das dicas sobre como os produtos devem ser usados no cabelo. Eu lia matérias sobre cosméticos, o que também é importante quando você está redescobrindo como cuidar dos fios, mas queria ler ou ouvir as histórias de quem passou por isso. Algo como 'passei e me encontrei', 'passei e minha autoestima ficou abalada'. Muito mais por essa linha do que pela questão prática em si.

Como sempre fui apaixonada por podcast, no ano passado, aproveitei que a minha carga de trabalho estava reduzida durante o período da pandemia e criei o "Podcast Minha Transição".

A maior parte das convidadas são mulheres reais, anônimas. Eu conhecia as primeiras, as outras foram surgindo com o passar dos episódios. Até prefiro que não sejam famosas, porque sinto que as falas são mais autênticas e não se relacionam com algum tipo de publicidade.

Fui pesquisando ainda mais sobre a transição capilar e encontrei até trabalhos de mestrado. É um tema vasto, porque vai além do cabelo. Pode ser desde falar de uma boneca negra, que está ligada à representatividade na infância, até mostrar o quanto a transição pode ser enriquecedora e transformadora, por mais que seja um período difícil, às vezes.

Nos episódios, já conversamos sobre empreendedorismo, autoconhecimento, maternidade. Crio o roteiro em conjunto com as convidadas. Entendo que essa preparação, assim como foi para mim, também é uma forma de reviver a própria história e pensar sobre ela

Inicialmente, eu queria parar de usar química no meu cabelo e ver como minhas mechas naturais poderiam ser, porque achava que o liso não combinava mais com o meu perfil. Mas, no caminho, entendi que a minha transição estava muito associada à construção da minha identidade negra.

Notei o quanto era uma decisão relacionada ao meu amadurecimento e como poderia me ajudar no processo de empoderamento. Quando eu parei de alisar, depois de dez anos de procedimentos, eu não tinha muitas memórias de como era antes. Lembrava que, se o meu cabelo não estivesse escovado, alisado, eu não queria tirar uma foto, por exemplo. Fiquei pensando nos motivos... O reconhecimento da nossa essência tem um lado de solidão.

A escolha da transição capilar significa tocar em dores, em marcas. Significa perceber que você se desnuda para se colocar de uma nova forma no mundo. Ela te faz olhar para o seu próprio eu

As mulheres que alisam as madeixas, em sua maioria, foram crianças negras e, muitas delas, sofreram racismo e bullying por causa delas.

Quando resgatamos os nossos fios naturais depois de anos de alisamento, é como estar diante de um espelho e olhar para as próprias feridas. E, olhando para aquilo, ainda ser capaz de inaugurar uma nova etapa

É por isso que o abandono da química só pela moda pode gerar uma série de frustrações. Por exemplo: você não vê a sua textura há anos e imagina de outra forma, então se decepciona quando as mechas nascem diferentes da ideia. Ou você ouve uma crítica, um comentário ruim. Vai modelar e não sabe bem como fazê-lo, logo bate o desânimo.

Se você não está no processo de dentro para fora, se é estético apenas e se depara com esses incômodos, virá o pensamento de desistência. Entretanto, quando a gente internaliza, consegue atravessá-lo de forma diferente.

Quase nunca é só uma transição e, em muitas vezes, ela impacta toda a comunidade que cerca aquela mulher. Se ela é mãe, vai dialogar diferente com suas crianças e tratar diferentemente os cabelos delas. Na minha casa, mesmo a minha mãe que não é uma mulher negra, mas sempre fez alisamento, repensou ao assistir a minha virada de chave.

Vejo como um debate que pode estar em todos os lugares: em uma roda de conversa, no meio acadêmico, em um papo entre mãe e filha. Com o podcast, quero que mulheres passando pela transição tenham voz para falar sobre ela. Quero apoiar quem está nessa missão, porque sei como é importante ter referências."

*Bruna Sudário, 30 anos, é atriz e analista de comunicação.

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