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Vereadora Benny Briolly sobre sair do país após ameaças de morte: "É cruel"

Benny Briolly (PSOL-RJ) é a primeira vereadora trans eleita de Niterói (RJ) - Rafael Lopes/Divulgação
Benny Briolly (PSOL-RJ) é a primeira vereadora trans eleita de Niterói (RJ) Imagem: Rafael Lopes/Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

15/05/2021 04h00

"Me sinto mais uma vítima do Estado de barbaridade, racista, genocida, que é cruel com nossos corpos." É assim que Benny Briolly (PSOL-RJ), primeira vereadora trans eleita de Niterói (RJ), traduziu em entrevista a Universa, nesta sexta (14), a sensação de ter sido obrigada a sair do Brasil após receber novas ameaças de morte.

Desde janeiro, quando assumiu seu mandato, a vereadora tem sido vítima de transfobia e de ameaças. A decisão para que ela deixasse o país foi tomada pelo PSOL — em 2018, a também vereadora pelo partido Marielle Franco foi executada no Rio de Janeiro.

Para Benny, a necessidade de sair do Brasil para assegurar sua integridade física assinala como o Estado lida com os corpos negros, de mulheres e de pessoas LGBTQIA+ (Lésbicas, gays, bissexuais, trans e travestis, queers, intersexuais, assexuais e demais existências de gêneros e sexualidades). "Me sinto uma vítima do Estado da indústria mercadológica religiosa, do que não respondeu ainda quem mandou matar minha amiga e companheira de partido Marielle Franco", afirma.

É ruim, é triste, é cruel. É uma sensação de impotência, de ainda estar vivendo sob a chibata e o chicote de um processo escravocrata

Em uma das recentes ameaças que recebeu por e-mail, a pessoa mostrou que sabia seu endereço e exigiu que ela renunciasse ao mandato senão iriam até sua casa matá-la. Além disso, Benny recebeu comentários em suas redes sociais desejando que "a metralhadora do Ronnie Lessa" a atingisse. Ronnie Lessa é o policial militar reformado preso por suspeita de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes, em 2018.

Vereadora entrou no Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos

As ameaças foram comunicadas e oficializadas, segundo a assessoria da vereadora, para várias instâncias do governo, e nenhuma medida havia sido tomada para garantir a integridade física de Benny. No dia 6 de maio, foi confirmada a possibilidade de a parlamentar ser incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.

Há um mês, Benny, que foi a quinta candidata mais votada em Niterói na última eleição, com 4.358 votos, conseguiu que a Câmara Municipal determinasse a obrigatoriedade do uso de nome social entre os parlamentares, depois de sofrer ataques transfóbicos no exercício de seu mandato. O nome social é aquele que uma pessoa escolhe para usar quando se reconhece com um gênero diferente daquele com o qual foi identificada no nascimento.

"Neste ano, completamos 133 anos da falsa abolição do processo escravocrata, 89 anos em que mulheres têm direito ao voto. Ainda somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo e um dos que mais extermina defensores de direitos humanos", diz. Em 2020, 175 travestis e mulheres transexuais foram assassinadas — um aumento de 41% em relação ao ano anterior, quando houve 124 homicídios.

Para ela, as medidas protetivas são uma "luz no final do túnel", mas ao mesmo tempo mostram o quanto a Câmara de Niterói e todos os órgãos institucionais vão precisar se debruçar rigorosamente para garantir a minha integridade de vida".

Sou a mulher mais votada do município. O povo escolheu uma travesti, preta, favelada, para ocupar esse espaço, porque represento as vozes das mães que choram pelos filhos vítimas de violência do Estado, que são pretos. Das travestis e transexuais que se encontram ainda nas esquinas, nos becos e nas noites sem o direito de vida assegurado. De muitas pessoas LGBTQIA+ e mulheres que todos os dias são vítimas das barbaridades misóginas e LGBTfóbicas que acontecem no Brasil

Trabalho continuará de maneira virtual

Benny deverá ficar por 15 dias afastada presencialmente da Câmara Niterói. Nesse período, participará das sessões de maneira virtual, recurso adotado desde o início da pandemia de covid-19. Ela diz que seu trabalho como vereadora continuará ativo e que, apesar da medida extrema de sair do país, segue firme em sua atuação política.

"A 'mandata' [mandato] segue nos territórios, nas favelas, fiscalizando os órgãos institucionais", fala. "Com a coroa de orixá na minha cabeça, minha ancestralidade, com a política que acredito que não é a do Estado capitalista, que não é o Brasil genocida, que não é Bolsonaro ocupando o poder. Preciso enfrentar todas as instâncias necessárias para que minha vida seja assegurada e eu continue a exercer meu mandato."

No ano passado, uma colega de partido de Benny, a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), enviou uma carta à ONU (Organização das Nações Unidas) denunciando ameaças contra sua vida. Para ela, que também foi vereadora em Niterói e precisou sair do estado do Rio para se sentir mais segura, a situação de Benny por conta da violência política é "inadmissível".

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