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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Devemos, sim, levantar nossas vozes" símbolo do movimento #MeToo no Japão

A jornalista japonesa Shiori Ito: "A lei precisa mudar", diz ela sobre estupro no Japão - KIM KYUNG-HOON / Reuters
A jornalista japonesa Shiori Ito: "A lei precisa mudar", diz ela sobre estupro no Japão Imagem: KIM KYUNG-HOON / Reuters

Juliana Sayuri

Colaboração para Universa, de Toyohashi (Japão)

16/02/2021 04h00

"Nós devemos, sim, levantar nossas vozes", clamou a documentarista e jornalista japonesa Shiori Ito, 32. "Dizer que 'mulheres falam demais' quer dizer, na verdade, que você não quer ouvi-las", acrescentou Ito, no seminário "O Movimento #MeToo na Ásia", organizado pela International House of Japan e transmitido na última sexta pelo Youtube.

Horas antes, o presidente do comitê organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio, Yoshiro Mori, 83, havia anunciado sua renúncia ao cargo após uma avalanche de críticas provocadas por seus comentários sexistas.

Questionado no início do mês sobre a possibilidade de aumentar a participação feminina no comitê olímpico de 20% para 40%, Mori respondeu que as reuniões com a presença de muitas mulheres demoravam, pois elas tinha tendência de "falar demais".

"Se aumentar o número de mulheres e o tempo de intervenção não for limitado, é mais difícil concluí-las, o que é irritante. As reuniões se tornam muito longas. Mulheres adoram competir umas contra as outras. Se uma pede a palavra, as outras pensam que também devem se expressar. O comitê organizador tem sete mulheres, mas elas sabem ficar no seu lugar", disse Mori, que foi primeiro-ministro do Japão entre 2000 e 2001. O Comitê Olímpico Internacional considerou o comentário "absolutamente inapropriado".

A declaração desengatilhou discussões sobre o sexismo na sociedade japonesa, que historicamente subjugou mulheres a uma condição submissa e silenciosa ante a liderança masculina. Terceira maior economia do mundo, o Japão está na lanterna na busca por igualdade de gênero - em termos de representatividade e inclusão feminina na política e no mercado, por exemplo, o arquipélago ocupa a 121ª posição no ranking de 153 países do Fórum Econômico Mundial. Na internet, as críticas foram marcadas pela hashtag #DontBeSilent ( #NãoSejaSilenciada, na tradução).

Para Ito, Mori é apenas a ponta do iceberg. "A questão não é só sobre ele ou o comitê, é o contexto. [O silenciamento] está na nossa estrutura, no nosso sistema", argumentou a jovem documentarista no seminário, mediado pela produtora japonesa Aiko Doden, analista sênior da emissora NHK. Segundo ela, mulheres deveriam, na verdade, "falar mais", para trazer à tona suas reivindicações.

Ícone do #MeToo no Japão e uma das 100 personalidades mais influentes do mundo de 2020 segundo a revista "Time", Ito fala por experiência própria. Antes de o movimento internacional estourar mundo afora, no fim de 2017, ela foi a público para denunciar que tinha sido vítima de violência sexual no Japão.

#NãoSejaSilenciada: estupro como tabu no Japão

Em abril de 2015, quando era estagiária na agência Reuters, a jornalista afirma ter sido drogada e estuprada pelo executivo Noriyuki Yamaguchi, 54, em um quarto de hotel de Tóquio. Segundo ela, ao procurar a polícia, oficiais teriam tentado desencorajá-la a registrar um boletim de ocorrência, sob a justificativa de que isso poderia arruinar sua carreira - Yamaguchi, um executivo de alto escalão, jornalista veterano e biógrafo do então premiê Shinzo Abe, negou as acusações, alegando que eles tiveram relações sexuais consensuais. Promotores arquivaram o caso por ausência de provas.

"Na época, muitos se referiam a mim como 'vítima' e 'sobrevivente', mas a melhor expressão para me definir é 'silence breaker', a que rompeu com o silêncio. Essas palavras me empoderaram", disse ela no seminário. "Crescendo no Japão, fui silenciada por muito tempo, não sabia expressar minha voz. Diziam-me que eu não deveria falar desses assuntos indecorosos. É assim que somos caladas", relatou. "É um tópico tabu no Japão."

Em setembro de 2017, Ito abriu um processo civil contra Yamaguchi, reivindicando uma indenização de 11 milhões de ienes (o equivalente a cerca de R$ 560 mil no câmbio atual). Em dezembro de 2019, Ito venceu a ação judicial: um tribunal de Tóquio determinou que ela deveria receber 3,3 milhões de ienes (R$ 169 mil) de indenização.

Processo fez nascer movimento Flower Demo

Enquanto o processo se arrastou nos tribunais, floresceu no Japão o movimento Flower Demo. Liderado por feministas japonesas, o movimento fez protestos contra o histórico da justiça japonesa frente a vítimas de violência sexual, pedindo uma revisão das leis para tipificar sexo sem consentimento como crime no país, onde estupro é definido como "relação sexual forçada" e ato sexual sem consentimento (quando a vítima está inconsciente ou incapaz de resistir, por exemplo), é considerado "relação sexual quase forçada".

"A lei precisa mudar", disse Ito. "Se não mudar a lei, como podemos proteger nossos direitos, nossos corpos?"

Antes do início da pandemia, ativistas fizeram manifestações mensais em cidades como Tóquio, Osaka e Nagoya entre abril de 2019 e março de 2020 - nos atos, mulheres pegavam o microfone para compartilhar suas próprias experiências de assédio. "Estamos contando nossas histórias agora. Começamos a falar da dor do nosso passado para que isso não aconteça novamente, para que possa mudar nosso futuro", dizia a nota do movimento à imprensa.

Ito contou sua história no premiado livro "Black Box" (2017) e depois protagonizou o documentário "Japan's Secret Shame" (2019), produzido pela agência britânica BBC. Desde então, ela tem viajado a Suécia, Inglaterra, Taiwan e Coreia do Sul para conferir como esses países têm tratado vítimas de violência sexual - onde encontrou exemplos de acolhimento, com apoio físico, psicológico e social para quem decidir denunciar. "No Japão, não posso dizer que é assim", lamentou.

Ao lado da jornalista sueca Hanna Aqvilin na produtora Hanashi Films, Ito vem desenvolvendo documentários focados em direitos humanos e igualdade de gênero. "Quero contar histórias de outras mulheres com a sensibilidade de saber que elas não são só vítimas. Elas têm nomes, mães, irmãs. Têm vida e voz."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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