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Casamento "arranjado" por Zuckerberg: muçulmana conta sua história de amor

Mariam e Mahmmud estão juntos há cinco anos e têm um filho - Acervo pessoal
Mariam e Mahmmud estão juntos há cinco anos e têm um filho Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

07/01/2021 04h00

A história de Mariam Chami, brasileira e muçulmana, viralizou no TikTok. A influencer, que tem mais 430 mil seguidores na rede, costuma publicar vídeos desmistificando a religião e combatendo o preconceito — mas uma de suas publicações de maior sucesso teve como tema principal o amor. Em uma sequência de vídeos, ela brincou sobre a "participação" de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, no seu casamento, que já dura quatro anos.

A seguir, Mariam relata a história na íntegra:

"Como mulher muçulmana, sempre tive um ideal específico de casamento, que por sinal é bastante romântico: sonhava com um pedido inesquecível e queria que meu marido me pegasse no colo ao entrarmos em casa, comigo vestida de noiva. Nós dois só poderíamos ter contato físico, é claro, depois de oficializarmos a união, já que essa é uma parte importante da religião e da minha cultura.

O que eu não imaginava é que teria um casamento arranjado, mas não por alguém da minha família — e sim pelo Mark Zuckerberg, como costumo brincar.

O primeiro contato que tive com meu marido foi através do Facebook, que sugeriu que eu o adicionasse à minha lista de amigos. Quando vi a foto do perfil, achei ele uma graça. Porém, sem conhecê-lo, não fazia sentido adicionar. Deixei a história para lá.

Alguns anos se passaram e tive outros pretendentes. Como é de praxe na religião, nós conversávamos à distância, mas nenhum desses diálogos evoluiu para algo mais sério. Isso até o Facebook interferir novamente na minha história — obrigada por tudo, Mark! — e a minha vida amorosa desenrolar.

Mariam e Mahmmud se conheceram pelo Facebook  - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Mariam e Mahmmud se conheceram pelo Facebook
Imagem: Acervo pessoal

Um dia, recebi uma mensagem de outra mulher, também pertencente à religião, que morava na cidade de Tubarão, em Santa Catarina. Ela me explicou que, mesmo eu vivendo em São Paulo, seu irmão tinha visto meu perfil e me achado bonita. Então me perguntou se eu estaria disposta a conhecê-lo melhor.

Quando abri a foto, vi que era o mesmo gatinho por quem eu tive aquela queda algum tempo atrás.

Tentei disfarçar a empolgação e disse que claro, poderíamos sim conversar. Não estranhei o fato de ela vir falar comigo primeiro do que ele, porque o intermédio de amigos e familiares é uma das formas mais respeitosas para se tomar esse tipo de iniciativa entre os muçulmanos.

Iludida que eu sou, pensei que aquele era um sinal, que nós estávamos destinados um para o outro. Mas a verdade é que nossas conversas eram meio aleatórias: aconteciam de vez em quando e logo depois ele sumia. Passava semanas sem aparecer.

Quando eu nem lembrava mais e já estava até conversando com outra pessoa, ele ressurgia das cinzas, me deixando animada de novo. Não tenho como dizer que era amor, porque nem nos conhecíamos pessoalmente — mas que já existia um sentimento bom ali, isso existia.

Quando eu menos esperava, a mãe dele ligou para a minha dizendo para ficarmos noivos

Durante algumas semanas, intensificamos o volume das conversas e ele me disse que gostaria de ter um relacionamento sério. Perguntou se seus pais poderiam falar com a minha mãe, já que o seu desejo era de fazer tudo nos conformes. Concordei.

Mas preciso confessar que eu, minha irmã e até minha mãe ficamos surpresas com a ligação.

A mãe dele foi direto ao ponto e disse que, se tudo desse certo, já poderíamos nos preparar para o noivado. Quando escutei essa palavra, senti aquela adrenalina percorrendo meu corpo.

Enquanto isso, fazia orações pedindo orientações divinas: se fosse para dar certo, que tudo corresse bem. Se não, que nos afastássemos.

Depois do diálogo, finalmente pude conhecê-lo. Ele veio para São Paulo e almoçamos no restaurante da minha família. No encontro, ele estava muito tímido e percebi que eu mesma teria que desenrolar a conversa. Aos poucos, fomos nos soltando. Logo percebi que estava diante de uma pessoa educada e simpática, que só estava um pouco travada por causa da situação.

Estávamos sempre juntos, mas não podíamos nos tocar

Apesar da distância, ele passou a vir para São Paulo quase todos os finais de semana. Porém, nunca ficávamos sozinhos, já que isso não é permitido. Também não nos abraçávamos, pegávamos na mão um do outro e nem estabelecíamos nenhum tipo de contato físico.

O casal só pode se beijar, ainda que na bochecha, depois de oficializar o casamento - Acervo pessoal - Acervo pessoal
O casal só pode se beijar, ainda que na bochecha, depois de oficializar o casamento
Imagem: Acervo pessoal

Desse ponto em diante, tudo aconteceu de forma rápida: em questão de meses, ele sugeriu que oficializássemos a união no âmbito religioso. Com isso, poderíamos nos tocar, eu poderia viajar para Santa Catarina sozinha para ficarmos juntos e, perante a sociedade, já seríamos casados. Precisei de um tempo para decidir, porque, apesar de nutrir sentimentos por ele, aquele era um dos passos mais importantes da minha vida.

Mais uma vez recorri às minhas orações. Pedi conselhos para minha família e decidi que sim: seríamos marido e mulher, contanto que ele aceitasse uma das minhas condições.

Não poderíamos consumar nosso casamento, ou seja, ter relações sexuais, até que realizássemos a nossa festa. Esse ritual era parte do meu sonho e não queria abrir mão dele.

A essa altura, modéstia a parte, o homem estava caidinho por mim. Desconfio que qualquer que fosse a minha condição, ele aceitaria. No final do ano, viajei com meus parentes para a sua cidade e no dia 31 de dezembro assinamos o contrato do nosso casamento, sem festa.

Neste dia, aos 24 anos, dei meu primeiro beijo, depois de dizer "sim". Finalmente estávamos liberados para nos tocar.

Também foi a primeira vez que ele pode ver como era meu cabelo, sem o hijab. Foi um dia inesquecível.

No dia da festa, fiquei emburrada, mas ele me fez uma surpresa

Marcamos a cerimônia para agosto, assim teríamos tempo de preparar tudo. Quando chegou o dia, eu e minhas amigas fizemos o "dia da noiva", cheio de preparações. Passamos o dia no salão de beleza, mas conforme a tarde chegou, achei estranho o fato de ele não ter falado ainda comigo. Esperava receber, no mínimo, um buquê de flores, mas as horas iam passando e nada acontecia.

Até que, no fim do dia, recebi um tablet de surpresa, com um vídeo que ele tinha preparado segurando vários cartazes, mandando uma mensagem para mim com palavras lindas sobre tudo o que estávamos vivendo e que ainda iríamos construir. A essa altura já estava chorando, mas a surpresa não acabou: ele ainda entrou de olhos vendados no salão, segurando um buquê de rosas. Demos um abraço rápido e em seguida continuei os preparativos para a festa.

Registro da comemoração de 4 meses de Abudi, filho do casal - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Registro da comemoração de 4 meses de Abudi, filho do casal
Imagem: Acervo pessoal

Como ele é palestino, a cerimônia toda foi realizada nos moldes de lá. Ele entrou dançando, com os amigos. Em seguida, eu entrei, de braços dados com parentes, uma vez que meu pai havia falecido há dois anos. Tudo foi muito animado. Hoje, estamos casados há quatro anos e temos um filho, Abudi, de cinco meses.

Sempre que relembro nossa história, brinco que nosso amor é tão grande que, se eu pudesse, casaria de novo várias e várias vezes com ele.

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