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Política

1ª vez e mais votadas: vereadoras quebram barreiras em eleição

Nathália Geraldo

De Universa

17/11/2020 04h00

Neste domingo (15), ao menos 20 pessoas que se identificam como travestis ou transexuais conquistaram uma cadeira nas Câmaras municipais brasileiras.

Em São Paulo, Erika Hilton (PSOL) foi eleita como a primeira vereadora trans e negra e ainda se tornou a mulher mais votada da cidade (50.508 votos). Curitiba teve um feito inédito: elegeu a primeira vereadora negra da cidade, Carol Dartora (PT). Belém escolheu a vereadora Bia Caminha (PT), a mais nova a ocupar esse cargo, em sua primeira eleição. Ela se identifica como feminista negra e bissexual.

O que representa para a democracia e para a política a conquista de vagas na política institucional por pessoas desses grupos historicamente marginalizados?

Vereadoras trans, feministas, negras e periféricas

vereadoras - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Bia Caminha (PT), eleita em Belém; Linda Brasil, mulher trans e mais votada em Aracaju e Carol Dartora, primeira vereadora negra de Curitiba
Imagem: Reprodução/Instagram

As eleições de 2020 registraram recordes históricos antes mesmo de os eleitores ouviram o "pililili" das urnas eletrônicas: pela primeira vez, tivemos 34% das candidaturas femininas e mais negros do que brancos pleiteando um lugar nas prefeituras e Câmaras municipais.

Segundo levantamento do Programa Voto Com Orgulho, da Aliança Nacional LGBTI+, também tivemos um ano de recorde de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis na disputa: foram 263 nomes concorrendo a prefeituras e casas legislativas, contra 215 no pleito de 2016.

Em Aracaju (SE), a vereadora mais votada foi Linda Brasil (PSOL), uma educadora e ativista que também é a primeira mulher trans a ocupar esse cargo. "Me comprometo em fazer um mandato que traga a diferença e provoque transformação significativa na política de Aracaju. Vai ter mulher trans vereadora na Câmara de Aracaju, sim", escreveu Linda, que levou 5.733 votos, nas redes sociais.

duda - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Duda Salabert foi a vereadora mais votada em Belo Horizonte. Ela celebrou vitória no pleito após campanha sem nenhum material impresso
Imagem: Reprodução/Instagram

A professora trans Duda Salabert (PDT) não só foi eleita vereadora, como se tornou a mais votada neste pleito em Belo Horizonte (MG). "Quando uma travesti avança, a sociedade inteira avança!", comemorou, no Instagram.

Com 8.874 votos, a professora e historiadora Carol Dartora figura como a primeira vereadora negra de Curitiba (PR). Em sua proposta, enquanto candidata, defendeu a bandeira da luta antirracista, da defesa das mulheres, da educação pública e contra a LGBTIfobia.

As candidaturas indígenas também tiveram sucesso em algumas cidades. Em Florianópolis (SC), a Coletiva Bem Viver (PSOL) ocupará uma cadeira de vereadora com a participação de Joziléia Kaingang, uma mulher indígena Kaingang.

Para a doutoranda e mestre em Ciência Política na USP Hannah Maruci, a conquista de cargos de pessoas com bandeiras contra opressões e com propostas de representatividade vem da força desses movimentos sociais e mostra também a busca pelo eleitorado por representantes que contemplem suas reivindicações.

"O fortalecimento dos movimentos de mulheres, LGBTQIA+, negro, mostra que a política é, sim, lugar desses grupos. E os resultados nos dizem que, por outro lado, o eleitorado passa a se identificar com esses grupos historicamente marginalizados e excluídos da política institucional, a ponto de vermos votações tão expressivas".

Ocupar espaços institucionais faz parte da construção de políticas públicas que estão conectadas a esses grupos minoritários e minorizados, como violência contra mulher, racismo, LGBTfobia. Por isso, é tão importante que o Legislativo e o poder Executivo municipais também tenham porta-vozes dessas pautas, explica a cientista política.

"Os grupos mais marginalizados são os que mais dependem das políticas públicas, não podemos admitir que eles estejam apartados da formulação [da Política]", explica Maruci, que também é co-fundadora d'A Tenda das Candidatas, projeto voluntário de formação política e para candidatas.

"Estamos longe da paridade de raça e gênero"

Apesar de os resultados mostrarem pluralidade nos postos de poder, ele ainda está longe do ideal e ainda distante da realidade populacional. "Temos um sistema que não contribui por essa diversidade, pelo contrário. Os partidos são gargalos que continuam privilegiando as candidaturas de homens brancos", analisa Maruci.

"Vemos isso no repasse de recursos e no apoio dado a essas candidaturas trans, negras, periféricas. Apesar de termos tido resultados positivos, ainda estamos muito longe da paridade de gênero e raça e da contemplação da diversidade da população".

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