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Iniciativas se reúnem para eleger mais mulheres nestas eleições

Integrantes do movimento Vote Nelas - Divulgação
Integrantes do movimento Vote Nelas Imagem: Divulgação

Fabiana Batista

Colaboração para Universa

20/10/2020 04h00

Em 1928, Celina Guimarães Viana foi, segundo o TSE, a primeira mulher a votar no Brasil. À época, a professora encontrou uma brecha na lei do estado onde vivia que dizia: "No Rio Grande do Norte, poderão votar e ser votados, sem distinção de sexo, todos os cidadãos que reúnem as condições exigidas por esta lei". O fato repercutiu mundialmente.

Depois de mais de 90 anos, conseguir votar não é mais um feito extraordinário para uma mulher -52,5% do eleitorado brasileiro é feminino. Mas esse número não é acompanhado por uma representatividade semelhante nas urnas: na última eleição, apenas 16,2% dos candidatos eleitos eram mulheres, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.

Para mudar esse cenário, desde as últimas eleições, vêm surgindo iniciativas com o foco de incentivar o voto em mulheres. Universa conversou com representantes de duas delas: a Vote Nelas e a Meu Voto Será Feminista. Suprapartidárias, elas reúnem mulheres de todo o Brasil que participam de grupos de estudo e ações de rua para ampliar a visibilidade de candidaturas femininas.

Apoio para conseguir concorrer com os homens

Em 2018, o projeto Meu Voto Será Feminista, criado em Recife (PE), coordenou 406 "aliadas", como são chamadas as mulheres voluntárias inscritas na plataforma. O objetivo foi aumentar a visibilidade de candidaturas feministas e incentivar eleitores a votarem em mulheres.

"O nosso papel foi, desde o início, tornar candidaturas de mulheres competitivas e viabilizar apoios de especialistas para tornar as campanhas mais viáveis para concorrer com homens, que normalmente têm mais apoio financeiro dentro do partido e conseguem contratar profissionais", explica Juliana Romão, 43, jornalista e fundadora do Meu Voto Será Feminista.

Ao final das eleições de 2018, as organizadoras haviam apoiado 96 candidaturas femininas, das quais 14 foram eleitas. "Como duas candidaturas eram coletivas, contabilizamos 24 mulheres feministas que começaram 2019 em câmaras legislativas estaduais e federais. Em 2020 já são 254 aliadas inscritas e 332 candidatas de dez partidos", diz Bia Paes, 32, comunicadora social e uma das fundadoras do grupo. Candidatas e voluntárias estão espalhadas em 127 cidades de 19 estados.

Para estas eleições, as voluntárias serão divididas nas seguintes frentes: comunicação, articulação e mobilização, arrecadação de recursos, assessoria jurídica e de contabilidade. Além de ações conjuntas, "elas podem contribuir especificamente em candidaturas de forma voluntária. A comunicação, por exemplo, pode produzir cartazes para redes sociais, e a contabilidade pode fazer a prestação de contas da campanha".

A ponte entre candidatas e voluntárias é feita via email e grupos de WhatsApp, e o grupo oferece materiais de apoio para qualificar as equipes das campanhas. Além disso, elas disponibilizam em seu site uma lista de candidaturas que apoiam para ajudar na escolha das eleitoras.

As organizadoras esclarecem que, apesar de estarem abertas a uma diversidade de mulheres, o grupo não apoia representantes de todos os tipos de ideologias: apenas candidaturas progressistas e feministas de esquerda. O Meu Voto Será Feminista tem uma carta compromisso que deve ser assinada pelas candidatas que buscam o apoio delas. E dizem que não basta apenas as campanhas defenderem as diretrizes do documento, "as ações dos partidos também devem estar de acordo".

Além de pautas voltadas para as mulheres, como a legalização do aborto, a criação de creches e políticas públicas voltadas a vítimas de violência, a carta compromisso também defende a revisão das reformas da previdência e trabalhista. "As reformas aumentam a desigualdade social e, consequentemente, penalizam as mulheres, sobretudo as pobres e negras. Para nós, defender que ambas deixem de vigorar também é um preceito feminista", diz Juliana.

Cardápio de candidatas

Já o movimento Vote Nelas tem em sua rede candidatas de partidos de direita, esquerda e centro. No entanto, também têm diretrizes indispensáveis a serem seguidas pelas candidatas que procuram apoio do grupo. De acordo com Maisa Diniz, 32, administradora especialista em operações e estratégias e cofundadora da plataforma, "as candidaturas que desejarem apoio devem defender o estado democrático de direito, ter como pauta políticas públicas voltadas à vida das mulheres e trabalhar para que mais mulheres sejam inseridas nos espaços de poder".

A iniciativa surgiu em 2018, na cidade de São Paulo, com o objetivo de dar visibilidade para pautas e candidaturas femininas, além de realizar formações para mulheres que vão votar. Naquele ano 11 cofundadoras apoiaram 33 candidatas —três delas foram eleitas. "A proposta foi fortalecer profissionalmente as campanhas que vão para a rua com pouco dinheiro e torná-las mais competitivas para serem eleitas. Elegemos três mulheres, nos estados de São Paulo, Roraima e Rio Grande do Sul", diz Maisa.

Neste ano, o Vote Nelas criou grupos de voluntárias que elas chamam de "embaixadas", em diferentes municípios. Essas equipes organizam grupos de estudo sobre política e mapeiam, em suas cidades, candidatas que estejam de acordo com suas diretivas. São 800 mulheres em 50 cidades no país que participam ativamente das embaixadas locais.

Além disso, pretendem fiscalizar o cumprimento da cota de 30% de candidaturas femininas. Segundo Maisa, ainda não é possível afirmar se há ilegalidades, "mas, em cidades como Itápolis (SP) [com menos de 50 mil habitantes], as mobilizadoras enfrentam desafios para encontrar candidatas e os partidos têm dificuldade em responder sobre o cumprimento da cota".

Além disso, ela pontua que os grupos de estudo com as eleitoras têm como intenção "criar espaços de cidadania ativa com apresentação da história das candidatas, mas também com conteúdo sobre a composição da câmara, como quantos vereadores há na cidade, qual o salário deles, o tamanho da equipe, para que depois possam cobrar mais transparência sobre esses dados".

"Nossa intenção também é montar um grande cardápio para que as eleitoras possam escolher sua candidata a partir do seu tema de preferência. Por exemplo, caso sua prioridade seja educação, queremos que encontre ali uma candidata que priorize essa pauta na campanha."

Mulher vota em mulher?

Há um consenso entre as iniciativas: "Se considerarmos que somos metade do eleitorado e que a média de mulheres nas câmaras legislativas até hoje é de 15%, conclui-se que mulheres não votam em mulheres", afirma Bia.

Maisa se coloca como exemplo. "Quando faço uma retrospectiva, percebo que, em várias eleições, votei em pessoas que meu pai e amigos indicaram. E isso se dá porque nós, mulheres, vivemos uma cidadania passiva e alheia." E ressalta a importância de que mulheres votem em outras mulheres: "Nosso papel [no Vote Nelas] é qualificar as eleitoras, pois nossas pautas são historicamente negligenciadas. Por isso, somos nós que vamos construir políticas públicas que melhorem nossas vidas".

Juliana, da plataforma Meu Voto Será Feminista, destaca ainda a importância de eleger representantes femininas com foco também na diversidade. "Nós não queremos só um mesmo biotipo de mulheres. As brancas estão em maioria nos cargos políticos. E precisamos também que mulheres negras e indígenas estejam nestes espaços."

De acordo com as organizadoras, as duas plataformas foram criadas prioritariamente para incentivar que o voto feminino seja voltado para candidaturas de mulheres. No entanto, isso não quer dizer que não estimulem também os homens a também votarem nelas. A ideia é fazer com que todos entendam, como dizem os cartazes produzidos e colados em muros pelo movimento Meu Voto Será Feminista, que "quando a mulher entra na política, ela muda a política e o mundo".

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