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Grupo faz "Ocupação do Shortinho" contra ato LGBTfóbico em mercado na Bahia

Petra Peron participa da Ocupação do Shortinho  - Reprodução/Instagram
Petra Peron participa da Ocupação do Shortinho Imagem: Reprodução/Instagram

Mariana Toledo

De Universa

25/09/2020 14h17

No último sábado, 19, o estudante de psicologia Marcos Pascoal, 25, foi a um supermercado no bairro de Itapuã, em Salvador. Na entrada, dois funcionários tentaram impedir sua entrada no estabelecimento por causa da roupa que vestia: um short curto. Em suas redes sociais, Marcos postou um vídeo do ocorrido, onde é possível ver o segurança dizendo "O senhor, até esse momento, é homem, então o senhor tem ajeitar seu short. Homem tem que estar composto, temos várias crianças ali". O jovem ainda tentou argumentar que algumas mulheres dentro do estabelecimento estavam com roupas ainda mais curtas, mas ele só foi liberado para entrar quando puxou a peça mais para baixo.


O caso viralizou nas redes sociais e não passou batido: na quinta-feira, 24, dezenas de pessoas foram a esse mesmo mercado para protestar conta a atitude homofóbica, no evento que foi chamado de "Ocupação do Shortinho". A mobilização do ato começou especialmente entre os amigos de Marcos e ganhou força quando a Bancada de Todas as Lutas - uma candidatura coletiva à vereança de Salvador formada por co-candidates representantes de diferentes movimentos - divulgou a iniciativa e ajudou na sua organização, convocando a Associação de Moradores de Itapuã e diversas ONGs e grupos do movimento LGBTQIA+ de Salvador.

"A vítima é uma pessoa da nossa rede afetiva, por isso estamos também acolhendo e acompanhando o caso. Nosso objetivo principal era conscientizar a população da importância de todo e qualquer estabelecimento comercial respeitar a diversidade na capital baiana", conta Petra Peron - dragqueen, militante do movimento LGBTQI+, articuladora das artes e membro da Bancada - para Universa.

Petra disse que a recepção do movimento foi muito boa: "O povo está adoecido por conta de todas essas crises que estamos vivenciando no país e o que mais quer é se reencantar. O que pautamos no ato foi o direito a ser e amar, o direito aos nossos corpos e à afetividade. São coisas que a grande maioria da população sempre abraçará. Foi um ato político performático, com muita palavra de ordem e leveza".

A co-candidate reforça que é fundamental responder com firmeza diante de episódios como esse - e que mais urgente ainda é pautar soluções. "O que aconteceu no supermercado não foi um caso isolado e precisamos estar mobilizadas para acolher e denunciar sempre", declara. Petra chama atenção ainda para outro lado dessa história: "Além de ter sido um caso de LGBTfobia e de racismo, a fala do segurança ainda reproduz uma violência de gênero. Ele diz que homem não pode usar short curto e mulher, sim. Mas a verdade é que nem todas as mulheres podem, porque o mesmo machismo que hipersexualiza o corpo feminino o reprime ao separar quem é 'recatada e do lar' e quem é 'vadia'. No fim das contas, é um pensamento que não favorece ninguém senão os homens cisgêneros e heterossexuais. É preciso entender que as determinações de gênero estão na base da cultura patriarcal e da violência contra as mulheres ou quem deseja e carrega traços de feminilidade. Resistir a essas determinações deveria ser um interesse geral".

O que aconteceu é crime?

O município de Salvador já tem uma lei aprovada e sancionada na Câmara que visa aplicar multas a estabelecimentos que discriminem as pessoas em decorrência de sua orientação sexual ou identidade de gênero, a Lei "Teu Nascimento" (PL-291/17, aprovada em setembro de 2019). O projeto é de autoria da vereadora Aladilce Souza (PCdoB) e prevê punição e sanções para estabelecimentos que discriminarem pessoas por conta de orientação sexual ou identidade de gênero e estabelece multa (que varia entre R$10 mil e R$100 mil), além da possibilidade de cassação do alvará de estabelecimentos. "O problema é que, até o momento, a Lei não foi regulamentada pelo prefeito", critica Petra.

"Para que isto não aconteça novamente é preciso também que a rede de supermercados de comprometa com a formação de seus funcionários em uma perspectiva que inclua a diversidade. Existe um fórum nacional de empresas e direitos LGBT e ainda organizações locais que podem auxiliar essas empresas a praticarem um atendimento que não fira a nossa dignidade de entrar no mercado como nós somos, nos vestimos e nos portamos", conclui a candidata, que garante que novos movimentos semelhantes à "Ocupação do Shortinho" serão organizados com o intuito de pressionar a prefeitura a regularizar a Lei e conscientizar a população.

Resposta

O Grupo BIG, responsável pelo supermercado onde aconteceu o episódio, publicou uma nota oficial logo após o ocorrido, onde afirma que "o fato é inadmissível e não corresponde aos procedimentos e valores da empresa". No texto, a empresa garante também que o segurança terceirizado já foi afastado.

O estudante, por sua vez, declarou em seu Twitter que sua advogada está entrando com uma ação contra o supermercado. "Não se calem, mas também tentem agir com cuidado nessas situações, se possível. Deixe o outro tropeçar em suas próprias palavras. Ele tem que se justificar, não eu", escreveu no post.

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