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Orgasmo mental via YouTube: isso funciona mesmo?

Vídeos ASMR provocam sensãção tão intensa para algumas pessoas que chega a ser comparada a um orgasmo mental. - Getty Images
Vídeos ASMR provocam sensãção tão intensa para algumas pessoas que chega a ser comparada a um orgasmo mental. Imagem: Getty Images

Heloisa Noronha

Colaboração para Universa

08/08/2020 04h00

Quem acompanha com frequência o YouTube sabe os vídeos ASMR estão em alta. O curioso é que, embora seja uma plataforma que privilegia as imagens, são os sons desse tipo de conteúdo os responsáveis por torná-los virais. Ruídos de pentes passando por cabelos, barulhos típicos do momento do banho, estouros de plástico bolha, mãos mexendo em substâncias gosmentas (como slimes) e unhas arranhando, batucando ou dando batidinhas em objetos estão entre os mais comuns, mas há ainda produções com vozes sussurrantes e rumores com a promessa de induzir ao sono. O sucesso, segundo os usuários, está na sensação de bem-estar que esses sons provocam, tão intensa para algumas pessoas que chega a ser comparada a um orgasmo mental.

Mas, afinal de contas, o que significa ASMR e por que esses vídeos vêm sendo associados ao ápice sexual? A sigla significa Autonomous Sensory Meridian Response (Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano, em tradução livre). "O 'Autônomo' da sigla diz respeito ao Sistema Nervoso Autônomo, que coordena funções das quais não temos controle voluntário, como a respiração, a temperatura corporal e a digestão. Algumas sensações da ASMR são comparadas à sinestesia, fenômeno perceptivo no qual a estimulação de uma via sensorial ou cognitiva leva a experiências involuntárias. Pessoas com essa habilidade podem, por exemplo, 'ver sons', 'sentir o gosto de palavras' ou dor e choques a certos aromas", explica o neurologista Diogo Haddad, do Hospital 9 de Julho, em São Paulo (SP), que conta que somente há pouco tempo a neurociência tem dado mais importância ao tema.

Não existem, no entanto, pesquisas científicas que expliquem ou comprovem fisiologicamente a associação entre estímulos sensoriais e sensações de bem-estar, prazer, felicidade e, sobretudo, ao orgasmo. De acordo com o médico sexologista José Carlos Riechelmann, presidente do departamento de medicina psicossomática da APM (Associação Paulista de Medicina), a comoção em torno do assunto teve início em 2007, em um fórum virtual sobre saúde, quando internautas começaram a debater sensações estranhas e inexplicáveis que seriam boas. "Uma usuária contou sentir um formigamento no couro cabeludo quando ouvia pessoas falando bem devagar, ruídos de coisas se movimentando bem lentamente e gravações de sons para meditação e relaxamento. Ela chegou a escrever que o formigamento era como um orgasmo, mas apressou-se em dizer que não havia nada sexual na sensação. A comparação com o orgasmo foi apenas no sentido de que a sensação aparecia como uma onda, que começava fraca, atingia um nível máximo e depois passava", relata o especialista.

O debate cresceu e foi ampliado para o nome que melhor se encaixaria à sensação. Os primeiros sugeridos foram "Orgasmo na Cabeça Induzido por Atenção" e "Euforia do Observador Induzida por Atenção". Em 2010, surgiu o atual e mais usado ASMR. Na sequência, derivados com teor assumidamente erótico passaram a proliferar no YouTube. Com nomes sugestivos como ASMR Sex Experience, há vídeos com gemidos, sussurros e até as sonoridades típicas de penetração, masturbação e sexo oral.

Experiência subjetiva

O termo ASMR pegou e tem se convertido em interesse crescente de estudiosos do comportamento humano. Conforme o terapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Jr., diretor do Inpasex (Instituto Paulista de Sexualidade), nem todo mundo é suscetível aos supostos efeitos sensoriais deliciosos promovidos pelos vídeos do YouTube. "Essa condição se refere à uma forma de vivência sensorial que parece atingir 5% das pessoas. A questão é que algumas afirmam sentir o mesmo que um orgasmo, um clímax sexual. Já se iniciaram estudos com voluntários que têm essas experiências, mas a classe médica ainda considera que muitos estudos precisam ser feitos para que possa ser confirmado como uma experiência física, mais que subjetiva, e que tenha reflexos físicos", observa.

Já Júlio Pereira, neurocirurgião da Beneficência Portuguesa de São Paulo, lembra que cada pessoa modula os sons de maneira diferente. "Nem todo mundo é receptivo a ruídos de sussurros e arranhões, por exemplo. Para alguns, isso dá agonia. Outros sequer conseguem fazer a prática com fins de relaxamento", fala.

Algumas pesquisas envolvendo ressonância magnética detectaram, de acordo com Haddad, que as regiões cerebrais mais ativas durante as sensações de formigamento foram áreas que também são estimuladas, por exemplo, quando se gosta muito de uma música e você percebe que ela está começando. Na ASMR, essa ativação durou por muito mais tempo. "No entanto, existe uma diferença importante entre o orgasmo sexual e o chamado orgasmo mental. Por mais que tenhamos estabelecido o conceito de que a sensação de prazer seja induzida e estimulada no cérebro, ela pode ocorrer por diversas vias e de inúmeras maneiras. O relaxamento que a ASMR provoca tende a levar o corpo à diminuição da frequência cardíaca e ao relaxamento por longos períodos, como até 30 minutos, bem diferente do que esperamos em experiências sexuais. E a atividade cerebral, nessas análises de neuroimagem, tende a acontecer em locais distintos daqueles associados às vias de recompensa sexuais", explica o neurologista.

É importante ressaltar, segundo Oswaldo, que sussurros e determinados tons de voz são reconhecidos como eróticos por muitas pessoas, além de ser uma estratégia utilizada nos métodos de hipnose e que pode conduzir a vivências semelhantes. "O prazer é um conceito que depende de processos cerebrais de percepção e que são moldados pela experiência individual, valorizando algo positivo", diz.

De fato, a capacidade humana de sentir sensações corporais e sentimentos psíquicos provocados por som não é exatamente uma novidade, tanto para o prazer quanto para o sofrimento. "Por outro lado, o som da voz humana sussurrando marca a memória da maioria das pessoas como sendo o 'som da intimidade'. A grande maioria das pessoas ouviu sussurros enquanto era bebê e recebia afetos e cuidados de um adulto, ao ouvir um segredo íntimo, ao trocar juras de amor e, principalmente, durante o sexo. Assim sendo, da mesma forma que certos perfumes despertam memórias, alguns sons despertam sensações e sentimentos. Portanto, além de intuitivo, é muito provável que a ASMR seja um fenômeno real e que esteja também relacionado às memórias de diversas idades, inclusive do início da infância, perdidas nas profundezas do inconsciente", diz Riechelman.

O médico sexologista destaca que não é necessário que a satisfação de um desejo ou fantasia seja real ou concreta para vivenciar percepções corporais. A satisfação pode ser imaginária e, mesmo assim, pode gerar prazer. É o caso dos vídeos ASMR com conteúdo erótico, que favorecem a sensação corporal de excitação sexual devido à uma satisfação imaginária induzida por ruídos e sussurros", diz.

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