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Após agressão a médica, casal registra ocorrência por violência obstétrica

Casal registrou ocorrência contra médica agredida em hospital - Arquivo pessoal
Casal registrou ocorrência contra médica agredida em hospital Imagem: Arquivo pessoal

Hygino Vasconcellos

Colaboração para Universa, em Porto Alegre

04/06/2020 16h48Atualizada em 05/06/2020 07h46

Quatro dias após a médica Scilla Lazzarotto, de 46 anos, ser agredida e relatar ter sido ameaçada de morte ao fazer um trabalho de parto, o casal que ela estava atendendo registrou ocorrência na polícia contra ela por violência obstétrica. O caso ocorreu na manhã de 29 de maio no Hospital Escola da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), no Rio Grande do Sul, quando a profissional disse que levou socos e pontapés de Wagner Quevedo, 27, marido de Pamela Pinheiro, 27, que estava em trabalho de parto.

Para Universa, a médica afirmou que o homem demonstrava comportamento agressivo e passou a chamá-la de " torturadora" após sugerir que, em vez de parto normal, realizassem uma cesárea. Em seguida, Quevedo teria dado uma voadora nas costas da médica e desferido socos contra Scilla, fugindo na sequência. O parto acabou sendo realizado por um outro médico, e o bebê passa bem.

Em um vídeo de 14 minutos publicado em suas redes sociais, o casal afirmou que a versão apresentada pela médica difere do que, de fato, aconteceu. "Ela (a médica) insistiu no parto normal. Foram várias manobras feitas para o parto normal, muitas eram incômodas. Eu informei que, daquela maneira, eu não estava conseguindo e ela começou a se alterar e me xingar. Falava que eu não estava ajudando a minha filha nascer, que eu não estava aproveitando as contrações, que eu já estava pronta para minha filha nascer, que era só eu fazer força. E, mesmo assim, de eu pedir desculpa e para ela ter calma comigo, que eu estava tentando, ela mais brava ficava", afirmou Pamela.

Ela explicou que estava "exausta" pois passou a madrugada em trabalho de parto - o incidente aconteceu por volta das 11h e o casal deu entrada no hospital por volta das 2h30. "Ela ficava cada vez mais brava, xingando a gente. Começou a xingar o meu esposo, que a gente era incompetente, que se a filha não tinha nascido era por causa minha, que eu não estava aproveitando as contrações."

Em seguida, a médica introduziu um objeto de metal e os próprios dedos para auxiliar no parto. "E me começou a me doer demais, demais e eu implorava para ela tirar os dedos e parar com aquilo ali que estava me machucando", disse a mulher. "Quando ela tirou o instrumento e os dedos, eu pedi para meu esposo: 'não deixa mais ela tocar em mim'."

Neste momento, segundo ela, uma enfermeira verificou que os batimentos do bebê estavam fracos, e Pamela questionou o que estava acontecendo. "Ela (a médica) disse: 'isso é culpa de vocês, se nascer com problema ou morrer é culpa de vocês, que vocês são uns incompetentes, umas crianças'. Nisso, meu esposo empurrou ela e falou que naquela sala ela não ia entrar. Foi quando ela começou a falar um monte de coisa negativa e que teria que fazer uma cesárea de emergência, porque a mãe não estava colaborando", afirmou Pamela.

Também no vídeo, Quevedo reconheceu que agrediu a médica, porém, faz ressalvas ao relato da médica. "Eu estou sendo acusado pela doutora Scilla por ameaça e agressão, mas não foi bem assim que as coisas aconteceram. Eu não tenho orgulho do que eu fiz, mas não é nada disso que ela está falando. (...) Aconteceram várias coisas, ofensas por parte da doutora. Bom, ela torturou a minha esposa e isso foi me abalando cada vez mais. E chegou um ponto que a minha esposa estava gritando lá de dor, chegou a ter desmaios."

Médica mostra marcas da agressão - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Médica mostra marcas da agressão
Imagem: Arquivo pessoal

O homem disse que "implorou pela cesárea" e que, não sendo atendido, passou a "discutir feio" para a realização do procedimento. "Ela disse que a criança iria morrer e que a culpa era toda minha e foi se retirando da sala e falou para a equipe que era para acionar a sirene que era parto de risco. Bom, aquilo me afetou que me desmoronou. Já estava horrível, começou a tortura, estava terrível, quando partiu para o risco de vida ou morte eu saí de mim e perdi a cabeça e empurrei a doutora", disse o marido.

Quevedo salientou que não estava armado e que suas armas são regulamentadas. "Eu não a agredi como ela disse nas reportagens", salientou o homem.

Universa tentou falar com Pamela, mas a reportagem foi informada por uma prima dela que "neste momento ela está muito abalada psicologicamente (e que) ela não está conseguindo dar (entrevista)."

Médico critica agressões

O diretor de interior do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Fernando Uberti, entende que o vídeo divulgado pelo casal tenta "relativizar o ato brutal" contra a médica. "Mesmo que isso fosse verdade, isto justificaria um ato dessa intensidade, dessa natureza? As mulheres de Pelotas, do Rio Grande do Sul e do Brasil achariam justificável que, por exemplo, outra mulher fosse agredida pelo seu companheiro se ela tivesse tido algum tipo de conduta inadequada em relação a ele? Nós não podemos tolerar esse tipo de comportamento", observa o representante da entidade.

Procurada pela reportagem de Universa, a médica Scilla Lazzarotto disse que não iria se manifestar. Já o Hospital Escola da UFPel informou, por meio da assessoria, que está "acompanhando os desdobramentos do caso e já solicitou uma investigação preliminar para esclarecer o ocorrido na maternidade". A reportagem não conseguiu contato com a delegada Márcia Chiviacowsky, responsável pela investigação.

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