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Brasileira morre de malária no Quênia após abandono por medo da Covid-19

Rachel Varoto morreu de malária no Quênia; ela era guia de turismo e ficou doente no pais - Arquivo Pessoal
Rachel Varoto morreu de malária no Quênia; ela era guia de turismo e ficou doente no pais Imagem: Arquivo Pessoal

Júlia Flores

De Universa

05/04/2020 22h05

A brasileira Rachel Varoto morreu no dia 21 de março no Quênia, país na costa leste da África, em decorrência de complicações por conta de malária. Amigos e parentes contaram, em depoimento exclusivo para Universa, que os médicos negligenciaram o atendimento à vítima por medo de ela estar contaminada com coronavírus.

Rachel, que era guia de turismo, estava no meio de um mochilão pelo continente africano quando ficou doente. Ela já tinha passado por outros oito países do continente e acabara de chegar em Kisumu, terceira maior cidade do Quênia. Maria*, dona do Airbnb em que a brasileira ficou hospedada, diz que por pouco não cancelou a reserva da visitante por medo da pandemia de coronavírus, que se agravava mundo afora.

No período seguinte à chegada de Rachel ao AIRBNB, Maria conta que a hóspede ficou isolada em seu quarto durante três dias, até o final da reserva. Ela foi encontrada pela host com um quadro debilitado de saúde e foi levada a um hospital público no centro da cidade, Jaramogi Oginga Odinga.

Rachel chegou ao hospital no dia 20, mas só foi internada na madrugada do dia 21. Pela suspeita de coronavírus, ela foi levada à área de isolamento. Os médicos e enfermeiras, porém, não quiseram se aproximar e não fizeram nenhum exame de sangue na paciente. A equipe mantinha distância por medo de ser contaminada.

A família de Raquel estava ciente da situação e, com a ajuda do consulado do Brasil, conseguiu transferir a vítima para um hospital particular. Assim que a brasileira chegou foi diagnosticada com malária, mas o quadro da doença já estava avançado e ela morreu na noite de 21 de março.

A culpa foi da malária, mas também do coronavírus

Rachel Varoto - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Rachel era mochileira e estava viajando pela África
Imagem: Arquivo Pessoal

"Falei com ela por volta do meio-dia e ela não estava sendo atendida, ninguém queria chegar perto dela com medo de ser coronavírus. Com a ajuda da Maria e do consulado, conseguimos a transferência dela para outro hospital. Levou muitas horas e muitos telefonemas, e ela ainda ficou mais de uma hora na ambulância. O primeiro hospital estava com receio de ser corona e disseram que a área de isolamento já estava lotada", conta Inês Varoto, irmã de Rachel.

Em uma homenagem em um grupo de mochileiros no Facebook, amigas de Rachel escreveram que "a malária levou Rachel para uma viagem que a gente não vai mais poder acompanhar. E só a levou, porque o hospital que ela procurou atendimento recusou atendimento por medo de ser coronavírus naquela 'mulher turista' no Quênia, recém-chegada de tantos outros países do continente. A culpa foi da malária, e indiretamente também do coronavírus, mesmo sem sequer ela ter tido contato com ele".

Este era o terceiro grande mochilão de Rachel, que já tinha viajado sozinha pela Ásia e pela América Latina. Ela foi cremada e as cinzas ainda não foram enviadas ao Brasil.

Situação do coronavírus na África

Segundo informações do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da União Africana (CDC África), o continente já tem mais de 7,7 mil casos de coronavírus e mais de 300 mortes. A África do Sul é o país que lidera em número de casos da doença, com 1.500 infectados. No Quênia, o número de casos oficiais é de 126, sendo 4 mortes, até o fechamento dessa reportagem.

Para o médico moçambicano Félix Pinto, que atua junto ao Ministério da Saúde para prevenção e combate ao coronavírus na África, existe um estigma em relação à Covid-19 por sua elevada taxa de mortalidade. E apesar de o governo e a mídia levarem informação aos cidadãos, a maior parte da população africana vive em zonas rurais e não tem escolaridade até o nível médio.

Ainda segundo o médico, o impacto da pandemia na África só deve ser sentido no começo de maio. Félix afirma que instituições e equipes médicas têm recebido informações sobre o tema, mas que elas não chegam em tempo real para todos os profissionais, como acontece em países que têm plataformas robustas de informação.

Ao comentar a morte de Rachel, o médico disse que achou "curioso" o fato de não terem desconfiado da malária. "Uma das coisas que o Ministério da Saúde tem salientado que, ao receber um paciente com febre, nunca se deve descartar a hipótese de malária, já que ela é uma doença frequente na região, e que mata mais rapidamente que a Covid-19. Em turistas, ela costuma ser ainda mais grave, uma vez que eles não estão expostos ao parasita desde cedo, como os africanos."

Malária x Coronavírus

A malária é uma doença infecciosa transmitida pela picada da fêmea do mosquito anofelino, um inseto parecido com um pernilongo. Segundo o médico moçambicano Félix Pinto, existem algumas formas da doença, sendo a mais grave causada pelo Plasmodium falciparum, comum nos países africanos. Os sintomas iniciais da malária são semelhantes aos da gripe e, consequentemente, aos da Covid-19: febre cíclica, fraqueza e dor generalizada.

Em caso de infecção pelo Plasmodium falciparum, a evolução da doença costuma ser rápida: esse parasita ataca os glóbulos vermelhos, por isso, a doença pode ser fatal se não for tratada adequadamente e com rapidez. "A disfunção de órgãos vitais pode ocorrer após as primeiras horas da admissão do paciente no hospital. Mas quando a doença é identificada precocemente, cerca de 99% de pacientes tem evolução satisfatória até a cura", diz Félix. "Quando não diagnosticada, a doença é geralmente fatal."

*Maria é nome fictício, usado para preservar a identidade da personagem.

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