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O que o relacionamento dos seus pais tem a ver com sua vida amorosa?

Vida amorosa dos pais influencia relação dos filhos - filadendron/Getty Images
Vida amorosa dos pais influencia relação dos filhos Imagem: filadendron/Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

05/02/2020 04h00

Propensão a se relacionar com parceiros controladores, tendência a bancar a ciumenta nos namoros, vocação para se meter em romances complicados e até abusivos. Não, você não tem "dedo podre" para os assuntos do coração, mas provavelmente aprendeu na infância padrões um tanto distorcidos sobre o amor. E, para rompê-los ou ressignificá-los, é preciso fazer uma espécie de "viagem ao passado" e tentar compreender o que aconteceu.

A interação entre os nossos pais é o primeiro exemplo que recebemos sobre como funciona uma relação amorosa. "A influência do relacionamento dos pais em nossas vidas é claríssima. Nossa tendência é repetir os modelos aprendidos, seja pela observação do comportamento, seja pelo que é verbalizado" explica a psicoterapeuta e terapeuta de casais Carmen Cerqueira Cesar, de São Paulo (SP).

Referência desde cedo

Segundo a especialista, a criança idealiza os pais, vendo-os como modelos e, muitas vezes, heróis. "É comum ela internalizar tudo o que vê e o que escuta deles e entre eles porque, supostamente, 'os pais sabem tudo'. Além disso, ela os ama e deseja ser amada por eles", observa Carmen.

De acordo com Raquel Fernandes Marques, psicóloga da Clínica Anime, de São Paulo (SP), os pequenos estão sempre atentos ao ambiente à volta e é assim que colhem matéria-prima para a construção do "eu".

"A partir da primeira infância, aprendem por imitação. Os pensamentos e o comportamento, inicialmente, funcionam como uma repetição daquilo que veem e experimentam. São essas experiências que vão formar a base da memória e, mais tarde, do pensamento da pessoa", aponta.

É por isso que o papel dos adultos é fundamental nesta fase. "A melhor forma de transmitir um valor é através do exemplo, já que as crianças estão atentas o tempo todo ao tipo de comportamento dos pais para, depois, adaptá-los às próprias vidas", comenta a psicóloga.

Na opinião de Carmen, há várias formas de influência positiva: presença de qualidade, amor entre os dois e com as crianças, casal conectado e colaborativo, pais trabalhadores, respeitosos e que sabem colocar os tão necessários limites e dizer "não" de forma eficaz e tranquila, um para o outro e para os filhos.

"Homens e mulheres que se apoiam, valorizam um ao outro, respeitam as diferenças e dão espaço para que cada um exista na sua singularidade certamente vão criar filhos que, na idade adulta, buscarão formas saudáveis de relacionamento", frisa.

Triana Portal, psicóloga clínica e terapeuta de casal, de São Paulo (SP), explica que até os cinco anos a criança não consegue se expressar direito nem nomear sentimentos, mas já percebe o que acontece ao redor. Por volta dos nove anos, há mais capacidade de abstração e compreensão.

"A partir do momento em que começam a ter uma vida social, na escola ou em festinhas, mesmo que ainda estejam em fase de desenvolvimento, sem controle de impulsos e pouco tolerantes à frustração, já atuam com o arsenal e o repertório que conhecem. Se em casa ela ouve xingamentos, presencia violência física ou escuta os pais mentindo, mesmo que eles tenham um discurso de que isso não é legal, na prática, vai imitá-los", detalha.

Tendência à repetição de papéis

E não é só o relacionamento em si bem com o tipo de vínculo que refletem nos filhos, mas também o lugar ocupado por cada um dos pais, como o pai machista e a mãe heroína-sofredora. No futuro, a menina pode repetir esse padrão da mulher infeliz e insatisfeita que só se queixa da vida, incutindo culpa nos outros, ou hostilizar veementemente um parceiro com tal perfil. Nos dois casos, ela estará apenas "reagindo" ao que assistiu e aprendeu.

Filhos criados em ambientes em que há muitas discussões entre o casal tendem a encarar os relacionamentos como fundamentalmente estressantes. "As crianças se enchem de medo e desconfiança diante do amor quando convivem com pais que não se respeitam. Além disso, apresentam mais problemas ao se relacionarem socialmente e maiores dificuldades no setor das amizades", fala Raquel.

Pais discutindo, filhos por perto - fizkes/Getty Images/iStockphoto - fizkes/Getty Images/iStockphoto
Imagem: fizkes/Getty Images/iStockphoto

É comum encontrar pessoas que têm algum tipo de reserva em relação ao casamento porque, no passado, viveram em ambiente familiar marcado por um casal cuja relação tinha mais traços de hostilidade do que de amor, com episódios de agressão, indiferença e frieza ou uma vida toda de violência física ou psicológica. "Se os filhos observam gritos, discórdia e xingamentos em casa, com frequência, tenderão a assimilar esse comportamento e assumir essas características", aponta Raquel.

Já Triana lembra que envolver filhos em problemas adultos que eles não têm maturidade para digerir - como desemprego, falta de dinheiro e crises de relacionamento - faz com que as crianças se sintam culpadas e se julguem responsáveis pela animosidade entre os pais.

Comunicação violenta e tóxica, reclamações, ofensas, alfinetadas, ironia, cinismo são nocivos também. "Traição, ciúmes e abandono deixam a marca de que não se pode confiar em ninguém, tornam a pessoa insegura, desconfiada e controladora. Estar em um relacionamento amoroso pode gerar muita ansiedade e medo", observa.

"Além disso, atualmente passamos por um movimento dos pais querendo criar os filhos para si e não para o mundo, o que é algo que deve ser repensado. A compensação por meio de presentes também não é interessante. Para a criança, é melhor receber uma hora de atenção focada nela do que ganhar um presente caro", garante o psicólogo Yuri Busin, diretor do CASME (Centro de Atenção à Saúde Mental Equilíbrio), em São Paulo (SP).

Mudança de pensamento é necessária

Conforme Raquel, a mudança real vem com a forma que cada pessoa enxerga a vida, seu passado e o presente. Muitas preferem ficar presas na dor que já aconteceu, revivendo fatos antigos, sentimentos e emoções, apegadas aos mesmos argumentos e justificativas, a terem que enfrentar o novo ou o desconhecido.

"Essa escolha faz com que permaneça no mesmo ponto do passado, apesar de viver o momento presente, transformando a situação em um ciclo repetitivo de comportamento. Sem o processo de mudança, ela repetirá o mesmo padrão de comportamento e suas dores e frustrações ficarão intactas", diz.

Na percepção de Carmen, como a vivência ocorre desde muito cedo, tais influências na estruturação psíquica só são percebidas bem mais tarde, quando surgem dificuldades nos relacionamentos amorosos, sofrimento e angústia causados por insatisfação e frustração.

"Aí é que começam a aparecer os questionamentos sobre a origem do mal-estar, com a constatação das situações difíceis que se repetem, dos diversos fracassos amorosos, de tantas impossibilidades. A maioria repete os modelos aprendidos sem perceber e sofre com isso. Outros fazem justamente o contrário do modelo, de forma reativa, e também sofrem, porque ambos estão presos na história familiar. Para serem felizes, precisam se libertar disso e se encontrar", pontua.

Como cada um reage

Algumas pessoas desenvolvem resiliência, sublimam a dor e conseguem ter boas relações amorosas. "Outras, num mecanismo de defesa do ego, criam uma história diferente, um passado idealizado que gostariam de ter tido, bloqueando o trauma. Uma grande parte fica com marcas tão profundas que acaba repetindo o padrão disfuncional, entram e saem de relacionamentos reiteradas vezes, na esperança de reescrever a própria história", pondera Triana.

Pessoas com passado traumático tendem a ter muita dificuldade e sofrimento nos relacionamentos, buscam de forma inconsciente suprir as necessidades e carências da infância e preencher um vazio. "Para quebrar esse padrão é importante exercitar autoconhecimento, que nos permite identificar quais são e como surgiram os hábitos limitantes e, a partir daí, prestar mais atenção em sentimentos e pensamentos, inclusive com a ajuda de uma terapia, para então modificá-los", completa Raquel.

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