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Para despadronizar: em cenário improvisado, moradoras da Maré viram modelos

Jenifer Santos faz pose para o fotógrafo em dia de modelo no projeto FavelaMona - Fabiana Batista/UOL
Jenifer Santos faz pose para o fotógrafo em dia de modelo no projeto FavelaMona Imagem: Fabiana Batista/UOL

Fabiana Batista

Colaboração para Universa

31/10/2019 04h00Atualizada em 31/10/2019 12h39

É no terceiro andar do Espaço Tijolinho, em uma viela próxima à rua principal da comunidade da Nova Holanda, que sete jovens fazem sessões de foto com mulheres negras das favelas do Complexo da Maré, no Rio. Eles fazem parte do FavelaMona.

Aos domingos, o produtor Paulo Victor, 25, o fotógrafo Matheus Affonso, 22, o maquiador Gustavo Ciuprik, 24, a produtora Bárbara Assis, 21, a maquiadora Carol Guimarães, 19, a cabeleireira Kamyla Gauriano, 24, e a produtora Maria Lethícia, 23, se reúnem com ao menos quatro modelos das comunidades do complexo sorteadas nas redes sociais para realizar ensaios fotográficos com produção de maquiagem, cabelo e escolha de roupas e bijuteria.

O espaço onde é realizado os ensaios fotográficos é improvisado com um tecido branco pendurado no teto, tatames que expõem as roupas que serão escolhidas pelas modelos e mesas temporárias de tampo de madeira, onde ficam as bijuterias.

Assim que as modelos chegam, são abordadas pelos maquiadores, que mostram as diferentes cores de sombra e batom, tons de base e a possibilidade de correção das sobrancelhas. "Para nós, o objetivo também é com a autoestima, a mulher olhar para a fotografia e pensar 'Eu posso ser eu mesma'", explica Carol.

Depois, o produtor Paulo Victor ajuda a escolher as combinações de roupas e bijuterias a partir do que elas querem para a sessão. As roupas e bijuterias utilizadas são doações de amigas, e as maquiagens são materiais de trabalho que Gustavo e Carol levam para lá.

Os diferentes corpos da negritude

A reportagem acompanhou uma sessão de fotos no último domingo. As modelos do dia são Ana Flora Galvão, de 1 ano; Jenifer Santos, 27; Sol Targino, 24 e sua filha Violleta, de apenas 1 mês.

Para Gustavo Ciuprik, o objetivo é que as modelos sejam realmente diferentes do padrão. "A moda quer padronizar a beleza e o FavelaMona quer exatamente o contrário. Queremos despadronizar o que essas pessoas conhecem como padrão", diz ele. "No espaço da moda, mesmo que tenham mulheres negras, elas são altas, magras, com seus cabelos blacks enormes ou tranças belíssimas e com a pele incrível. Queremos firmar a ideia de que a moda pode ter diferentes corpos e diferentes expressões e belezas."

Jenifer, uma das mulheres sorteadas nas redes sociais, foi a primeira modelo a chegar ao Espaço Tijolinho. Já vestida com o primeiro look, uma camiseta simples com a frase "Mulher negra é Deus" e uma calça jeans, ela sentou em um banco para ser maquiada por Carol. Seu cabelo cacheado, que vai até a cintura, estava solto. Durante os flashes, Jenifer demonstrou entusiasmo e mesmo sendo sua pela primeira vez como modelo, foi elogiada pela desenvoltura.

"Eu achei bacana, porque quando fui vendo as fotos (nas redes sociais), vi que tinham mulheres de todas as formas, não tinha uma mulher negra padrão, tinha uma mulher negra de cabelo crespo, uma de trança, uma mais magrinha, uma mais gordinha. E aí eu me interessei e ganhei o sorteio."

Bijuterias para a produção de foto do FavelaMona - Divulgação
Bijuterias para a produção de foto do FavelaMona
Imagem: Divulgação
As modelos são, em sua maioria, mulheres que enviaram mensagem e foram sorteadas. Qualquer mulher negra das comunidades do Rio de Janeiro pode participar, basta demonstrar interesse nas páginas do projeto no Facebook (FavelaMona) ou Instagram (@favelamona) e aguardar o sorteio.

Flora, de 1 ano, foi a primeira a ser fotografada —a maquiagem é dispensada em crianças. A mãe, Ana Carolina, levou diferentes peças de roupas e teve ajuda dos produtores para escolher três peças, número de combinações fotografadas pelo projeto.

O resultado das fotos só pode ser visto online, pelo custo menor. Mas o desejo é um dia termos um material revelado que seja distribuído para essas mulheres", diz Paulo Vitor.

Um outro olhar para as favelas é possível

Em um dos intervalos, uma Coca-Cola e uma água gelada são oferecidos para as modelos. O único ventilador que tem não é suficiente para o calor do meio da tarde e é necessário um retoque da maquiagem para dar continuidade ao trabalho. Paulo aproveita para esclarecer que "tudo isso que sai é do nosso bolso e do nosso tempo livre".

Não há ajuda de ONGs ou do poder público, cada um ajuda como pode. Carol Guimarães e Gustavo Ciupryk são formados em maquiagem e trabalham na área.

Paulo Victor é ator do grupo Atiro e diretor do grupo Pantera. Bárbara Assis e Kamyla Galdeano são trancistas. Kamyla também é atriz no grupo no Atiro e compositora, e Bárbara também trabalha como vendedora.

O vaivem das motos e o carro de som parado na esquina da viela tocando forró compõem a trilha sonora dos ensaios e relembram o tempo todo que a sessão acontece em uma das favelas mais movimentada do Complexo da Maré.

Em busca de uma outra representação para aquele território, Affonso e Paulo Vitor aproveitam para dizer que, em geral, a imagem que se tem da favela é só sobre a violência, sobre o corpo caído no chão, sobre as drogas. "A construção da mulher da favela também não é real, ela está no estereótipo da engraçada ou sexualizada", diz Paulo. "Queremos celebrar as individualidades dessas mulheres, mostrar que o corpo delas também é beleza", diz Affonso.

A primeira camiseta escolhida por Jenifer, mas também sua confiança no decorrer do ensaio fotográfico e a conversa durante a produção da maquiagem e troca de roupa, relembram que a mulher negra é mais: ela é resistência, é luta cotidiana.

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