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"Não dependo do meu marido pra nada": como isso pode fazer mal à relação

Kim (Monica Iozzi): a independência a afastou - Reprodução/TV Globo
Kim (Monica Iozzi): a independência a afastou Imagem: Reprodução/TV Globo

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

28/10/2019 04h00

A dependência afetiva é um modo disfuncional de uma relação acontecer. Afinal de contas, a individualidade é necessária não só para que cada um se interesse por outras coisas na vida, além da relação, mas para que, caso as coisas não dêem certo, os envolvidos consigam seguir em frente mais facilmente e de forma madura.

Entretanto, o excesso de individualidade pode culminar numa contradependência, que também é bastante perigosa.

"Na verdade, são dois lados da mesma moeda, pois em ambas as situações estamos falando de polaridades e não de equilíbrio. Nas duas circunstâncias estamos nos referindo a pessoas com medos, inseguranças, que se desqualificam e que têm dificuldade em lidar com as suas questões", fala Renata Azevedo, psicóloga especialista em terapia de casal pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Na contradependência, que pode ser uma característica de apenas um dos dois, a pessoa tem dificuldade de criar vínculo, sente medo de intimidade e não quer que o outro interfira na sua vida e na sua liberdade. Não há, evidentemente, envolvimento emocional.

Segundo a psicóloga clínica Tânia Campanharo, de São Caetano do Sul (SP), fatores como imaturidade afetiva e traumas decorrentes de relacionamentos anteriores mal resolvidos também podem estar por trás dessa atitude, à primeira vista, mais solta e independente. "Essas pessoas não se isolam, ao contrário, contam com um círculo de amigos bastante grande justamente para preencher o temor da dependência, da intimidade, da profunda troca com o outro. Portanto, fogem para não sofrer", explica.

A contradependência, de acordo com Poema Ribeiro, psicóloga e sexóloga de São Paulo (SP), também costuma ter sua origem na infância. "Essas crianças cresceram em um ambiente familiar onde as emoções não podiam ser expostas. Ou, pior ainda, eram desvalorizadas", declara. Daí a dificuldade em lidar com sentimentos na vida adulta — e, claro, compartilhá-los com alguém.

Na opinião de Poema, tão difícil quanto conviver com alguém dependente é se relacionar com alguém que não abre espaço para a construção a dois. "As relações baseadas na contradependência seguem um percurso que, quase sempre em algum momento, leva uma das pessoas envolvidas a perceber, primeiro de maneira sutil, depois de forma palpável, que algo está faltando, que existe uma certa barreira entre eles. O resultado é uma espécie de solidão a dois", conta a psicóloga.

Preservar a liberdade e a individualidade de cada um é importante para um relacionamento afetivo, mas passam a atrapalhar quando o par deixa de ter momentos a dois, evita pensar em planos e como casal, passando a fazer tudo sozinhos e a excluir o outro da sua vida. "Nesse caso, o casal deixa de ser um casal e o outro passa a ser um 'acessório' na vida dele", comenta Renata, para quem o ideal é que cada pessoa viva a sua individualidade — cultivando hobbies, saindo com amigos, se cuidando —, mas sempre pensando no casal como uma unidade, o que inclui fazer coisas juntos, sair, planejar o futuro, ter objetivos em comum, etc. "Para formar um casal você não precisa excluir a sua individualidade, já que esse é um dos medos dos contradependentes.

Basta investir no equilíbrio entre viver a sua liberdade e individualidade e viver a dois. Assim, a relação fica saudável", completa a terapeuta de casal. Já Rodrigo Casemiro, psicólogo junguiano, clínico e hospitalar de São Bernardo do Campo (SP), lembra que muitas pessoas sentem um pavor tão grande de se entregarem à uma relação que acabam concentrando todas as energias na vida social e/ou profissional. Elas encaram qualquer romance como sinônimo de depender de alguém. "Dessa forma, os relacionamentos ficam afetados porque ou não se iniciam ou são breves e tendem a se desfazer quando os elos se estreitam", fala Rodrigo. Como pode haver cobrança por parte da outra pessoa, discussões acabam interrompendo uma história que mal começou, mesmo que parecesse promissora.

Ainda conforme Rodrigo, as emoções pertinentes aos afetos nos deixam, de certa maneira, vulneráveis, e encarar a própria vulnerabilidade não costuma ser fácil. "As relações nos colocam sempre no papel de aprendiz. O outro, muitas vezes, é um espelho e devolve o que precisamos melhorar em nós. Nem todo mundo está disposto a lidar com isso." Ele diz também que, embora a contradependência pareça uma escolha, complexos e traumas de ação inconsciente podem estar envolvidos, daí a importância de investir no autoconhecimento para romper tal padrão.

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