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Grupos a favor e contra aborto legal mantêm vigília em hospital de SP

Grupo pró-aborto legal em frente ao hospital Pérola Byington - Divulgação
Grupo pró-aborto legal em frente ao hospital Pérola Byington Imagem: Divulgação

De Universa

27/10/2019 18h14

Neste domingo (27), quem passa em frente ao hospital Pérola Byington, referência no atendimento à mulher e indicado para a prática de abortos seguros e permitidos por lei, em São Paulo, vê duas barracas montadas: em uma delas, um grupo mantém vigilância religiosa representa a campanha "40 dias pela vida", rezando pelo fim do aborto. Na outra, pessoas que se organizaram pelas redes sociais, em um movimento encabeçado pela escritora Daniela Neves, levantam cartazes como "Bíblia não é constituição" e "Rezar não evita estupro".

Daniela e outros participantes chegaram ao espaço na última sexta-feira (25). Segundo a organizadora, a ocupação da praça em frente ao hospital pelas duas frentes — que defendem posições opostas — tem sido pacífica.

Ela contou para Universa que a polícia militar chegou a dialogar com as duas partes, e os agentes confirmaram que não havia problema de eles permanecerem na praça. A expectativa é que o grupo "40 dias pela vida" fique lá até 3 de novembro, quando acaba a quarentena proposta pelo movimento.

Neste domingo, segundo Daniela, os religiosos se fecharam dentro da barraca, enquanto os ativistas pró-aborto legal realizam churrasco e até a comemoração de aniversário de uma das participantes, que resolveu mudar a festa com familiares e amigos para a praça pública.

Manifestantes não conversaram e se mantêm distantes um do outro - Divulgação
Manifestantes não conversaram e se mantêm distantes um do outro
Imagem: Divulgação

"O que estamos fazendo é mostrar para eles que a maioria das pessoas não pensa como eles. Eles estão fazendo uma vigília agressiva, estão assediando as mulheres. Nós estamos aqui como um muro para que eles não tenham acesso às pacientes, aos médicos e funcionários", explica. "A gente está com uma bandeira legalista. Eles fizeram um altar com Bíblia, e a gente fez um para a Constituição".

A escritora aponta que a permanência do grupo a favor do aborto legal já está sendo organizada para os próximos dias, em contrapartida ao prazo do outro grupo. "Estamos fazendo uma planilha de quem poderá ficar. Eles não estão rezando, mas constrangendo pacientes e médicos. Deveria ter um guarda municipal aqui, fazendo um monitoramento, mas agora validou essa abordagem, porque a [ministra] Damares convocou".

Reprodução
Imagem: Reprodução

Universa esteve conversando com os militantes contra a realização do aborto na última semana. Na ocasião, participantes mostraram reprodução de fetos, placas e cartazes contra o direito à interrupção da gestação.

Vale lembrar que, entre 2015 e 2019, a unidade hospitalar realizou cerca de mil abortos legais.

Licença da Prefeitura

Por telefone, a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de São Paulo informou que a Subprefeitura da Sé, que contempla a região do Pérola Byington, não tem conhecimento de nenhuma licença emitida para que os manifestantes "pró-vida" permaneçam no local.

Neste domingo, a reportagem entrou em contato com um porta-voz do movimento "40 dias pela vida" por um número de WhatsApp associado a eles, solicitando entrevista sobre a situação em frente ao Pérola Byington. Recebemos como resposta um "Agradeço, mas não temos interesse algum".

Aborto e leis

A legislação brasileira não permite o aborto. Dois casos são exceção: quando a mulher é estuprada ou quando não há outro meio de salvar a vida da gestante. Não há punição prevista para ela no Código Penal. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal liberou a interrupção de gravidez de feto anencéfalo.

Direitos da mulher