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"Andamos mais de 100 km": venezuelanas narram caminho para chegar ao Brasil

Maria Fernanda Marin vendia suco e salada de fruta na rua para sobreviver no Brasil - Arquivo Pessoal
Maria Fernanda Marin vendia suco e salada de fruta na rua para sobreviver no Brasil Imagem: Arquivo Pessoal

Breno Damascena

Colaboração para Universa

26/04/2019 04h00

No caminho que traçou até encontrar um lar no Brasil, a jovem Maria Fernanda Marin teve de superar inúmero obstáculos. Suas experiências começaram quando ainda vivia em sua terra natal, a Venezuela. Lá, trabalhava no restaurante do marido e as coisas iam bem até 2013. Naquele ano, o país enfrentou uma incerteza política que provocou o descontrole da inflação e a escassez de alimentos. A vida de Maria mudaria para sempre.

O inevitável fechamento do estabelecimento aconteceu quase ao mesmo tempo que ela, então com 17 anos, teve a primeira filha. Para superar a crise, o marido criou uma nova empresa, que prestava serviços para a indústria petroleira. Encontraram novamente estabilidade e conforto, mas aquilo duraria pouco tempo. O negócio começou a desmoronar e faliu quando ela estava grávida do segundo filho.

Maria conta que a falta de emprego, comida e remédios impulsionou a decisão do casal de se mudar para a República Dominicana. "Muitas vezes, não tinha nada para comer", justifica. Diante da falta de perspectivas e desespero causadas pela crise social, política e econômica que afeta a Venezuela, estima-se que 5 mil pessoas saiam do país todos os dias. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 3 milhões de pessoas fugiram nos últimos anos e o número deve subir para 5 milhões até o final de 2019.

Entrando nas estatísticas, o casal vendeu carro, casa e tudo que tinham conquistado até o momento para comprar as passagens para a ilha caribenha, mas lá encontraram novas dificuldades. Moravam em uma pensão ao lado de um lixão municipal, sem ventilador, sem água para banho e com apenas quatro horas de energia elétrica por dia. Maria acordava às 3h para vender café, suco e salada de frutas nas ruas da cidade. O marido ficava em casa para cuidar das crianças.

Algum tempo depois, conseguiram emprego e moradia em um hotel local, onde a família inteira dividia um colchão e trabalhava 12 horas por dia em turnos separados. Após um ano nessa condição, não suportaram e voltaram para a Venezuela, mas notaram que a situação estava ainda pior. Decidiram, quatro dias depois, se mudar novamente, dessa vez para o Brasil. Maria, o marido, os dois filhos e o irmão logo chegariam de ônibus a Boa Vista, em Roraima.

Francismary (de branco, ao centro) recebendo a família quando eles chegaram ao Brasil - Arquivo Pessoal
Francismary (de branco, ao centro) recebendo a família quando eles chegaram ao Brasil
Imagem: Arquivo Pessoal

Como não tinham dinheiro para alugar uma casa, dormiram na rua e voltaram a trabalhar vendendo coisas na estrada. Juntaram dinheiro e se mudaram para Porto Velho, em Rondônia. Ela conta que essa viagem seria o pior momento da sua vida. O ônibus que estavam quebrou perto de Manaus por causa da chuva e das péssimas condições da pista. Passariam quatro dias na selva sem água e comida potável até a ajuda chegar.

Sobrevivendo em um país onde mal falava o idioma e sem dinheiro para as despesas mais simples, Maria viu aos filhos enfrentarem infecções adquiridas nesses dias. O irmão pegou malária e ela própria teve problemas de saúde. "Só pedia a Deus para me ajudar, como ele sempre fez", lembra. Recorreu, então, a ONG Fraternidade Sem Fronteiras, que desenvolve projetos humanitários e ajuda venezuelanos imigrantes a se adaptarem ao país.

No centro de acolhimento, ela conheceu diversas pessoas que passavam por situações parecidas. Com o auxílio da instituição, voluntários e amigos que fizeram no Brasil, a família conseguiu se encaixar. Hoje, moram em Lajinha, Minas Gerais. Maria trabalha em uma hamburgueria e como cuidadora de idosos. O marido encontrou uma oportunidade na saladaria de um hotel local e o irmão trabalha em uma oficina mecânica. Ela comenta, orgulhosa, que os filhos estão matriculados na escola e aprendendo a falar português.

Ela sonha, agora, em conseguir ajudar a família que ficou na Venezuela. "A travessia foi difícil, mas tenho que agradecer por tudo. O Brasil tem nos brindado com a oportunidade de ter direitos iguais e trabalhar dignamente, além de educação para os meus filhos. Acho que a situação na Venezuela não vai melhorar tão cedo. Quero continuar encontrando aqui minha segunda casa, minha segunda terra", comenta.

Chegando a pé

De acordo com relatório do Grupo de Trabalho da Organização dos Estados Americanos OEA, esse é a segunda maior crise de imigrantes e refugiados do mundo. Todos os dias, cerca de 800 venezuelanos entram no Brasil pela cidade de Pacaraima (RR) e a trajetória normalmente envolve uma caminhada a pé até a capital. Foi esse o caminho adotado por Francismary Perez.

Com 38 anos, a enfermeira tem dois filhos --uma menina de 15 anos e um menino de dez-- e morava com as crianças e a na casa da mãe desde o divórcio. "Eu tinha carro, emprego e uma vida tranquila e estável, até que tudo mudou. De um dia para o outro, o dinheiro que recebia não era mais suficiente para pagar as contas", lamenta. Para cobrir as necessidades da família, vendeu tudo que tinha e passou a encarar muitas dificuldades.

Entretanto, foi quando o filho contraiu pneumonia e ela se viu sem dinheiro para comprar remédio que decidiu sair do país. Ao lado de uma colega de trabalho e um amigo da família logo começaram a viagem. Quando atravessaram a fronteira e chegaram em Pacaraima perceberam que todo o dinheiro que os três haviam juntado contabilizava apenas R$ 120 , insuficiente para o ônibus que levaria à Boa Vista.

Entre as diversas caronas que pegaram com desconhecidos, eles andaram muito. "Caminhamos mais de 100 quilômetros a pé". No caminho, passaram por algumas comunidades indígenas, onde lhes ofereceram banho, água potável e refeições. Após a longa caminhada, chegaram e encontraram uma praça cheia de venezuelanos dormindo no chão, vivendo em condições insalubres. "Dormi lá por vários dias. Foi muito triste e chocante para mim", recorda.

Conseguiram, finalmente, entrar em contato com uma pessoa que havia prometido ajudar. Logo Francismary passaria a dividir um quarto com cinco homens e a amiga. Foi quando começou a vender brigadeiro e limpar vidros de carro nos semáforos da cidade. Até que conheceu o Fraternidade Sem Fronteiras, onde começou a colaborar como cozinheira aos fins de semana e entregando marmitas a outros venezuelanos em situação de rua.

Com o apoio de uma voluntária da organização, Francismary conseguiu se mudar para um apartamento em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e buscar a mãe e os filhos na Venezuela. "Não foi fácil ficar nove meses longe deles. Apesar de tudo isso, aqui eu tinha alimentação todos os dias. Ficava preocupada pensando se eles tinham comido", relata. Atualmente, ela trabalha como diarista e, apesar de não ter se adaptado completamente ao idioma, garante que a vida está mais tranquila. "Aqui no Brasil tive a oportunidade de renascer de novo", comemora.

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