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Afrofuturismo resgata o protagonismo negro no Brasil racista

Artista do coletivo Afrobapho, que tem referência futurista - Divulgação
Artista do coletivo Afrobapho, que tem referência futurista Imagem: Divulgação

Brunella Nunes

Colaboração para Universa

02/03/2019 04h00

Trazer novas narrativas carregadas de ancestralidade fortalece o movimento negro e resguarda, inclusive, a sua existência. Para se perpetuar no tempo e no espaço, o afrofuturismo se coloca como um mecanismo de avanço, contra o apagamento racista da memória, a favor do protagonismo e da representatividade nas mais diversas áreas de atuação: política, moda, arte, música, dança, cinema, literatura, ciência, tecnologia e pesquisas acadêmicas.

Complexo, o movimento trabalha para o resgate da história, ao mesmo tempo que adiciona camadas de inovação, centradas nas origens africanas. É também um exercício de imaginação carregado de simbologias estéticas, mas mais do que isso, extrapola a linha da fantasia e se consolida de modo palpável aos olhos do público. 

A África Oriental é considerada o lugar onde tudo começou, o berço da civilização. Embora contestados ao longo do tempo, estudos científicos comprovam a teoria por meio do surgimento do homem no continente, há cerca de 3 milhões de anos, e de ferramentas históricas sofisticadas, encontradas em sítios arqueológicos do território africano. Fato é que, desde sempre, desenvolve-se ali um conhecimento empírico, pautado por grupos étnicos diversos, tornando-a matriz de diversas tecnologias. A arquitetura, a matemática e a astronomia são outras áreas com colaborações africanas para a humanidade.

"O afrofuturismo se propõe a fazer um exercício denominado pelo povo Akan como Sankofa: retornar ao passado para buscar aquilo que é importante na construção do futuro. É essencialmente pautado pela recuperação de saberes, conhecimentos e referências ancestrais para dialogar com a realidade presente focado na construção de um futuro com possibilidades de existência", define Morena Mariah, criadora de conteúdo no Afrofuturo, organização que quer tornar o exercício de imaginação fantástica numa metodologia de ensino a ser inserida nas escolas. "Sankofa é representado por um pássaro africano de duas cabeças que, segundo a filosofia, simboliza algo como voltar ao passado para ressignificar o presente" completa a pesquisadora e cozinheira etnogastronômica Leila "Negalaize" Lopes.

Sun Ra - Divulgação - Divulgação
O filósofo americano Sun Ra, o cabeça da teoria do afrofuturismo
Imagem: Divulgação

O fio condutor do afrofuturismo deu-se pelo  filósofo norte-americano Sun Ra, lá na década de 60. Poeta, músico, performer e instrumentista, era dono de uma criatividade, um visual e um som bastante autoral, peculiar mesmo, como se vê no disco "Cosmic Tones For Mental Therapy" (1967). Surrealista, ele alimentava o discurso de que vinha de outro planeta, no caso, Saturno, se colocando como uma figura divina da raça negra que alimenta até hoje uma utopia sci-fi. Criou um plano paralelo para si, a fim de ecoar sua voz, física e espiritualmente, para nunca adormecer diante do passar dos anos. A partir da dinâmica de ficção especulativa tão pautada por este homem espacial, passou-se a tecer o fio da meada, que vai do resgate à emancipação africana.

Chegando nos anos 1990, o teórico Mark Dery deu sua contribuição ao movimento, mesmo sendo branco, para endossar ainda mais a teoria afrofuturista, aproveitando o progresso tecnológico e cibercultural da época. A partir de entrevistas com três artistas e intelectuais negros, Greg Tate, Tricia Rose e Samuel R. Delany, lançou o "Black to the Future: Ficção Científica e Cibercultura do Século XX a Serviço de uma Apropriação Imaginária da Experiência e da Identidade Negra". Questiona-se a partir de então qual seria o desdobramento de futuros possíveis por uma parcela grande da população que teve sua identidade roubada e história apagada no período de escravidão.

Trazendo a discussão de forma mais contemporânea, o filme "Pantera Negra", baseados nas histórias em quadrinhos da Marvel, de 1966, consagrou de vez todas as referências, caindo no gosto do público e da crítica. Carregado de tecnologia avançada, personagens negros protagonizando uma história heróica e elementos estéticos afrocentrados, o longa levou diversos prêmios, como estatuetas do Oscar para Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora Original em 2019. Aparentemente, as coisas nunca mais serão as mesmas.

Erykah Badu, Solange Knowles e Janelle Monáe são algumas das artistas gringas que, de alguma forma, sempre se colocaram à frente de seu tempo, popularizando as influências afrofuturistas a partir de como se colocam diante de suas carreiras, dos looks às vertentes ideológicas, sempre carregadas pela valorização do que pertence ao povo negro. No Estados Unidos, a bandeira recentemente foi ainda mais erguida pelo Afropunk, um festival de música alternativa, marcado por inúmeras nuances afrofuturistas e cyberpunks, que ganhou proporções globais, mesmo sem nunca cruzar o oceano. Serve de espelho para a juventude em busca da construção de sua autoestima e liberdade para ser quem quiser ser.

No Brasil

No país onde o genocídio negro e o racismo estrutural latente parecem não dar uma trégua, a boa notícia é que os meios de ativismo e resistência seguem numa corrente de força cada vez mais consolidada. Por conta de ferramentas afrofuturistas, encontra meios diferentes de se fazer presente, tanto nas ruas, nos palcos e no meio acadêmico, quanto no consciente coletivo. A soma dos fatores leva ao rompimento da estruturação social excludente e violenta do país. Esse é o desejo coletivo que alimenta as narrativas especulativas propostas pelo movimento, na luta contra as atuais estatísticas.

Em terras brasileiras, o movimento segue tímido, mas ativo e com bastante potencial pela frente. No cinema, o filme "Branco Sai, Preto Fica" (2015), de Adirley Queirós, já se tornou um clássico nacional nestes termos. Na literatura, o escritor Fábio Kabral trouxe ao mundo o livro "O Caçador Cibernético da Rua Treze", história de futuro distópico, protagonizada por um caçador negro, que imagina uma tecnologia movida a entidades espirituais, ressaltando a mitologia africana. Há também Ale Santos, que foca suas energias em pesquisas e escrita de histórias africanas através do perfil Savagefiction, no Twitter. 

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A cantora Xênia França
Imagem: Thomas Artuzzi/Divulgação

Na música, exemplos como Carlinhos Brown, Ellen Oléria, Rico Dalasam, Karol Conká, Xênia França, Jonathan Ferr, Caio Nunez e As Bahias e A Cozinha Mineira bebem dessa fonte. Já os grupos Senzala Hi-Tech, Mariwô e Das Pretas atuam em diferentes plataformas, da fotografia ao audiovisual, passando pelo empreendedorismo, a moda e a tecnologia.

Alan Costa, do coletivo de artes visuais Afrobapho, formado por jovens negros LGBTT da Bahia, destaca como a arte é um instrumento de expressão e diálogo muito importante na atual conjuntura. "É um meio que conversa em todas as línguas e classes. Ocupamos as ruas para que se naturalize a presença dos nossos corpos negros e LGBTT, para que não sejam violentados ou subjugados, para que parem de nos marginalizar e de achar que devemos ficar em guetos. O que parece utópico na verdade retroalimenta o pensamento de continuidade do nosso povo".

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Artista do coletivo Afrobapho
Imagem: Divulgação

Morena afirma que ao longo do tempo foram criados muitos instrumentos para que o povo negro não entre em extinção diante as inúmeras adversidades, citando como exemplo o conceito de Quilombismo de Abdias do Nascimento. "É um exemplo de saber construído na resistência. A capoeira como luta que se disfarça de dança na proteção de um corpo hiperexposto à violência é outro exemplo. Os terreiros de Candomblé são outro exemplo de estrutura fincada na sobrevivência da espiritualidade africana."

Na gastronomia, os brasileiros sempre se destacaram, mas teimam em se esquecer das origens indígenas e africanas temperando a comida. Leila Lopes, proprietária de um bistrô, afirma que até hoje vários chefs conceituados buscam inspirações na culinária quilombola, indígena, ribeirinha e popular, sem citar suas fontes. "Os que têm uma pseudo ética colocam um condimento ou azeitona em cima do prato, quando levam para seus restaurantes, porém muitos copiam e colam a receita". 

Ela criou um conceito de etnogastronomia, que estuda a cozinha étnica e também a aplicação dos saberes antepassados, como o de ouvir a natureza por meio da espiritualidade. Hoje, isso pode ser feito através do Arduíno, prototipagem eletrônica aplicada, por exemplo, à leitura da energia e sentimentos das plantas. "Identifiquei que afrofuturismo também tem esta vertente na cozinha. Com a tecnologia, é possível unir o saber ancestral do povo negro em relação ao poder do alimento preparado, agradando sempre que possível a energia que a pessoa carrega em si, seja a de nascença, Orixá, ou a que ela está passando no dia".

Carregada de referências afrofuturistas, a cantora Xênia França passou a ocupar um lugar inspirador dentro desse campo de atuação, propagado especialmente pelo clipe "Pra Que Me Chamas", embora ela não use o termo para denominação própria. Segundo a artista baiana, existe atualmente um processo de recobrança da memória ancestral, energética e tecnológica dos descendentes de África, que ao ser despertado e dominado pela população negra, resulta em uma autonomia genuína. "O racismo sempre impede o nosso desenvolvimento. Mas nesse momento há uma manifestação nítida e visível de pessoas pretas que vêm trabalhando em sua autogerência, reconhecendo as potências de seu DNA precioso. Tomando conhecimento, passam a usá-lo a seu próprio favor. Se o acesso for em larga escala, pode vir a acontecer uma nova retomada de valores, de estrutura, de dignidade, enfim, todos os desdobramentos da emancipação. É para isso que estamos aqui agora. Para relembrar o plano e colocá-lo em prática", afirma.

E por que é tão fundamental aprender sobre tudo isso? Para que a história pós-colonialismo não se repita nunca mais. As perspectivas de futuro ajudam a educar as crianças, especialmente as negras, que precisam ter orgulho do passado para projetar o amanhã sem interferências eurocentradas ou impostas por pessoas brancas de classe dominante. 

Morena recorda que, a partir de um vídeo da escritora Ytasha Womack falando sobre sua experiência de futuro especulativo negro numa escola, despertou seu interesse em desenvolver um projeto de conteúdos educacionais. "Iniciei uma escrita voltada a contar trajetórias de negro-africanos que mudaram a história do mundo e foram invisibilizados pela historiografia tradicional ou a recontar essas histórias a partir da afroperspectiva. Agora estou expandindo a ideia como metodologia de criação e educação."

Além de alimentar as bases educacionais, é também imprescindível trabalhar em cima do autoconhecimento para a visualização de um futuro afrocentrado saudável. "É uma educação emocional que a gente não tem em casa, nem na escola. Não estudamos quem nós somos para desenvolver o nosso 'eu', sem estar pautado no que a família quer. Através de uma autoconsciência espiritual, independente de religião, se abrem muitos caminhos para a pessoa conseguir se compreender a partir de sua própria ótica interna."

De variadas formas, a sociedade tentou e ainda tenta extinguir o empoderamento dos povos negros que, no final das contas, está presente no embrião da Terra. O manto africano que cobre o mundo tem poderes especiais, de fato. Ele se regenera como poucos, torna-se mais forte, alcança distâncias mais brandas, permeando territórios diversos, colorindo o infinito. Mesmo em momentos de desamparo, é preciso sim vislumbrar o futuro, olhar o céu noturno e enxergar o brilho das estrelas, que nunca desaparecem, reluzem mesmo diante de tantas guerras galácticas.
 

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do informado em versão anterior desta matéria, a comunidade científica tem evidência da presença dos primeiros homens na África há cerca de 3 milhões de anos, e não há 14 bilhões de anos. A informação já foi corrigida.

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