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"Ainda somos vistas como prostitutas", diz primeira advogada trans do Piauí

Flávia Vellenares (ao centro) durante a cerimônia de entrega das carteiras da OAB, em Teresina - Arquivo pessoal
Flávia Vellenares (ao centro) durante a cerimônia de entrega das carteiras da OAB, em Teresina Imagem: Arquivo pessoal

Mariana Gonzalez

Da Universa

23/02/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A OAB permite a emissão de carteiras com o nome social desde 2016, mas até agora apenas 13 dos 26 estados brasileiros emitiram o documento
  • Segundo a Ordem, há apenas 41 profissionais trans com nome social no documento; uma delas é Flávia Vallenares, a primeira advogada transexual do Piauí

Desde que se matriculou na Faete (Faculdade de Atividades Empresariais de Teresina), em 2014, Flávia Vallenares, de 33 anos, sabia que seria a primeira transexual formada em Direito no Piauí. O que não esperava, no entanto, era ser dona da primeira carteira da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) emitida com o nome social do profissional.

"Pessoas trans estão nos jornais todos os dias porque foram mortas ou agredidas. Naquele dia [6 de fevereiro, data da cerimônia da OAB para a entrega das carteiras], o povo do Piauí abriu o jornal e viu uma transexual advogada", comemorou, em entrevista à Universa.

Com a diplomação de Flávia, no dia 6 de fevereiro, o Piauí tornou-se o 13º estado brasileiro a emitir uma carteira com o nome social -- ou seja, como a pessoa transexual prefere ser chamada. Apesar de o direito ser garantido a todos os advogados transexuais do país desde 2016, metade dos estados ainda não emitiu nenhum documento do tipo.

O motivo: falta de pessoas trans nos cursos de Direito e, em consequência, aprovadas no exame da ordem.

"Travestis e transexuais ainda são vistas como prostitutas. Mesmo no indústria da beleza, é difícil ver uma mulher trans trabalhando como cabeleireira em um salão de alto nível", lamenta. "Enquanto o mercado de trabalho fechar as portas e não nos ajudar a garantir o pão de cada dia, infelizmente continuaremos fora do ensino superior."

Para Flávia, tornar-se advogada pode ajudar outras mulheres trans a seguir o mesmo caminho: "Não sabemos quando vai acontecer novamente. Quero ser um trampolim para outras mulheres transexuais e espero que a minha conquista sirva para justificar a luta das pessoas LGBT", disse.

Trajetória

Enquanto muitas pessoas trans param de estudar porque sofrem preconceito, Flávia diz não foi alvo de discriminação durante a graduação. "Dos funcionários mais simples aos mais altos cargos da reitoria, todos estavam aptos a me atender enquanto pessoa transexual". O mesmo aconteceu durante os dois anos de estágio no Detran (Departamento de Trânsito) do Piauí.

"Se havia [transfobia], não foi na minha frente. Nunca cheguei em casa me sentindo magoada ou diminuída. As pessoas têm ideia de que o Direito é uma área engessada, conservadora, mas é ela que garante nossa cidadania", defende.

Durante a graduação, ela se orgulha de ter sido eleita presidente do Centro Acadêmico, cargo que ocupou durante quatro anos, por dois mandatos seguidos, exercendo trabalho social -- não necessariamente ligados à população LGBT. "Procurei mostrar que nós, transexuais, podemos atuar em qualquer frente, sem necessariamente levantar bandeira".

Agora advogada, acabou de assumir a vice-presidência da Comissão da Diversidade Sexual da OAB do Estado e atua na área de direito da família. 

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