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A organização americana por trás dos protestos contra o aborto em frente a hospital de São Paulo

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Imagem: BBC

Letícia Mori

Da BBC News Brasil em São Paulo

01/11/2019 18h23

Hospital Pérola Byington dá atendimento ginecológico e psicológico a pacientes que foram vítimas de estupro, para quem aborto é legal no Brasil em caso de gravidez decorrente do crime.

Centro de referência em atendimento a vítimas de violência sexual, o Hospital Pérola Byington, em São Paulo, é também referência na realização de aborto legal e seguro para as vítimas — o procedimento é permitido no Brasil em casos de estupro, risco de vida para a mãe ou malformações que inviabilizem a vida da criança fora do útero.

Desde o início do mês passado, as vítimas de estupro que vão ao hospital receber atendimento médico têm deparado com uma barraca montada por religiosos bem em frente ao local.

O grupo, chamado 40 Dias pela Vida, diz em seu site que tem como objetivo "rezar pelo fim do aborto" e decidiu levar sua militância ao local. Seus integrantes penduram, de forma bem visível para quem entra no hospital, imagens de bebês "pedindo para nascer", mensagens como "aborto destrói gerações" e carregam miniaturas de fetos desenvolvidos.

O 40 Dias pela Vida é uma ramificação do grupo americano 40 Days for Life (que tem o mesmo significado em inglês) que existe desde 1998 e faz duas vezes por ano ações em frente à clínicas de aborto nos EUA, onde o procedimento é autorizado em qualquer circunstâncias até a 24ª semana de gravidez (as leis variam dependendo do Estado).

Nos EUA há um forte movimento conservador atuando para restringir o direito ao aborto, com dezenas de grupos fazendo pressão para o fechamento de clínicas de assistência ao planejamento familiar, do programa "planned parenthood". As clínicas não oferecem apenas aborto, mas dão assistência quanto à câncer, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, métodos anticoncepcionais e outras questões relativas à saúde da família.

O 40 Days for Life é um dos grupos cujo objetivo é ir além dos EUA ? em seu site, eles afirmam que são "uma campanha internacionalmente coordenada".

O movimento começou na cidade de Bryan, no Texas, em 1998, por um grupo de protestantes. Em 2007, fizeram uma campanha nacional nos EUA e depois começaram a exportar o modelo para o mundo todo. Hoje o grupo se diz ecumênico e é presidido por um homem, o escritor e documentarista Shawn Carney.

Em seu site, afirmam que já fizeram campanha em Toronto, Londres, Sidney, Cidade do México, Cidade do Cabo, Bogotá e Moscou.

Incômodo para pacientes

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Quatro funcionários do hospital disseram à BBC News Brasil que as pacientes têm ficado muito incomodadas com a presença do grupo. Uma técnica de enfermagem disse uma das pacientes, que tinha sido estuprada e estava grávida, estava chorando na semana passada e dizendo que era "por causa do grupo lá fora".

Duas participantes do 40 Dias Pela Vida, incluindo a líder Celene Salomão de Carvalho, 54, chegaram a ir parar na delegacia no mês passado depois de se atracarem fisicamente com uma das pacientes do hospital, que diz que havia se aproximado do grupo para contar sua história.

A paciente era a assistente de produção J., que começou a ser atendida no hospital após ter sido sequestrada, levada para um cativeiro e estuprada. Ela recebe atendimento psicológico e ginecológico.

No caminho de entrada, J. tinha de passar duas vezes por semana em frente à barraca dos religiosos. "A presença deles estava atrapalhando muito o meu tratamento. Eu estava muito mal desde o que aconteceu isso [o estupro] comigo, e por causa do grupo comecei a ter pesadelos com temas religiosos", diz ela, que cresceu em família católica.

"Eu tomei pílula do dia seguinte, mas não tinha certeza se estava ou não grávida [por causa do estupro]." J. conta diz que não conseguiu contar sua história ao grupo. "Começaram a gritar comigo", conta ela, que começou a gritar de volta.

Ela conta que, então, um homem "grande e forte" a atacaou e segurou pelo pescoço. "Ele ficou me segurando enquanto uma mulher me dava tapas no rosto, no braço", diz J., reiterando à BBC o relato que deu à polícia. Após a confusão, os funcionários do hospital levaram a paciente para dentro do prédio, onde ela recebeu atendimento.

A BBC News Brasil tentou ouvir Celene pessoalmente, por telefone e por WhatsApp, mas ela se recusou a falar com a reportagem. No depoimento dado à polícia, ela disse que J. "tentava tirar a barraca do local" e que foi até ela para "apartar" a discussão com outra mulher do movimento.

A coordenadora do grupo na América Latina, Lourdes Varela, disse à BBC News Brasil que violência e agressão "não são parte do protocolo de atuação do grupo" e que Celene não quis falar por estar "sob muito stress".

"Todos os voluntários têm que assinar um termo de 'não-violência', porque a nossa atuação é pacífica", diz ela. "Temos que ser a face de Cristo."

Na declaração de paz que os voluntários precisam assinar constam vários itens. Eles se comprometem a "mostrar compaixão e refletir o amor de Cristo" e concordam que "atuar de maneira violenta" os desassocia imediatamente da campanha.

Guardas

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Varela não soube informar se o homem que testemunhas dizem ter dado "mata-leão" em J. era um voluntário registrado que assinou o documento ou "alguém que apenas estava por ali".

O grupo de Celene tem contratado guardas para sua tenda. No sábado, 27, havia dois deles — um deles usava a camisa de uma empresa de segurança.

Eles disseram à BBC News Brasil que não fazem parte do movimento, mas no meio da conversa foram interrompidos por Celene, que os orientou a "não dar uma palavra" à reportagem.

Varela diz que "não há provas de que Celene tenha agido violentamente" no episódio envolvendo a jovem que foi vítima de estupro.

Ela enviou os vídeos gravados no dia para a BBC News Brasil, mas os trechos curtos (o maior tem 1 minuto e 37 segundos) não mostram a confusão na íntegra. Mostram parte da briga, em que não é possível ver o homem enforcando J., apenas ela e os religiosos gritando.

J. diz que vai pedir a íntegra dos vídeos à Justiça.

O episódio não foi o primeiro encontro Celene com a Justiça. Em abril de 2019, ela foi condenada pelo TJ-SP por injúria racial em um episódio em que, de acordo com denúncia apresentada pelo Ministério Público, teria xingado uma mulher negra no aeroporto dizendo ""você é feia, olha esse seu cabelo, olha essa sua cor, vai arrumar esse cabelo".

A mulher tentava, segundo o processo, impedir "um protesto violento" de Celene contra a filósofa americana Judith Butler, que visitava o Brasil. No processo, a religiosa argumenta que sua atitude partiu de "injusta provocação" da vítima.

A BBC News Brasil questionou o 40 Days for Life sobre o andamento do processo, mas Varela diz que não tinha informações sobre esse caso e que só poderia comentar até ter "todas as informações de todos os lados".

Dois grupos na praça

No sábado passado, ao chegar em frente ao hospital para montar a barraca, Celene viu que já havia pessoas no local em que costuma ficar.

A escritora Daniela Neves leu a história de J. em uma reportagem da Agência Pública e começou a reunir pessoas pelo Twitter para ir em frente ao hospital e evitar que outro episódio como o que aconteceu com a jovem se repetisse.

"[O aborto em caso de estupro] é um direito garantido no Brasil, elas não podem impedir. A gente quer manter um grupo que seja seja favorável à liberdade das mulheres para que elas fiquem confortáveis", diz à reportagem.

Com ajuda de amigos e também de desconhecidos, ela rapidamente conseguiu uma tenda, várias garrafas de água, comida, cadeiras e uma Constituição Federal. Acordou às 5 da manhã e chegou na praça em frente ao hospital às 6h30, antes dos religiosos.

Foi acompanhada por dezenas de pessoas ao longo do dia, que se revezaram em diferentes horários.

A relações públicas Camila, que mora na região, viu a barraca dos religiosos quando estava passeando com os cachorros. "Achei [os cartazes e a presença do grupo ali] uma violência sem tamanho com mulheres que já sofreram uma violência", diz ela, que desceu para oferecer seu banheiro ao grupo que militava pelos direitos das mulheres.

Celene foi procurar a Polícia Militar, pedindo para que o grupo que chegou primeiro fosse retirado. Os PMs disseram que não poderiam impedir o outro grupo de fazer uma manifestação.

Mas disseram que Celene tinha uma autorização da Prefeitura e pediram que o grupo pelo direito das mulheres fosse mais para o lado, o que eles fizeram na hora.

No entanto, segundo a Secretaria de Subprefeituras de São Paulo, não foi encontrado registro de nenhuma autorização emitida para o 40 Dias pela Vida.

Durante a manhã de sábado, o restante do grupo religioso não apareceu. Veio apenas uma mulher que se ajoelhou no local e começou a rezar.

Ao ser questionada pela BBC News Brasil se poderia falar sobre os 40 Dias pela Vida, se aproximou em grande velocidade gritando para a reportagem "seguir o seu caminho", afirmando que não queria ser fotografada. Em seguida empurrou a câmera de uma documentarista que filmava a cena.

Ela estava vestida com uma camiseta de Nossa Senhora Mãe Rainha, cuja devoção tem como objetivo "espalhar pelo o mundo o amor de Jesus". Não quis dizer seu nome, se afastou e se posicionou na esquina, rezando.

À tarde, Celene apareceu com os dois guardas e começou a montar sua barraca. Ela se recusou diversas vezes a conversar com jornalistas.

A assistente judicial aposentada I., moradora da região, disse à BBC News Brasil que dois dias antes havia tentado conversar com o grupo de religiosas, por ser ela mesma católica, mas se sentiu intimidada.

"Inicialmente me receberam bem, mas quando argumentei que talvez fosse melhor rezar em outro local e que a presença dos cartazes ali já era uma violência com as vítimas de estupro, que estão muito fragilizadas, começaram a gritar", conta. "Me chamaram de 'assassina', 'católica de merda' e 'satã'", diz I., que pediu para não ter o nome divulgado.

O que diz o grupo americano

O 40 Days for Life diz que a "oração e jejum" são feitos em frente aos locais onde o aborto é realizado "para conscientizar as pessoas", mas que o objetivo não é atacar quem faz o procedimento.

"Nosso inimigo não é a mulher, não é o médico, é o demônio", afirma Varela, que diz que o objetivo é acolher as pessoas.

O grupo, no entanto, não oferece nenhum tipo de assistência à mulheres que por ventura desistam de fazer o aborto. "Nós atuamos com oração e jejum", diz Varela. "Mas fazemos parcerias com outros grupos pró-vida, nós [conjunto de grupos antiaborto] damos várias opções às mulheres", afirma.

Uma das defensores dos direitos das mulheres que estavam na praça diz ter questionado Celene sobre iniciativas de acolhimento em São Paulo. Ela teria dito que "tem, mas não pode falar".

Após ouvir o relato, a reportagem tentou mais uma vez conversar com Celene e fazer a mesma pergunta, mas um dos guardas se colocou na frente e pediu para a reportagem se afastar.

Candidata a deputada federal

Celene foi candidata à deputada federal pelo PSL em 2018.

Recebeu 10 mil de recursos públicos do Fundo Eleitoral através do partido para fazer sua campanha. Segundo prestação de contas ao TSE, ela gastou maior parte dos recursos da campanha em serviços de gráfica. O grupo católico Dai-me Almas recebeu R$ 3 mil para fazer "marketing político".

Sua candidatura, no entanto, acabou impugnada pelo TSE por problema na filiação partidária.

O 40 Days for Life diz que vai averiguar todas os relatos envolvendo a atuação da líder do grupo.

"O que eu posso dizer por enquanto é que os fatos mostram que durante a campanha [antiaborto] ela não quebrou o acordo de paz e foi atacada diversas vezes por militantes a favor do direito de escolha [da mulher]", diz. Mas afirma que a orientação em caso de ataque não é revidar.

"A gente já teve casos de pessoas que não foram bons líderes, nesse caso a gente os desliga da campanha", diz Varela. Mas afirma que, pelo que sabe até agora, não é o caso da brasileira.

O grupo que faz vigília na praça em defesa dos direitos da mulher diz que não houve nenhum ataque por parte das pessoas que estão ali.

O que diz a Igreja Católica

A BBC News Brasil perguntou à CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) se o grupo criado por Celene tem qualquer ligação formal com a Igreja Católica. A entidade não respondeu.

O grupo leigo Católicas pelo Direito de Decidir, que há 30 anos luta pelos direitos das mulheres no Brasil, publicou uma nota de repúdio em relação a atuação das católicas em frente ao hospital.

"Não aceitaremos que mulheres em situação de especial vulnerabilidade sejam constrangidas ao buscarem o serviço", diz a nota. Durante esta semana, o grupo foi à praça e instalou um banner "na luta pelo Estado laico e contra os fundamentalismos".

Neste sábado (2/11), será o 40º dia, e portanto o último, da presença do grupo na praça, quando haverá o encerramento da campanha.

O grupo pelos direitos das mulheres, que esteve todos os dias fazendo vigília no local, também deve estar presente. "A gente se organiza que as pacientes do hospital não fiquem desamparadas", diz Daniela Neves, que começou a chamada para o local pelo Twitter.

Direitos da mulher